“No fim das contas”, por Rafiza Varão

Cobertura jornalística da infância, inclusive em casos de violência em ambientes escolares, ainda ignora os direitos da faixa etária, mesmo

Atualizado em 28/04/2023 às 14:04, por Rafiza Varão.

Opinião

“Quando a sociedade já perdeu seu vigor e a sensação de estagnação está presente em todo lugar, quem sofre mais os seus efeitos, quem recebe sua influência de maneira mais clara, é o sistema de ensino. Ou seja, é a escola, é a sala de aula”

Haruki Murakami, em Romancista como vocação



Há muito, as crianças deixaram de ser vistas como pequenos adultos, muitas vezes até como degeneradas, e passaram a ser percebidas, com razão, como atores especiais de uma fase decisiva na formação de cada ser humano: a infância. Desde então, as maneiras de se perceber a infância passaram a se situar na esfera do cuidado, da proteção e, mais recentemente, do seu reconhecimento como sujeitos de direitos, não apenas meros corpos no mundo sujeitados (e aqui a aliteração surge proposital) à vida dos adultos. Essa admissão não se aparta da perspectiva de que, também, a infância corresponde a uma etapa de extrema vulnerabilidade, devendo ter prioridade absoluta, com suporte integral, como destacado na Constituição Federal brasileira:


“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” - Artigo 227, Constituição Federal.


Em 2019, publiquei aqui, no Portal Imprensa, uma pequena análise de como o jornalismo brasileiro encampava essas questões e de como, de fato, o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) auxiliou na construção de uma práxis jornalística mais comprometida com essa prioridade absoluta, ainda que o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros não tenha acompanhado minimamente o marco regulatório.


Contudo, os recentes episódios de crimes e ameaças nas escolas do Brasil acabaram por revelar que, apesar dos esforços louváveis feitos no sentido de realizar coberturas mais éticas sobre esses eventos, pouco se avançou no sentido de oferecer uma produção que tornasse central os direitos de crianças e adolescentes, no fim das contas (ou seria no começo?) os mais afetados pela conjuntura que exalta a violência como forma de resolução de conflitos, não traz perspectiva de futuro, difunde o ódio como linguagem e motor de exclusão do outro e afirmação de si, espalha desinformação, flerta continuamente com o extremismo e a exaltação das armas – e traz a possibilidade de pertencimento que as mídias sociais oferecem a quem se ancora em grupos que reverberam todos esse elementos.


Sobretudo após o ataque em Blumenau (SC), em que quatro crianças foram mortas e outras cinco ficaram feridas, os veículos jornalísticos brasileiros passaram a defender estratégias de cobertura que não espetacularizem nem os autores do crime nem o evento que, ao serem divulgados pelos meios de comunicação, correm o risco de serem incorporados a uma espécie de cultura pop subvertida, fazendo com que ambos adquiram notoriedade e caráter de culto. Essa percepção se alinha, igualmente, à tentativa de diminuição do efeito contágio, diretrizes que ficam claras no comunicado do Grupo Globo, lido por William Bonner no Jornal Nacional do dia 5 de abril. Outra ação relevante foram as matérias sobre como conversar com crianças e adolescentes sobre a situação que se alevantou nas últimas semanas no país.


As iniciativas, importantíssimas ainda que tardias, entretanto, focam mais nos agressores e no evento em si. E a ética muitas vezes se faz assim, ao caminhar. Mas é necessário que incorporem, também nesse caminhar, as crianças atingidas, as famílias, as escolas, as comunidades. Esses sujeitos e espaços precisam ser compreendidos e protegidos, para além de uma reação apenas de indignação e de punição aos criminosos; ou da inserção de policiais no ambiente escolar e uso de detectores de metais; ou da frustração dos planos de quem buscava visibilidade ou vingança com o mal perpetrado. Qual a serventia de explorar a dor de pais, de mostrar um homem que chora na rua abraçado à mochila de seu filho? Crianças podem ser revistadas? A escola deve ser estigmatizada como lugar de insegurança, em que cada um passa a ser criminoso em potencial? O que leva as próprias crianças a cometerem desatinos? Como evitá-los? Qual é o planejamento para uma cultura de paz que avance sobre o futuro?


Essas questões não podem ser normalizadas nem ignoradas pelo jornalismo, mas avaliadas crítica e continuamente, esclarecendo os cidadãos e garantindo os direitos dos pequenos. Depois de um ataque sobram traumas, dúvidas, instabilidades, vidas desfeitas, recomeços dolorosos. Antes, a desordem em algo.


Crédito:Fernando Frazão/Agência Brasil

Como bem notou a Associação de Jornalistas de Educação (JEDUCA), uma das poucas a buscar uma abordagem sobre os direitos da infância, “Um aspecto importante nessa cobertura é considerar que a escola é uma comunidade e não um espaço público qualquer: na escola, as pessoas interagem, criam vínculos afetivos, as famílias confiam na segurança daquele espaço. Além disso, a escola faz parte da identidade dos estudantes e educadores”. Também o Lunetas tem atuado nessa direção, entendendo que uma abordagem mais sistêmica daquilo que vem afetando a sociedade brasileira como um todo, e há um bom tempo, traz pistas mais concretas para o enfrentamento de crimes e violências que tem como alvo lugares que se sonharam como seguros, como refúgios da infância.


A epígrafe que abre este texto, de Murakami, sinaliza exatamente isso. Mas, agora, lembro de outra passagem igualmente arguta e visionária sobre este mundo. Em Tudo o que é sólido desmancha no ar (Editora Schwarcz, 1986), o filósofo estadunidense Marshall Berman diz: “Logo depois de terminado este livro, meu filho bem-amado, Marc, de cinco anos, foi tirado de mim. No mundo moderno, aqueles que são mais felizes na tranquilidade doméstica talvez sejam os mais vulneráveis aos demônios que assediam esse mundo”. Cabe aos jornais não aumentar essa vulnerabilidade.



Crédito:Arquivo Pessoal

* é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.