Ninguém é uma ilha". Será?
Ninguém é uma ilha". Será?
Existe um livro, cujo autor não me lembro agora e estou com preguiça de pesquisar, cujo título é "Ninguém é uma ilha". Não li o livro, mas discordo. Acho que somos todos ilhas. A humanidade inteira, um imenso arquipélago. Nascemos, vivemos e morremos ilhas. Construímos pontes temporárias com os outros, através de amizades,namoros, casamentos, familias que se formam e se desfazem, blogs, páginas no Orkut etc. Mas intrínsecamente somos criaturas solitárias. Até mesmo os filhos, que nascem de nós, se tornam ilhas, e na adolescência ficam emocionalmente a milhas de distância. Quase precisamos emprestar da Nasa aquele telescópio poderoso, voltado para o passado, para continuar vendo nossas ilhotas se afastando.
E não nos conformamos com isso. Queremos as pontes, queremos ser aceitos, queremos pertencer a algo, ou a alguém. Queremos ser amados, compreendidos, queremos nos livrar dessa sensação apavorante de que estamos sós, nesse mundo cheio de incertezas, onde nada é garantido e tudo sempre pode estar por um triz. E a morte nos espera no final.
Todo dia recebo dezenas de emails indesejados, os famosos spams. E antes de deletá-los dou uma olhadinha. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que aqui nos Estados Unidos existe uma indústria de "treinadores para solteiros", ou como eles dizem aqui "Dating coach". Não simplesmente sites de relacionamento, como imagino deve haver vários aí no Brasil também. Mas gente especializada em armar estratégias, planos, para que solteiros desesperados encontrem um namorado ou namorada, alguém com quem dividir suas solidões durante um tempo.
O spam que recebi veio de uma mulher chamada Patti Feinstein. Ela diz ter aproximado milhares de solteiros e ter ensinado outras centenas de solitários a encontrar suas caras metades. Grandes e importantes jornais e revistas americanos a reconhecem como uma das melhores no negócio de formar pares - matchmaking - e ela dá consultoria para um canal de televisão cuja programação é totalmente voltada para o público feminino.
Além disso, sua experiência e bons resultados no negócio já foram notícia na imprensa da Nova Zelândia, Holanda e Inglaterra, e ela oferece aulas sobre o assunto numa das mais prestigiosas escolas de Chicago, além de conduzir palestras e seminários de uma costa a outra dos Estados Unidos. Também já participou de vários programas de rádio e TV e oferece uma série de serviços de consultoria, inclusive de acompanhar o cliente durante uma caçada na selva dos solteiros, e ajudá-lo a encontrar e atacar da maneira certa a vítima escolhida.
Ela cobra caro. São 150 dólares por sessões de 1 hora, que podem ser cara a cara, pelo telefone, pela Internet, ou acompanhando o cliente durante uma saída, para identificar o que ele (ou ela) tem feito de errado para não atrair ninguém. E no que precisa e pode melhorar para aumentar as chances de sucesso.
Com a objetividade característica dos americanos, o site dela diz assim: "se você é empresário e tem um problema na contabilidade, não contrataria um contador ? Pois então: é isso que eu faço. Eu ajudo a desenvolver suas habilidades para atrair aquela pessoa certa para você. Você é um homem que tem dificuldade em se aproximar de um grupo de mulheres? Se me contratar, eu, como mulher, consigo me infiltrar no grupo e fazer um diagnóstico daquela mulher na qual você está interessado. E mais: sou capaz de fazê-la ver que você é um cara que vale a pena ela considerar."
Fui checar o , para poder escrever essa coluninha. E achei tudo muito curioso e interessante. Na página em que há dicas de onde encontrar a pessoa ideal ela gratuitamente indica sites relacionados com o negócio, inclusive um direcionado para aqueles solteiros e solteiras amantes de gatos e cachorros, chamado wannaplaywithmypuppy.com, que traduzindo seria "querbrincarcommeufilhote.com".
Os interessados podem marcar um encontro pros animais de quatro patas se conhecerem, dão um passeio juntos, conversam, e se rolar alguma química entre os animais de duas patas a partir dali a coisa toma o rumo habitual. Diz ela que usando essa estratégia as pessoas não ficam tensas, como quando vão pra um primeiro encontro com um desconhecido ou alguém que só conhecem por papos virtuais. E as chances de sucesso ficam maiores, porque pelo menos já sabem que tem algo em comum, ou seja, o amor pelos animais.
Indica também um site (trustedties.com) que faz um check up completo da vida pregressa daquela pessoa na qual o cliente pode estar interessado,trazendo inclusive fotos atuais para evitar surpresas desagradáveis, violências e inclusive roubo de identidade, coisa super comum aqui nos Estados Unidos. Uma amiga minha, judia, entrou num site de relacionamento só de judeus, e foi encontrar com um sujeito num restaurante que pela foto parecia o Mel Gibson, e inclusive chamava Melvin, ou Mel, para os íntimos. Encontrou o Mel sim, mas sem o charme e a beleza do Gibson, nem o humor do Brooks, e ainda bem mais envelhecido do que a foto tinha mostrado, faltando cabelo e sobrando feiúra. A pobre ficou meses traumatizada.
Como falei, aprendi muita coisa interessante no site da Patti Feinstein. Só discordei de uma coisa. Na página em que indica bons lugares para começar a caçada a um novo namorado ou namorada, ela é taxativa: "se afaste dos bares. Você não vai encontrar ninguém que preste dentro de um bar".
Não vou discutir com uma expert no assunto, quem sou eu. Mas posso dizer, por experiência própria, que pelo menos nos bares você vai encontrar gente divertida, com quem dividir uns drinks e construir algumas pontes durante umas horas. E não vai ter que carregar um saquinho de plástico para recolher o cocô do cachorro, como no site indicado anteriormente. E já vai saber, que pelo menos o gosto pela bebida vocês já tem em comum. E que provavelmente também concordam com aquela célebre frase do Bogart de que o mundo e as pessoas ficam muito mais interessante e suportáveis depois de algumas doses. Já é um começo.






