“Ninguém cobria um escândalo melhor do que Manchete”, lembra Salomão Schvartzman

Na esteira do especial 200 anos de revista no Brasil, publicado este mês na versão impressa, o Portal IMPRENSA traz, na íntegra, a entrevist

Atualizado em 09/01/2012 às 13:01, por Pamela Forti.

“Ninguém cobria um escândalo melhor do que Manchete”, lembra Salomão Schvartzman

a com Salomão Schvartzman. O atual colunista da Band News FM trabalhou durante na revista e TV Manchete, até a falência do império de comunicação da família Bloch. A seguir, Schvartzman relembra a experiência na Manchete e fala sobre a relação com Adolpho Bloch.

IMPRENSA - Na sua opinião, qual era o diferencial, a inovação que a revista Manchete trazia, em termos de jornalismo?

Salomão - Antes de mais nada, é preciso situar o contexto em que Manchete surgiu, em 1952. Sua única concorrente, como revista semanal ilustrada, era O Cruzeiro – uma vovó nascida em 1928 e àquela altura já sem o viço e a energia que caracterizaram seus primeiros tempos. Também é necessário destacar que a primeira revista semanal de informações, Veja , é de 1968 e claudicou por pelo menos cinco anos. Manchete, portanto, reinou anos a fio como uma revista “moderna”, no espíritodo novo Brasil que nascia em Brasília. Além disso, correndo quase sozinha no mercado de revistas, Manchete levava a sério seu slogan: “Todas as revistasnuma só”. Da política ao show business, do esporte ao cinema, a pauta agradava a todos. Aos poucos, Manchete substituiu “O Cruzeiro” nas barbearias e consultórios médicos como a chamada “revista de espera” – aquela que o cliente pega primeiro para folhear, enquanto aguarda sua vez. Num tempo em que a Veja engatinhava e a Caras nem sonhava existir, Manchete de fato “sobrava” no mercado.

Ao longo dos quase 50 anos de existência da revista, o formato e a linha editorial sofreram modificações? Como o senhor descreve a linha editorial e a linguagem da revista?

Manchete foi se adaptando a seu tempo, a começar pela lenta transmutação do preto e branco das páginas dos primeiros anos para o extravagante “ektachrome”,que passou a dominar integralmente a revista em meados dos anos 70. O uso da cor deu nova roupagem e renovou Manchete, que passou a dar um show em grandes coberturas – como a primeira viagem do homem à Lua e a Copa de 1970. Sempre comuma linguagem atraente – durante pelo menos 20 anos, Manchete sempre teve amelhor redação do país. Em dado momento, só para dar um exemplo, Ruy Castro eCarlos Heitor Cony estavam entre os homens que burilavam os textos dosrepórteres da revista. Nenhum texto sem sal resistia a essas penas brilhantes.

Quaisas maiores polêmicas em que a revista esteve envolvida? Quais as capas mais marcantes?

Manchete nunca foi uma revista polêmica, no sentido que têm hoje as revistas semanais de informação, capazes de derrubar ministros e incomodar o governo. De1964 a 1985, provavelmente o auge da revista, o Brasil viveu sob um regime militar que não comportava “oposição” por parte de uma revista como Manchete, especializada no jornalismo fait divers. Mas, política à parte, acredito que um dos grandes “escândalos” da revista nesse período foi a capa e a cobertura interna dedicada ao acidente com o 707 da Varig em Paris. Um fotógrafof ree-lancer calhou de estar por perto na hora da queda e fotografou a tragédia em detalhes horripilantes, com passageiros carbonizados ainda atados àspoltronas pelo cinto. Manchete comprou esse material e publicou-o, com grande impacto. A revista vendeu 500 mil exemplares, quase o dobro de sua tiragem normal, mas amargou o rompimento da Varig com seu departamento comercial porquase dois anos.

Mas muitas capas marcaram época. Lembro de uma, particularmente. Manchete fechava às segundas-feiras, para sair às quartas. Com isso, chegava sempre na frente das demais revistas semanais, que a esta altura tinham conquistado uma fatia demercado, quando ocorria algum acontecimento explosivo nos fins de semana. A morte de Airton Senna foi um desses acontecimentos de domingo.

Mas outro,ocorrido numa terça-feira, quando Manchete já deveria estar praticamente rodadana gráfica, mostrou a grande agilidade do jornalismo da Bloch numa época em quenão se trabalhava com computadores, internet, celulares e outros meiosabsolutamente fundamentais para a mídia de hoje.

Por volta das 12h oras do dia 19 de janeiro de 1982, um repórter da minha equipe da sucursal de São Paulo estava indo almoçar, num dia particularmente morno para a revista,quando ouviu no rádio a notícia da morte súbita de Elis Regina. Atônito, ele parou seu carro na Alameda Itu, acessou um telefone público e ligou a cobrar para a redação da revista no Rio, torcendo para que aceitassem a ligação. O próprio editor, Roberto Muggiati, atendeu. O repórter, Celso Arnaldo Araujo, tomou fôlego e anunciou, pela primeira e última vez em sua vida , o velho clichê que só se ouve em cinema ou na ficção: “Parem as máquinas!”

E as máquinas foram paradas, literalmente, no parque gráfico da Bloch em Parada de Lucas. Sóque a capa original, com Julio Iglesias, não só já estava impressa como coladaao primeiro caderno da revista. Não seria possível substituí-la. Mas nas primeiras horas de quarta-feira, as bancas do Rio começavam a receber osprimeiros exemplares de Manchete com a capa dedicada à morte de Elis Regina, ilustrada por uma foto da cantora com seus filhos João Marcelo e Maria Rita, esta com três anos, de óculos e usando um tampão na vista esquerda. O que foi feito da capa com Julio Iglesias? Nada. Ela saiu nessa edição por baixo da capa com Elis, grampeada sobre ela. Pela primeira e última vez, Manchete saiu com duasc apas – uma por cima da outra.

Crédito:Foto: Agência NaLata Criação: House Band Salomão Schvartzman

Como era trabalhar na revista Manchete? Na sua opinião, qual a contribuição que ela deu ao jornalismo brasileiro e à sua carreira?

Adorava a reunião de pauta, às terças-feiras. As feras estavam todas lá, em torno da mesa discutindo a próxima edição :Justino Martins, Raymundo Magalhães Jr., Carlos Heitor Cony, Fernando Sabino, Arnaldo Niskier, Zevi Ghivelder,Ruy Castro, Roberto Mugiatti, CelsoArnaldo Araujo, Caio Freitas, Mauricio Gomes Leite, Carlinhos de Oliveira,Narceu de Almeida, e “last but not least”, eu. Acreditem que era uma autênticaacademia de jornalismo, uma plêiade, quando lembro, que me “honra, eleva econsola”.

Como era conviver com Adolpho Bloch, pessoal e profissionalmente?

Quando O Globo mandou-me à Alemanha, em 1962,fui apresentado a Adolpho Bloch porLuís Brunini, na feira Mundial de Artes Gráficas, em Dusseldorf. Eu disse “Muito prazer”, e o Adolpho, aos 53 anos, com um nariz que parecia um acidente topográfico, responde “Muito prazer é o cacete, me dá um cigarro”, “Não fumo, seu Adolpho”, “E qual é seu defeito?”, “Gostar de gente assim mal-educada”, “Tá bom garoto, vamos almoçar juntos”. E foi uma amizade de 38 anos. Hoje sinto queeu ajudei mais o Adolpho, do que ele me ajudou. Foi a única recordação saudável que salvei dos meus longos anos na BlochEditores.

O restante está no processo que faço contra a massa falida onde busco indenização pelos meus 38 anos de trabalho até hoje sem receber um tostão. São 12 anos de espera.

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