Ney, o Provocador

Ney, o Provocador

Atualizado em 18/12/2008 às 14:12, por Toninho Spessoto.

Ney Matogrosso se fez artista num tempo em que a mídia não dispunha exatamente do poder de fogo de hoje. Claro que influenciava na formação de ídolos, mas a engrenagem não era tão acintosa. Havia o jabá? Certamente. Favores eram feitos por debaixo dos panos? Sem dúvida. Mas ainda existia espaço para a honestidade, para a projeção do real talento.

Quando os Secos & Molhados surgiram, em 1973, houve um misto de susto, indignação e surpresa. Susto pelo visual excêntrico e inesperado para os padrões da época, indignação - por parte de puristas e radicais - com os trejeitos dos integrantes do grupo, notadamente o vocalista Ney Matogrosso , surpresa pelo inusitado da coisa como um todo, do repertório ao figurino. Mas foi impossível não reconhecer a qualidade do cantor e de seus companheiros, João Ricardo e Gerson Conrad .

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Ney Matogrosso

O primeiro disco, puxado pos sucessos como O Vira , Sangue Latino e Rosa de Hiroshima (poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad ), jogou todos os holofotes sobre Ney , João e Conrad . Eles surpreendiam e, para alguns, incomodavam. Mas ninguém ficava imune à qualidade e carisma extraordinários do vocalista. Desde a primeira aparição pública, no programa Mixturação, de Walter Silva , na TV Record, já se vão 35 anos. E a magia continua, na longevidade da carreira solo de Ney Matogrosso .

A Universal lança a caixa retrospectiva Camaleão , que reúne 17 discos solo do cantor, sendo 16 de carreira e uma compilação com raridades, em trabalho de fôlego produzido pelo competente jornalista e pesquisador Rodrigo Faour . Os emblemáticos três primeiros trabalhos de Ney Matogrosso aparecem pela primeira vez em CD, com áudio reconstituído de discos de vinil, uma vez que as masters se deterioraram. As várias faces de Ney , do conceitual ao pop e depois a guinada para trabalhos de MPB tradicional estão retratadas através de discos antológicos como Água do Céu - Pássaro (1975). Bandido (1976), Feitiço (1978), Mato Grosso (1982), Destino de Aventureiro (1984), Pescador de Pérolas (de 1987, onde um Ney de cara limpa canta clássicos da MPB acompanhado por Arthur Moreira Lima , Paulo Moura , Raphael Rabello e Chacal ) e À Flor da Pele (de 1991, mais um álbum de MPB com o cantor acompanhado ao violão por Raphael Rabello ).

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Em Pois É , de 1983, não está a polêmica Telma Eu Não Sou Gay ( Calúnias ). Explica-se: à época a gravação foi incluída no disco à revelia de Ney . Ele havia gravado a satírica versão do hit radiofônico Tell Me Once Again , do grupo brasileiro Light Reflections (que cantava em inglês) para um disco de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, que eram companheiros de gravadora (a antiga Ariola). A direção artística prometeu que a gravação entraria somente no disco dos Miquinhos , mas quando o então novo trabalho de Ney foi para as lojas, lá estava o registro, o que o deixou enfurecido. Atendendo a um pedido do intérprete, Rodrigo Faour excluiu o fonograma dessa edição feita para a caixa Camaleão .

Além do inegável valor musical e histórico, o pacote nos faz retroceder a um tempo em que verdadeiros artistas se firmavam pelo talento, por mais que houvessem esquemas de mídia à sua volta. Infelizmente isso cada vez mais se torna coisa do passado, pseudo-ídolos são construídos da noite para o dia.

Que a verdadeira Arte existe, existe. Falta apenas que a deixem respirar...