"Nenhuma imagem compensa uma vida", diz Marcelo Moreira, presidente eleito da Abraji

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Atualizado em 25/11/2011 às 18:11, por Guilherme Sardas.

Abraji
Marcelo Moreira

No último dia 6, a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Gelson Domingos, atingido por uma bala de fuzil em operação do BOPE, na favela de Antares, no Rio, reacendeu a discussão sobre a segurança de jornalistas que atuam em ambientes hostis.

Quase 10 anos após o brutal assassinato do repórter Tim Lopes, da TV Globo, em 2002, após ser torturado por traficantes da favela da Vila Cruzeiro, no Rio, as mesmas questões parecem persistir. O que pode ser feito para reduzir o número de mortes de jornalistas em zonas de risco? Como atenuar o perigo em coberturas do crime organizado, guerras...? Enfim, o jornalista investigativo está fadado ao compartilhar do risco de um soldado ou policial em meio a um conflito armado?

Marcelo Moreira, atual vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), e presidente eleito para o biênio 2012-13, é um dos profissionais brasileiros cuja atuação é guiada por estas preocupações. Antes de chegar à entidade, em 2005, o jornalista, que é ainda editor-chefe do RJTV segunda-edição, da TV Globo, tornou-se representante da emissora carioca no conselho do International News Safety Institute (INSI), entidade que reúne as principais empresas de comunicação do mundo para melhorar a segurança da atividade jornalística. Hoje, Moreira é diretor do braço latino-americano do órgão.

Na entrevista abaixo, o jornalista fala à IMPRENSA sobre como tem procurado conciliar os esforços das duas entidades para trazer treinamentos regulares a jornalistas brasileiros, comenta sobre as características dos principais cursos de segurança disponíveis no mundo e defende que tanto os jornalistas quanto as empresas devem aprender para "conhecer seus limites".

Como você se envolveu com a temática da segurança jornalística?

Quando o Tim Lopes morreu, a imprensa brasileira acordou para o fato de que estava diante de um cenário de risco real. Então, um grupo de jornalistas começou a pensar o que poderia ser feito para evitar que aquilo se repetisse. Foi muito por isso que nasceu a Abraji, que tem como uma de suas missões melhorar a segurança do jornalista. Além disso, em 2003, o INSI foi fundado, tendo como fundadores a TV Globo e as principais empresas de comunicação do mundo. Em 2005, eu passei a fazer parte do conselho deste instituto.

Como o INSI tem trabalhado para garantir a segurança dos jornalistas?

A missão principal é fazer treinamentos, lidar com qualquer tipo de ação que possa proteger jornalistas em área de conflito, seja no Iraque, no Afeganistão ou no Rio de Janeiro. Em 2006, fizemos as primeiras ações no Brasil: um treinamento no Rio e outro em São Paulo. Cem jornalistas de rádio, TV, jornal foram treinados, tudo pago inclusive pelo sindicato das empresas, pois, graças à primeira experiência, durante a negociação salarial anual entre patrões e empregados, discutia-se, também, a questão da segurança. Então, passou-se a incluir um parágrafo pelo qual as empresas se comprometiam a fazer treinamentos. De 2007 a 2011, esta cláusula foi inserida na negociação, mas as empresas não chegaram a um acordo, e esses treinamentos acabaram não acontecendo.

A ideia do INSI é oferecer treinamentos regulares? O que falta para isso acontecer?

A ideia é ter cursos regulares e itinerantes. Para isso, você tem que ter um grupo de membros que garanta os fundos, apesar de os custos por jornalista serem razoavelmente baixos. Tendo isso, os cursos serão periódicos e poderiam variar de região pra região, porque as realidades do RJ e do SP são diferentes da realidade do Nordeste ou do Centro-Oeste. Se consolidarmos isso no Brasil, buscaremos que isso ocorra também na América Latina.

Como funcionam esses treinamentos? Que tipo de situações são simuladas?

Existem vários formatos. Em geral, você pode escolher cursos de três, quatro ou cinco dias. O jornalista aprende primeiros socorros, como reagir no meio de um tiroteio, como se proteger, como buscar abrigo. Tem coisas que o jornalista não sabe, como, por um exemplo, que um tiro de fuzil pode atravessar uma árvore, portanto, não adianta se esconder atrás de uma árvore em algumas situações. Outro exemplo: [esconder-se atrás de um] motor de carro é melhor que de uma lataria de carro, porque a bala pode atravessar a lataria. O aluno tem, ainda, noções de balística, para saber o poder de fogo das armas e dos níveis de proteção de coletes. No Brasil, há cinco níveis de coletes à prova de bala. Três deles qualquer civil pode comprar; dois só as empresas podem comprar, desde que autorizadas pelo exército. Aprende-se, ainda, como se posicionar estrategicamente para não ficar encurralado em um protesto, como se comportar em caso de sequestros. São muitas situações...

Em geral, quem são os profissionais que ministram estes cursos?

Os treinamentos são muito militarizados, porque, normalmente, essas empresas são criadas por ex-militares com experiência de campo. Tem gente que critica, falando que a ideia é treinar um jornalista para ser soldado. Mas, os treinadores são ex-militares que se especializaram em conhecer o trabalho dos jornalistas, tanto que alguns trabalham até como produtores de campo, quando as empresas maiores resolvem contratar. Por exemplo, quando a CNN vai mandar uma equipe para Bagdá, ela tem um grupo desses caras fazendo produção.

Existe alguma empresa brasileira especializada nesses treinamentos?

Não, as principais estão na Inglaterra. No Brasil, ainda não tem. A Polícia Militar não faz isso, o Exército faz, mas pensando naquelas operações de paz do Haiti. A SIP [ Sociedade Interamericana de Imprensa ] tem uma parceria na Argentina, o CPJ [ Committee to Protect Journalists ] está conciliando sua atividade dele com um curso menos militarizado, a própria IFJ [International Federation of Journalists] está considerando ter um núcleo de treinamentos. O próprio INSI tem módulos de treinamento com jornalistas com experiência nisso, e que não são militares.

Recentemente, a Abraji anunciou um treinamento para o ano que vem, em parceria com o INSI e com a Oboré. O que pode se adiantar a respeito do curso?

A Abraji tem uma conversa muito boa com a Fundação Oboré, e tem um jornalista que hoje está no Chile, que é o João Paulo Charleux, que já foi do Estadão e da Folha , e já foi da Cruz Vermelha também. Esse treinamento já está costurado para o primeiro semestre do ano que vem. Mas, isto é uma coisa pontual. O projeto maior é consolidar um INSI com escritório aqui, criar um conselho, um grupo de membros e ter uma estrutura regular de treinamentos. Eu também estou conversando com o Exército no RJ, para que possa ser feito um treinamento para jornalista em área de favela. Quem tem mais tempo disso é o Exército.

Esta luta tem avançado? Qual é o saldo depois desses anos de trabalho?

Sim, tivemos alguns avanços, na medida em que a gente já fez treinamentos no RJ e em SP, que o sindicato já conversa com as empresas sobre a questão da segurança nas negociações salariais, que tem havido um aumento do investimento em equipamento de proteção. Mas, por outro lado, o risco é inerente ao exercício da profissão, é inevitável que não exista o risco zero; isso não existe. A questão é que a realidade do tráfico de drogas no RJ é perigosa mesmo. De qualquer forma, as empresas e os jornalistas têm que conhecer seus limites, como se comportar nesses lugares. Nesse ponto, os treinamentos são eficientes. A questão é que, às vezes, há jornalistas experientes demais, e quando ele perde o medo, ele está mais exposto ao risco, por que o medo funciona como um limitador. Não tenho conhecimento de detalhes do caso [do cinegrafista da Band], mas o mais importante é saber que nenhuma imagem compensa uma vida.

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