"Nenhum país acha a tortura tão normal quanto o Brasil", diz viúva de jornalista assassinado na ditadura

Natural de Santos, o jornalista  Luiz Eduardo Merlino trabalhou no Jornal da Tarde e na Folha da Tarde na década de 1960. A partir de 1969 passou a militar no Partido Operário Comunista e integrou ações clandestinas de oposição.

Atualizado em 11/10/2019 às 18:10, por Redação Portal IMPRENSA.

Luiz Eduardo Merlino trabalhou no Jornal da Tarde e na Folha da Tarde na década de 1960. A partir de 1969 passou a militar no Partido Operário Comunista e integrou ações clandestinas de oposição. No final de 1970 chegou a ir à França participar da 4ª Internacional Comunista. Crédito:Marcelo Oliveira/UOL viúva de Merlino, Ângela Mendes de Almeida, de branco, beija a irmã, Márcia, ao final do julgamento De volta ao Brasil, foi preso em Santos na casa de sua mãe e levado ao DOI-Codi, em São Paulo (comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra). Lá foi sido submetido, segundo denúncia do MPF, a sessão de 24 horas de tortura, da qual participaram, além de Ustra, os policiais civis Aparecido Laertes Calandra e Dirceu Gravina. Os três foram denunciados por homicídio pelo MPF.
Segundo a denúncia, após a tortura Merlino não conseguiu mais se levantar e foi levado ao Hospital do Exército em São Paulo. Lá foi dito que ele só sobreviveria mediante amputação de uma perna. Ustra, segundo a denúncia, foi consultado, mas ordenou ao hospital que deixasse o paciente morrer.
Depois da morte, a cela em que ocorreu a tortura foi lavada e foi criada uma falsa versão de que o jornalista havia sido atropelado por um caminhão na BR-116 durante uma fuga. Para conferir veracidade à história, de forma mórbida Ustra teria mandado um caminhão passar sobre o corpo de Merlino para deixar marcas de pneu no cadáver. Dois legistas, segundo a denúncia, endossaram a versão irreal de atropelamento. Somente na década de 90 diferentes peritos revelaram inconsistência nos laudos.
A possibilidade de que os três agentes da ditadura fossem processados pelo assassinato do jornalista no Hospital do Exército, em julho de 1971, acabou impedida nesta quinta, 10 de outubro, pela Justiça. Assinada por Marcelo Oliveira e publicada no UOL, a reportagem "TRF-3 impede abertura de processo por morte de jornalista na ditadura" revela que o Tribunal Regional Federal da 3a Região não aceitou recurso e não recebeu a denúncia do MPF relativa ao caso. Para o relator, desembargador José Lunardelli, e o presidente da turma, Nino Toldo, não há como contornar de uma decisão do STF de 2010.
À Folha a viúva de Merlino, Ângela Mendes de Almeida, disse que a família deve recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos e que "nenhum país acha a tortura tão normal quanto aqui".