"Nenhum jornalista estrangeiro quer mostrar a realidade de Cuba", diz Frank Correa
"Nenhum jornalista estrangeiro quer mostrar a realidade de Cuba", diz Frank Correa
Atualizado em 03/11/2010 às 17:11, por
Luiz Gustavo Pacete/ Redação Revista IMPRENSA e de Havana (Cuba).
Por O termo "dissidente" e "jornalista independente" se confundem em Cuba. Apesar de não representarem exatamente a mesma coisa, para o governo, ambos fazem propaganda contra o regime. Se em outros países a profissão jornalística tem seu valor e consegue causar certo impacto na sociedade, em Cuba não acontece a mesma coisa. Jornalistas não são respeitados.
Na Universidade, por exemplo, muitos estudantes estão mudando do curso de "periodismo" para comunicação, já que não compensa ser jornalista em Cuba; os formados exercem diversos tipos de função, menos jornalismo. Há, no entanto, uma movimentação da imprensa independente com o objetivo de dar voz a população por meio de blogs e revistas digitais. Entre eles está o jornalista independente Frank Correa, editor da revista Cambio debate . Correa vive no bairro de Jamanitas, em Playa, Havana, a alguns metros da chácara onde vive Fidel Castro. O jornalista mantém sua família com os cerca de US$60 mensais que recebe do portal de internet, Cubanet. Em Cuba, o dólar é desvalorizado e seu poder de compra diminui. Correa recebe pelas seis colunas que costuma escreves ao mês.
Além dessa quantia que recebe por seu trabalho jornalístico, outra forma de conseguir alimentos para ele, sua esposa e a filha de dois anos, é utilizando a "libreta" (carnê anual com cotas mensais para que se adquira alimentos básicos dados pelo governo). Correa pode ser considerado um cubano típico. Enfrenta, em sua própria casa, todos os problemas sociais de Cuba, desde as dificuldades de levar a filha ao hospital e não ter o atendimento necessário - além das longas filas e do mau atendimento - até ter de fazer apenas uma refeição por dia para que a família não passe fome.
Para Correa, o socialismo que existe na ilha conta com uma grande ferramenta: a propaganda. Para os cubanos, a maioria das pessoas que simpatizam com o regime fora do país, compra o discurso marqueteiro. "Nenhum jornalista estrangeiro que aqui está, quer realmente mostrar a realidade do país. Os que tentam podem ter suas autorizações negadas", revela.
Mercado paralelo
Uma alternativa em Cuba para melhorar a qualidade de vida, é apelar para o mercado ilegal, conhecido como a "economia real". Para entender como funciona essa economia é importante destacar o ciclo: uma pessoa trabalha em uma fábrica de bolachas, por exemplo. Após seu expediente, ela leva dessa fábrica, de forma ilegal, alguns pacotes e vende aos vizinhos. Assim funciona para aqueles que não querem viver somente da libreta.
Correa, como muitos outros cubanos, compra do mercado ilegal. Caso contrário, passaria fome. Ao sair para comprar comida para o almoço, quando recebeu IMPRENSA, teve de convencer o dono da mercearia a vender os produtos de que precisava, já que sua cota já havia se esgotado em outubro. Conseguiu comprar dois quilos de arroz, um pedaço de carne de porco e uma dúzia de bananas.
Ao caminhar pelo centro de Havana com o jornalista ele repete a mesma frase "para os cubanos fica o pior" apontando para um bar para turistas e um bar para cubanos. Um contraste notável. Ele segue utilizando a mesma expressão para definir a realidade de Cuba em todos os sentidos. Apesar de sua realidade não se parecer com a de um jornalista que vive fora do país, consegue editar, escrever, publicar e ainda atuar como escritor. Mas do que nunca, em Cuba, o jornalismo é uma profissão ideológica. A chamada "imprensa livre" no entanto, parece ser, ainda, algo impraticável.
Leia Mais

| Divulgação | |
| Frank Correa |
Além dessa quantia que recebe por seu trabalho jornalístico, outra forma de conseguir alimentos para ele, sua esposa e a filha de dois anos, é utilizando a "libreta" (carnê anual com cotas mensais para que se adquira alimentos básicos dados pelo governo). Correa pode ser considerado um cubano típico. Enfrenta, em sua própria casa, todos os problemas sociais de Cuba, desde as dificuldades de levar a filha ao hospital e não ter o atendimento necessário - além das longas filas e do mau atendimento - até ter de fazer apenas uma refeição por dia para que a família não passe fome.
Para Correa, o socialismo que existe na ilha conta com uma grande ferramenta: a propaganda. Para os cubanos, a maioria das pessoas que simpatizam com o regime fora do país, compra o discurso marqueteiro. "Nenhum jornalista estrangeiro que aqui está, quer realmente mostrar a realidade do país. Os que tentam podem ter suas autorizações negadas", revela.
Mercado paralelo
Uma alternativa em Cuba para melhorar a qualidade de vida, é apelar para o mercado ilegal, conhecido como a "economia real". Para entender como funciona essa economia é importante destacar o ciclo: uma pessoa trabalha em uma fábrica de bolachas, por exemplo. Após seu expediente, ela leva dessa fábrica, de forma ilegal, alguns pacotes e vende aos vizinhos. Assim funciona para aqueles que não querem viver somente da libreta.
Correa, como muitos outros cubanos, compra do mercado ilegal. Caso contrário, passaria fome. Ao sair para comprar comida para o almoço, quando recebeu IMPRENSA, teve de convencer o dono da mercearia a vender os produtos de que precisava, já que sua cota já havia se esgotado em outubro. Conseguiu comprar dois quilos de arroz, um pedaço de carne de porco e uma dúzia de bananas.
Ao caminhar pelo centro de Havana com o jornalista ele repete a mesma frase "para os cubanos fica o pior" apontando para um bar para turistas e um bar para cubanos. Um contraste notável. Ele segue utilizando a mesma expressão para definir a realidade de Cuba em todos os sentidos. Apesar de sua realidade não se parecer com a de um jornalista que vive fora do país, consegue editar, escrever, publicar e ainda atuar como escritor. Mas do que nunca, em Cuba, o jornalismo é uma profissão ideológica. A chamada "imprensa livre" no entanto, parece ser, ainda, algo impraticável.
| |






