Narloch e Magnoli também são criticados em carta de jornalistas da FSP sobre racismo
Em resposta à coluna "Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo", do escritor Antonio Risério, que foi publicada pela Folha de S.
Atualizado em 19/01/2022 às 15:01, por
Redação Portal Imprensa.
de negros contra brancos ganha força com identitarismo", do escritor Antonio Risério, que foi publicada pela Folha de S. Paulo no último sábado, nesta quarta-feira, 19 de janeiro, 164 jornalistas do veículo assinaram uma carta pública com críticas à direção da empresa em episódios envolvendo racismo.
Além de argumentar que racismo reverso não existe, o documento expressa “preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas” pelo jornal. Em outro trecho, a carta destaca que “em mais de uma ocasião recente, a Folha publicou artigos de opinião ou colunas que, amparados em falácias e distorções, negam ou relativizam o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira". Crédito: Reprodução
Narloch e Magnoli
Além do texto de Risério, a carta criticou colunas recentes de Leandro Narloch e Demétrio Magnoli. Em outubro do ano passado, o colunista Leandro Narloch publicou o artigo A riqueza das "sinhás pretas" precisa inspirar o movimento negro, no qual escreve que “negras prósperas no ápice da escravidão são pedra no sapato de quem diz que o capitalismo é essencialmente racista e machista”.
Já o artigo do colunista Demétrio Magnoli (Uma ilusão de cor), publicado em setembro do ano passado, foi criticado por afirmar que racismo e escravidão são processos que divergem entre si e que o primeiro nada tem a ver com o capitalismo.
Os jornalistas que assinam o documento enviado à direção da Folha de S. Paulo também criticaram a geração de engajamento digital proporcionada pelos textos sobre racismo recentemente publicados pelo veículo.
"Esses textos incendeiam de imediato as redes sociais, entrando para a lista de mais lidos no site. A seguir, réplicas e tréplicas surgem, multiplicando a audiência. A controvérsia então se estanca e morre, até que um novo episódio semelhante surja.”
Veja abaixo a íntegra da carta e os nomes de seus signatários:
19 de janeiro de 2022
Carta aberta de jornalistas da Folha à direção do jornal
Caros membros da Secretaria de Redação e do Conselho Editorial da Folha, Nós, jornalistas da Folha aqui subscritos, vimos por meio desta carta expressar nossa preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal. Sabemos ser incomum que jornalistas se manifestem sobre decisões editoriais da chefia, mas, se o fazemos neste momento, é por entender que o tema tenha repercussões importantes para funcionários e leitores do jornal e no intuito de contribuir para uma Folha mais plural. O episódio a motivar esta carta foi a publicação de artigo de opinião intitulado “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo” (Ilustrada Ilustríssima, 16/1), em que Antonio Risério identifica supostos excessos das lutas identitárias, que estariam levando a racismo reverso. Para além de reafirmarmos a obviedade de que racismo reverso não existe, não pretendemos aqui rebater o que afirma o autor —pessoas mais qualificadas do que nós no tema já o fizeram, dentro e fora do jornal. No entanto, manifestamos nosso descontentamento com o padrão que vem se repetindo nos últimos meses. Em mais de uma ocasião recente, a Folha publicou artigos de opinião ou colunas que, amparados em falácias e distorções, negam ou relativizam o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira. Esses textos incendeiam de imediato as redes sociais, entrando para a lista de mais lidos no site. A seguir, réplicas e tréplicas surgem, multiplicando a audiência. A controvérsia então se estanca e morre, até que um novo episódio semelhante surja. Antes do artigo em questão, colunas de Leandro Narloch e Demétrio Magnoli cumpriram esse papel. Acreditamos que esse padrão seja nocivo. O racismo é um fato concreto da realidade brasileira, e a Folha contribui para a sua manutenção ao dar espaço e credibilidade a discursos que minimizam sua importância. Dessa forma, vai na contramão de esforços importantes para enfrentar o racismo institucional dentro do próprio jornal, como o programa de treinamento exclusivo para negros. Reconhecemos o pluralismo que está na base dos princípios editoriais da Folha e a defesa que nela se faz da liberdade de expressão. No entanto estes não se dissociam de outros valores que o jornalismo deve defender, como a verdade e o respeito à dignidade humana. A Folha não costuma publicar conteúdos que relativizam o Holocausto, nem dá voz a apologistas da ditadura, terraplanistas e representantes do movimento antivacina. Por que, então, a prática seria outra quando o tema é o racismo no Brasil? Se textos como o de Antonio Risério atraem audiência no curto prazo, sua consequência seguinte é minar a credibilidade, que é, e deve ser, o pilar máximo de um jornal como a Folha. Por esses motivos, convidamos a uma reflexão e uma reavaliação sobre a forma como o racismo tem sido abordado na Folha. Acreditamos que buscar audiência às expensas da população negra seja incompatível com estar a serviço da democracia.
Assinam esta carta: Adriana Mattos Adriano Vizoni Alfredo Henrique Aline Mazzo Amanda Lemos Amon Borges Ana Bottallo Ana Luiza Albuquerque Andre Marcondes Andressa Motter Anelise Gonçalves Angela Boldrini Angela Pinho Anna Virginia Balloussier Artur Rodrigues Bárbara Blum Beatriz Izumino Bianka Vieira Bruna Borges Bruno B. Soraggi Bruno Benevides Bruno Molinero Bruno Rodrigues Camila Gambirasio Carolina Daffara Carolina Linhares Carolina Moraes Catarina Ferreira Catarina Pignato Clauber Larre Clayton Castelani Cristiane Gercina Cristiano Martins Cristina Camargo Cristina Sano Dani Avelar Dani Braga Daniel E. de Castro Daniel Mariani Daniel Mobilia Daniela Arcanjo Danielle Brant Danilo Verpa David Lucena Débora Melo Diana Yukari Eduardo Marini Eduardo Moura Emannuel Gonçalves Gomes Fábio Pupo Fernanda Brigatti Fernanda Giulietti Fernanda Mena Fernanda Perrin Flávia Faria Flávia Mantovani Gabriel Cabral Gabriela Bonin Géssica Brandino Giovanna Stael Giuliana de Toledo Giuliana Miranda Guilherme Botacini Guilherme Garcia Guilherme Seto Gustavo Fioratti Gustavo Queirolo Havolene Valinhos Heloísa Lisboa Henrique Santana Irapuan Campos Isabela Palhares Isabella Menon Jairo Malta Jéssica Maes João Gabriel João Gabriel Telles João Pedro Pitombo João Perassolo José Marques Julia Chaib Karime Xavier Karina Matias Kleber Bonjoan Laíssa Barros Laura Lewer Leonardo Diegues Leonardo Sanchez Lucas Alonso Lucas Brêda Luís Curro Luiz Antonio Del Tedesco Maicon Silva Manoella Smith Marcelo Azevedo Marcelo Rocha Marciana de Barros Maria Ap. Alves da Silva Mariana Agunzi Mariana Arrudas Mariana Goulart Mariana Zylberkan Marília Miragaia Marina Consiglio Marina Lourenço Marlene Bergamo Mateus Bandeira Vargas Matheus Moreira Matheus Rocha Matheus Teixeira Mathilde Missioneiro Maurício Meireles Mayara Paixão Melina Cardoso Mônica Bento Naná DeLuca Natália Cancian Natália Silva Nathalia Durval Nicollas Witzel Otavio Valle Paola Ferreira Rosa Patricia Pamplona Paula Soprana Paulo Batistella Paulo Saldaña Pedro Ladeira Pedro Lovisi Phillippe Watanabe Priscila Camazano Ranier Bragon Raphael Hernandes Raquel Lopes Rebeca Oliveira Regiane Soares Renan Marra Renata Galf Renato Machado Ricardo Balthazar Rivaldo Gomes Rodrigo Sartori Ronny Santos Rubens Alencar Salvador Nogueira Samuel Fernandes Sílvia Haidar Silvia Rodrigues Tatiana Harada Tayguara Ribeiro Thea Severino Thiago Amâncio Thiago Bethônico Tiago Ribas Victor Lacombe Victoria Azevedo Victoria Damasceno Vitor Moreno Vitória Macedo Walter Porto Washington Luiz Wesley Faraó Klimpel William Barros William Cardoso Zanone Fraissat E outros 22 jornalistas da Folha Total de adesões: 186
Além de argumentar que racismo reverso não existe, o documento expressa “preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas” pelo jornal. Em outro trecho, a carta destaca que “em mais de uma ocasião recente, a Folha publicou artigos de opinião ou colunas que, amparados em falácias e distorções, negam ou relativizam o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira". Crédito: Reprodução
Narloch e Magnoli
Além do texto de Risério, a carta criticou colunas recentes de Leandro Narloch e Demétrio Magnoli. Em outubro do ano passado, o colunista Leandro Narloch publicou o artigo A riqueza das "sinhás pretas" precisa inspirar o movimento negro, no qual escreve que “negras prósperas no ápice da escravidão são pedra no sapato de quem diz que o capitalismo é essencialmente racista e machista”.
Já o artigo do colunista Demétrio Magnoli (Uma ilusão de cor), publicado em setembro do ano passado, foi criticado por afirmar que racismo e escravidão são processos que divergem entre si e que o primeiro nada tem a ver com o capitalismo.
Os jornalistas que assinam o documento enviado à direção da Folha de S. Paulo também criticaram a geração de engajamento digital proporcionada pelos textos sobre racismo recentemente publicados pelo veículo.
"Esses textos incendeiam de imediato as redes sociais, entrando para a lista de mais lidos no site. A seguir, réplicas e tréplicas surgem, multiplicando a audiência. A controvérsia então se estanca e morre, até que um novo episódio semelhante surja.”
Veja abaixo a íntegra da carta e os nomes de seus signatários:
19 de janeiro de 2022
Carta aberta de jornalistas da Folha à direção do jornal
Caros membros da Secretaria de Redação e do Conselho Editorial da Folha, Nós, jornalistas da Folha aqui subscritos, vimos por meio desta carta expressar nossa preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal. Sabemos ser incomum que jornalistas se manifestem sobre decisões editoriais da chefia, mas, se o fazemos neste momento, é por entender que o tema tenha repercussões importantes para funcionários e leitores do jornal e no intuito de contribuir para uma Folha mais plural. O episódio a motivar esta carta foi a publicação de artigo de opinião intitulado “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo” (Ilustrada Ilustríssima, 16/1), em que Antonio Risério identifica supostos excessos das lutas identitárias, que estariam levando a racismo reverso. Para além de reafirmarmos a obviedade de que racismo reverso não existe, não pretendemos aqui rebater o que afirma o autor —pessoas mais qualificadas do que nós no tema já o fizeram, dentro e fora do jornal. No entanto, manifestamos nosso descontentamento com o padrão que vem se repetindo nos últimos meses. Em mais de uma ocasião recente, a Folha publicou artigos de opinião ou colunas que, amparados em falácias e distorções, negam ou relativizam o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira. Esses textos incendeiam de imediato as redes sociais, entrando para a lista de mais lidos no site. A seguir, réplicas e tréplicas surgem, multiplicando a audiência. A controvérsia então se estanca e morre, até que um novo episódio semelhante surja. Antes do artigo em questão, colunas de Leandro Narloch e Demétrio Magnoli cumpriram esse papel. Acreditamos que esse padrão seja nocivo. O racismo é um fato concreto da realidade brasileira, e a Folha contribui para a sua manutenção ao dar espaço e credibilidade a discursos que minimizam sua importância. Dessa forma, vai na contramão de esforços importantes para enfrentar o racismo institucional dentro do próprio jornal, como o programa de treinamento exclusivo para negros. Reconhecemos o pluralismo que está na base dos princípios editoriais da Folha e a defesa que nela se faz da liberdade de expressão. No entanto estes não se dissociam de outros valores que o jornalismo deve defender, como a verdade e o respeito à dignidade humana. A Folha não costuma publicar conteúdos que relativizam o Holocausto, nem dá voz a apologistas da ditadura, terraplanistas e representantes do movimento antivacina. Por que, então, a prática seria outra quando o tema é o racismo no Brasil? Se textos como o de Antonio Risério atraem audiência no curto prazo, sua consequência seguinte é minar a credibilidade, que é, e deve ser, o pilar máximo de um jornal como a Folha. Por esses motivos, convidamos a uma reflexão e uma reavaliação sobre a forma como o racismo tem sido abordado na Folha. Acreditamos que buscar audiência às expensas da população negra seja incompatível com estar a serviço da democracia.
Assinam esta carta: Adriana Mattos Adriano Vizoni Alfredo Henrique Aline Mazzo Amanda Lemos Amon Borges Ana Bottallo Ana Luiza Albuquerque Andre Marcondes Andressa Motter Anelise Gonçalves Angela Boldrini Angela Pinho Anna Virginia Balloussier Artur Rodrigues Bárbara Blum Beatriz Izumino Bianka Vieira Bruna Borges Bruno B. Soraggi Bruno Benevides Bruno Molinero Bruno Rodrigues Camila Gambirasio Carolina Daffara Carolina Linhares Carolina Moraes Catarina Ferreira Catarina Pignato Clauber Larre Clayton Castelani Cristiane Gercina Cristiano Martins Cristina Camargo Cristina Sano Dani Avelar Dani Braga Daniel E. de Castro Daniel Mariani Daniel Mobilia Daniela Arcanjo Danielle Brant Danilo Verpa David Lucena Débora Melo Diana Yukari Eduardo Marini Eduardo Moura Emannuel Gonçalves Gomes Fábio Pupo Fernanda Brigatti Fernanda Giulietti Fernanda Mena Fernanda Perrin Flávia Faria Flávia Mantovani Gabriel Cabral Gabriela Bonin Géssica Brandino Giovanna Stael Giuliana de Toledo Giuliana Miranda Guilherme Botacini Guilherme Garcia Guilherme Seto Gustavo Fioratti Gustavo Queirolo Havolene Valinhos Heloísa Lisboa Henrique Santana Irapuan Campos Isabela Palhares Isabella Menon Jairo Malta Jéssica Maes João Gabriel João Gabriel Telles João Pedro Pitombo João Perassolo José Marques Julia Chaib Karime Xavier Karina Matias Kleber Bonjoan Laíssa Barros Laura Lewer Leonardo Diegues Leonardo Sanchez Lucas Alonso Lucas Brêda Luís Curro Luiz Antonio Del Tedesco Maicon Silva Manoella Smith Marcelo Azevedo Marcelo Rocha Marciana de Barros Maria Ap. Alves da Silva Mariana Agunzi Mariana Arrudas Mariana Goulart Mariana Zylberkan Marília Miragaia Marina Consiglio Marina Lourenço Marlene Bergamo Mateus Bandeira Vargas Matheus Moreira Matheus Rocha Matheus Teixeira Mathilde Missioneiro Maurício Meireles Mayara Paixão Melina Cardoso Mônica Bento Naná DeLuca Natália Cancian Natália Silva Nathalia Durval Nicollas Witzel Otavio Valle Paola Ferreira Rosa Patricia Pamplona Paula Soprana Paulo Batistella Paulo Saldaña Pedro Ladeira Pedro Lovisi Phillippe Watanabe Priscila Camazano Ranier Bragon Raphael Hernandes Raquel Lopes Rebeca Oliveira Regiane Soares Renan Marra Renata Galf Renato Machado Ricardo Balthazar Rivaldo Gomes Rodrigo Sartori Ronny Santos Rubens Alencar Salvador Nogueira Samuel Fernandes Sílvia Haidar Silvia Rodrigues Tatiana Harada Tayguara Ribeiro Thea Severino Thiago Amâncio Thiago Bethônico Tiago Ribas Victor Lacombe Victoria Azevedo Victoria Damasceno Vitor Moreno Vitória Macedo Walter Porto Washington Luiz Wesley Faraó Klimpel William Barros William Cardoso Zanone Fraissat E outros 22 jornalistas da Folha Total de adesões: 186





