"Não vejo futuro em revistas de música", diz ex-editor da "Bizz" e autor de "Dias de Luta"
A história do rock nos anos 80 está de volta às prateleiras. Para comemorar os dez anos do lançamento original, "Dias de luta - O
Atualizado em 26/04/2013 às 10:04, por
Jéssica Oliveira*.
A história do rock nos anos 80 está de volta às prateleiras. Para comemorar os dez anos do lançamento original, "Dias de luta - O rock e o Brasil dos anos 80", do jornalista Ricardo Alexandre, chega em nova edição, pela Arquipélago Editorial. Sucesso de vendas em 2002, a tiragem inicial esgotou e, com o tempo, o livro pôde ser encontrado por R$550 no site Estante Virtual, que congrega sebos de todo Brasil, tamanha procura e raridade.
Em junho deste ano, será lançado ainda um e-book com o texto todo linkado e cheio de extras, entre áudios de algumas entrevistas do livro, anotações do autor sobre o bruto do material, ideias de capas e artes que não foram aproveitadas, além de opções de multimídia, como a escolha da capa favorita.
"O grande desejo foi colocá-lo de volta nas livrarias", resume o jornalista. Fruto de seis anos de pesquisa e reportagens, 77 fontes em mais de 100 entrevistas, "Dias de Luta" foi usado como referência bibliográfica em obras de artistas do período lançadas desde então, como na autobiografia do Nasi, nas biografias de Blitz, RPM e Lobão, e nos programas "O Som de Vinil" e "Discoteca MTV", por exemplo.
Sobre a nova edição, Alexandre explica que a capa nova, que remete aos videogames de 8-bits populares da época, vem da proposta original, bem como a ideia de usar as fotos com "mais nobreza e num espaço maior".
"O restante do trabalho foi de atualização e revisão. Melhorei algumas ideias e formulações. O grande trabalho foi resistir à ideia de mexer mais. Mas achava que seria desonesto com quem credenciou o livro em 2002 e pelo registro histórico do momento em que foi publicado", explica. Acompanhe a entrevista:
IMPRENSA - Quais foram as suas maiores dificuldades para fazer o livro? O acesso às fontes, documentos e arquivos? Tempo disponível?
Ricardo Alexandre - O mais difícil foi convencer os artistas a cederem um tempo maior do que gostam normalmente para as entrevistas. E isso para um projeto de lançamento incerto - porque eu terminei o livro antes de negociar um contrato - e para um jornalista que não era tão conhecido assim. Acho que esses foram os dois grandes problemas que tive de driblar, todos os outros foram decorrentes desses.
E após a publicação do livro, como foi a reação dos artistas, por exemplo? Houve algum problema? O livro foi muito bem recebido. Não tive problema com artistas. E olha que eles foram bastante francos, tanto em opiniões sobre outros artistas, quanto em declarações sobre drogas, sobre sexo e tal. Foi surpreendente que não tenha tido nenhum tipo de problema. Não pelo texto, porque é super fidedigno, mas porque realmente existe essa tradição no Brasil dos artistas nunca terem dito o que disseram. [Quando escrevi] Foi um momento muito interessante porque os ânimos ainda estavam exacerbados. No período que fiz o livro, final dos anos 90, os artistas estavam mais relaxados para dar esse tipo de opinião. Hoje, a maior parte das brigas já foi resolvida, muitas bandas voltaram, como o próprio RPM, e acho que teria muita dificuldade de fazer esse livro. Naquela época eles conseguiam tratar com mais naturalidade suas opiniões, mesmo as contraditórias.
Você acredita que revisitar esse ou outro período marcante do rock brasileiro pode ajudar de alguma forma o atual cenário musical nacional? Por exemplo, despertando a curiosidade de novos públicos, dos fãs mais antigos, ou mesmo iniciando um movimento?
É uma parte da função do livro ou do jornalismo ter aquela preservação, essa fiscalização de movimentos e tudo. Entretanto, os anos 80 foram muito fruto de uma série de circunstâncias. Eu entendia que o ‘Dias de Luta’ trazia uma certa fórmula de fazer cultura pop, cosmopolita no Brasil. Hoje eu acho que essa fórmula não funciona, porque os elos dessa corrente estão muito desencaixados. Nos anos 80 não tínhamos tanta informação a ponto de confundir, mas o suficiente para nos sentirmos inseridos em uma cultura global, planetária. Nos anos 80, viemos de um período de desejos reprimidos, em relação ao rock, pop... Nos anos 90, vivemos um período de redescoberta do próprio Brasil. Acho muito difícil que o ‘Dias de Luta’ sirva de bula para um movimento, mas acho que pode servir como inspiração para bandas e artistas que queiram se auto-impor o dever de falar para um grande público, de fazer música mais comunicativa. E espero que sirva. Já ouvi artistas dizendo que leram o 'Dias de Luta' e se inspiraram para seus trabalhos. Mas como movimento, acho difícil. Infelizmente.
Crédito:Daniel Lenço/Divulgação
E como ex-editor da Bizz , o que você pensa do futuro das revistas de música no país? Gostaria de ter alguma ideia brilhante, mas não vejo muita perspectiva. Não há revistas grandes em nenhum lugar no mundo. As revistas de música geralmente são menores do que a média do mercado. As exceções meio que confirmam a regra, de revistas que não são exatamente sobre música, como a Rolling Stone , por exemplo, que nos períodos de baixa do mercado fonográfico, traz capas com artistas de cinema, celebridade... Me parece que as perspectivas de um país em que revistas já são muito menores do que no resto do mundo, são muito improváveis. Gostaria de estar errado porque amo a imprensa musical, adoro ler sobre música, mas não consigo pensar num formato que seja interessante do ponto de vista comercial: que lucre mais do que gaste. Ou vamos fazer um produto muito barato, porque hoje a informação trafega com muito mais naturalidade do que nos anos 80, então acho que uma revista de música precisa ser um projeto caro, mas não consigo ver um mercado anunciante suficiente para sustentá-lo. É uma equação que não fecha. Espero estar errado.
Você começou o livro com dois anos de redação. Já tinha trabalhado em outros lugares? Como foi para você entrar em um projeto desse tamanho? Eu era um menino sem noção [risos]. Foi muito enrascada fazer um livro com essa envergadura, com essa pretensão. [...] Eu acho que a ideia do livro só se justifica pela inexperiência e ingenuidade [risos]. Comecei a escrever no Estadão com 18 anos. Eu fazia uma coluninha de bandas novas. Coincidentemente, aquelas bandas novas foram ficando grandes. Foi um momento de revelação daquela geração: Skank, Raimundos, Chico Science, Planet Hemp, Jota Quest... Todos esses caras eu mais ou menos trouxe para a grande imprensa, fazendo esse papel de “um especialista” daquela nova geração. Quando eu escolhi o tema 'anos 80' para escrever, foi um pouco com o objetivo de ampliar meu leque de fontes e de relações musicais. Eu achava que escrevendo diariamente sobre os anos 90 e escrevendo um livro sobre os anos 80, eu teria um amplo acesso. Só que eu não tinha a menor ideia de como fazer um livro ou das perspectivas, tanto que o formato foi mudando a medida que eu lia novos livros, conversava com as pessoas. E um dos motivos que eu não procurei um contrato com uma editora antes do livro feito foi justamente pela minha insegurança de sequer saber se eu iria terminar. [...] Foram seis anos com vários períodos do livro ser esquecido e eu voltar e mudar tudo.
Você disse que ama ler sobre música. O que pensa da cobertura da imprensa especializada? Acho que hoje o universo da música é muito ligado à ultrassegmentação. Essa é umas das dificuldades: congregar uma série de opiniões e gostos diferentes em torno de uma mesma revista. É um dos inviabilizadores atuais de se manter uma revista de música no mercado. [...] A internet é uma plataforma muito interessante. Outro dia me perguntaram o que eu achava de uma eventual volta da Bizz , e eu disse que não faz sentido. Porque a Bizz nunca foi tão boa, tão informativa, tão divertida, quanto a comunidade de leitores Bizz no Facebook. Ali está todo o espírito da revista, para o bem e para o mal, e tem alguns dos principais colaboradores que opinam e dão pitacos, e os leitores sobem notícias em tempo real, clipes, debates, discos... Eu não consigo ver muito sentido em uma revista de música no papel diante disso. [...] A crítica não tem mais aquele impacto que tinha nos anos 80 e mesmo nos anos 90, é muito mais diluído, e hoje trabalhamos muito mais com cobertura e agenda cultural. Eu vejo boas experiências na internet, gosto muito do Alexandre Matias, o 'Trabalho Sujo', acho que o pessoal do Scream & Yell faz uma coisa bacana, tem grandes blogueiros, como o André Barcinski...
E você está escrevendo um livro sobre a rádio 89FM "A Rádio Rock". Pode adiantar algo? Ele foi muito inspirado nos 'Dias de luta'. O convite da rádio surgiu por isso. É um livro de narrativa, de análise, de contextualização histórica. Eu terminei de escrevê-lo em 2006, o ano em que a 89 deixou de ser rádio rock. Ele ficou concluído e não lançado durante esses sete anos. Agora a gente tem um período muito interessante para contar, que é o fim e a volta da rádio, que deu uma virtude, uma grandeza para o livro. Esse período, esse deserto, esse vazio da rádio deixou o livro muito mais interessante. Ele deve sair ainda em meados desse ano.
Ricardo Alexandre nasceu em 1974, em Jundiaí (SP). Além de repórter e crítico musical do jornal O Estado de S. Paulo , ele dirigiu as revistas Bizz , Época São Paulo e Trip , e colaborou com a CartaCapital , Época , Vida Simples , Superinteressante e Folha de S.Paulo . Autor de "Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal" (Prêmio Jabuti de melhor biografia de 2010), está hoje à frente da Tudo Certo Conteúdo Editorial. "Dias de luta" foi seu livro de estreia.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves






