“Não vamos perder tempo nos indignando”, afirma Nathalie Alvaray
Há pouco mais de um ano, a editora de estratégias digitais da Univision na Flórida, Nathalie Alvaray, lidera um projeto de convergência entre tevê e internet de uma das mais importantes emissoras dos Estados Unidos.
Atualizado em 09/10/2017 às 13:10, por
Marina Oliveira.
Ela comanda uma equipe de 75 profissionais, com foco em conteúdo sobre imigração voltado ao público latino, o que representa 17% da população do país. Crédito: A jornalista assumiu a posição pouco tempo antes do pleito eleitoral que alçou Donald Trump à presidência dos EUA. Em Caracas, a jornalista venezuelana passou quinze anos no grupo de comunicação “Cadena Capriles” em diferentes cargos, entre eles, o de vice-presidente de mídia, onde criou a primeira redação integrada na Venezuela com foco no meio digital. Em 2014, por pressões do governo de Nicolás Maduro, Nathalie se viu obrigada a pedir demissão da emissora, assumindo posteriormente a redação do site Runrun.es, famoso por ter noticiado, em primeira mão, o câncer do ex-presidente Hugo Chávez.
“Depois que um banqueiro assumiu a direção da Capriles, indicado pelo governo, tínhamos que começar as matérias com ‘Maduro disse’, “Maduro foi’, ‘Maduro fez’, até mesmo as cores que utilizávamos nas artes eram contestadas”, afirmou Nathalie durante uma das mesas do festival Pauí Globonews de Jornalismo, em São Paulo, no sábado (7).
Veterana na cobertura política Nathalie, que já foi sequestrada e teve seu computador e celular apreendidos na Venezuela, aponta as semelhanças entre o modo de governar de Trump e de Chávez. “Ambos são maestros do Twitter. Às vezes, chego a pensar que Chávez está falando no ouvido de Trump tamanha a semelhança do discurso. Ambos parecem ter fascinação e ao mesmo tempo desprezo pela imprensa, são megalomaníacos”, aponta.
Ainda durante as eleições, Trump expulsou de uma coletiva o jornalista Jorge Ramos, há 35 anos na Univision, considerado um dos hispanos mais influentes dos EUA, dando início a uma caçada aos repórteres latinos. O comportamento severo e as críticas de Trump legitimam, de acordo com Nathalie, a perseguição de parte da população americana aos não-brancos.
Em julho, um episódio explícito de racismo envolveu a apresentadora colombiana da Univision, . Durante uma entrevista, o supremacista branco e membro da KKK, Chris Barker, ameaçou atear fogo na apresentadora por ela ser latina e negra. No mês seguinte, nacionalistas brancos se reuniram em Charlottesville, na Virgínia, para protestar. Na ocasião, violentos confrontos levaram uma mulher à morte por atropelamento.
“Não vamos perder tempo nos indignando. Vamos analisar, ver e pensar. Podemos nos indignar por cinco minutos, mas que isso não paralise o trabalho, pois temos que colocar contexto nas situações. Não podemos repetir mentiras para que não se transformem em verdade”, defende Nathalie. Em sua equipe, há três jornalistas dedicados exclusivamente à checagem de dados. “Eles estão bem sobrecarregados”, brinca a jornalista.
Para aprender a lidar com as fake news Nathalie recorre a uma pesquisa social. “Uso muito o Uber e sempre faço duas perguntas aos motoristas: de onde você vem e como se informa?”, afirma. O questionamento serve como termômetro para saber a origem dos boatos, de que forma combatê-los e como se aproximar do público.
“Quando Trump assumiu e disse que iria deportar 11 milhões de pessoas, tivemos que recorrer a um advogado especialista em imigração para nos auxiliar com as matérias. Não publicamos uma linha sem o auxilio dele. Os latinos passaram a se informar mais e melhor sobre seus direitos. Portanto, devemos ao Trump o fato das pessoas estarem lendo sobre política”, ironiza.
Censura
“É definitivamente uma ditadura o governo de Maduro”, afirma categórica Nathalie. Segundo ela, desde a assunção do presidente em 2013, o país já registrou 730 agressões a jornalistas; 25 meios de comunicação passaram a ser controlados pelo governo, 22 deixaram de circular e 35 foram fechados ou banidos do país. No meio digital, são 15 os sites que ainda se mantém relatando a situação da Venezuela, o que para Natahlie não representa uma força jornalística, pois não estão unidos e não têm tanto alcance.
“A solução é termos redações que informem sobre o que ocorre lá dentro, de fora do país. Manter o jornalismo independente, mas de forma unida. Pois juntos eles são mais fortes”, aponta.
Além da perseguição venezuelana, Nathalie precisa lidar com problemas diplomáticos com Cuba. Devido à grande audiência proveniente do país, a Univision se dedica a manter informações e notícias sobre a Ilha, principalmente quando ocorrem desastres naturais, como os furacões registrados nas últimas semanas. “É complicado, não podemos mandar jornalistas para lá porque o governo de Castro não quer que divulguemos os estragos”, diz.
Já com o México a situação é diferente. Maioria na audiência da Univision, o país é referência até como manual de redação. Quando um mesmo termo é dito de forma distinta nos diferentes países de língua latina, o vocábulo escolhido para as redes sociais é o utilizado pelos mexicanos.
Digital
Apesar de ser o braço online da Univision, TV e digital são “duas tribos distintas”, afirma Nathalie. “Temos velocidades diferentes. É preciso planejar trabalhos conjuntos, mas não executamos da mesma forma”, diz. “Os jovens hispânicos são bilíngues, portanto, consomem não somente notícias e material em espanhol como também em inglês. Competimos com New York Times, Washington Post e gostamos de mirar alto, assim, os meios digitais da Univision duplicaram a audiência”.
Durante a passagem dos furacões José, Irma e Maria e, também, dos seguidos terremotos no caribe e México em setembro, a equipe de Nathalie se dividiu e inovou. Como a previsão era de que o Irma passaria por cima da redação da Univision, os repórteres foram deslocados para outras cidades ao norte da Flórida e, posteriormente para os países atingidos pelos desastres. Pela primeira vez, houve registro de uma cobertura via smartphone.
“Como bons imigrantes latinos somos aficionados pelo e começamos a passar informações com dia, hora, data e categoria dos furacões. As mensagens diziam: está em cinco [categoria], destroçou a Flórida. Eram informações muito pontuais porque não tinha internet, não tinha como fazer upload de uma nota ou um vídeo nas redes sociais”.
Em Porto Rico não havia luz e as informações eram passadas por telefone satelital. “Foi a única maneira que as pessoas tiveram de se informar durante 12 dias. Uma enorme experiência porque o foco foi basicamente jornalismo útil, de serviço. Como você pode se cuidar, o que fazer em caso de cheias, como está a rua da sua casa, como solicitar o seguro, ou seja, informações relevantes”, lembra.
“Nossa audiência é muito próxima e ativa, nos critica muito. O jornalismo serve também para podermos conversar”. A emissora criou um grupo fechado no Facebook e convidou 50 pessoas contra a imigração e outras 50 a favor para debaterem ideias durante um mês. “Foi uma experiência interessantíssima. Não estavam lá para brigar, mas para compreender e isso foi feito 100% em ambiente digital, via rede social”, aponta.
Segundo Nathalie, a televisão tem um perfil de telespectadores já definido; 60% do público é mexicano e está concentrado na Califórnia, já o digital ainda está formando uma audiência. “Nos demos conta de que o ângulo latino sobre política e imigração é interessante. Portanto, passamos a traduzir para o inglês as reportagens do Univision News e nos interessa cobrir também a questão da imigração olhando para os países e analisando quais são os problemas que levam a pessoa a imigrar”, diz.
Tendo em vista os equívocos da imprensa diante da surpresa que foi a eleição de Trump no ano passado, Nathalie afirma que é papel dos jornalistas, tanto do digital quanto dos veículos tradicionais, lutar pela verdade e terem responsabilidade com as informações. Em 2018, acontecem as eleições para o Congresso americano e, dessa vez, “vamos nos preparar melhor para não termos sustos”, conclui a jornalista.
Saiba mais:
“Depois que um banqueiro assumiu a direção da Capriles, indicado pelo governo, tínhamos que começar as matérias com ‘Maduro disse’, “Maduro foi’, ‘Maduro fez’, até mesmo as cores que utilizávamos nas artes eram contestadas”, afirmou Nathalie durante uma das mesas do festival Pauí Globonews de Jornalismo, em São Paulo, no sábado (7).
Veterana na cobertura política Nathalie, que já foi sequestrada e teve seu computador e celular apreendidos na Venezuela, aponta as semelhanças entre o modo de governar de Trump e de Chávez. “Ambos são maestros do Twitter. Às vezes, chego a pensar que Chávez está falando no ouvido de Trump tamanha a semelhança do discurso. Ambos parecem ter fascinação e ao mesmo tempo desprezo pela imprensa, são megalomaníacos”, aponta.
Ainda durante as eleições, Trump expulsou de uma coletiva o jornalista Jorge Ramos, há 35 anos na Univision, considerado um dos hispanos mais influentes dos EUA, dando início a uma caçada aos repórteres latinos. O comportamento severo e as críticas de Trump legitimam, de acordo com Nathalie, a perseguição de parte da população americana aos não-brancos.
Em julho, um episódio explícito de racismo envolveu a apresentadora colombiana da Univision, . Durante uma entrevista, o supremacista branco e membro da KKK, Chris Barker, ameaçou atear fogo na apresentadora por ela ser latina e negra. No mês seguinte, nacionalistas brancos se reuniram em Charlottesville, na Virgínia, para protestar. Na ocasião, violentos confrontos levaram uma mulher à morte por atropelamento.
“Não vamos perder tempo nos indignando. Vamos analisar, ver e pensar. Podemos nos indignar por cinco minutos, mas que isso não paralise o trabalho, pois temos que colocar contexto nas situações. Não podemos repetir mentiras para que não se transformem em verdade”, defende Nathalie. Em sua equipe, há três jornalistas dedicados exclusivamente à checagem de dados. “Eles estão bem sobrecarregados”, brinca a jornalista.
Para aprender a lidar com as fake news Nathalie recorre a uma pesquisa social. “Uso muito o Uber e sempre faço duas perguntas aos motoristas: de onde você vem e como se informa?”, afirma. O questionamento serve como termômetro para saber a origem dos boatos, de que forma combatê-los e como se aproximar do público.
“Quando Trump assumiu e disse que iria deportar 11 milhões de pessoas, tivemos que recorrer a um advogado especialista em imigração para nos auxiliar com as matérias. Não publicamos uma linha sem o auxilio dele. Os latinos passaram a se informar mais e melhor sobre seus direitos. Portanto, devemos ao Trump o fato das pessoas estarem lendo sobre política”, ironiza.
Censura
“É definitivamente uma ditadura o governo de Maduro”, afirma categórica Nathalie. Segundo ela, desde a assunção do presidente em 2013, o país já registrou 730 agressões a jornalistas; 25 meios de comunicação passaram a ser controlados pelo governo, 22 deixaram de circular e 35 foram fechados ou banidos do país. No meio digital, são 15 os sites que ainda se mantém relatando a situação da Venezuela, o que para Natahlie não representa uma força jornalística, pois não estão unidos e não têm tanto alcance.
“A solução é termos redações que informem sobre o que ocorre lá dentro, de fora do país. Manter o jornalismo independente, mas de forma unida. Pois juntos eles são mais fortes”, aponta.
Além da perseguição venezuelana, Nathalie precisa lidar com problemas diplomáticos com Cuba. Devido à grande audiência proveniente do país, a Univision se dedica a manter informações e notícias sobre a Ilha, principalmente quando ocorrem desastres naturais, como os furacões registrados nas últimas semanas. “É complicado, não podemos mandar jornalistas para lá porque o governo de Castro não quer que divulguemos os estragos”, diz.
Já com o México a situação é diferente. Maioria na audiência da Univision, o país é referência até como manual de redação. Quando um mesmo termo é dito de forma distinta nos diferentes países de língua latina, o vocábulo escolhido para as redes sociais é o utilizado pelos mexicanos.
Digital
Apesar de ser o braço online da Univision, TV e digital são “duas tribos distintas”, afirma Nathalie. “Temos velocidades diferentes. É preciso planejar trabalhos conjuntos, mas não executamos da mesma forma”, diz. “Os jovens hispânicos são bilíngues, portanto, consomem não somente notícias e material em espanhol como também em inglês. Competimos com New York Times, Washington Post e gostamos de mirar alto, assim, os meios digitais da Univision duplicaram a audiência”.
Durante a passagem dos furacões José, Irma e Maria e, também, dos seguidos terremotos no caribe e México em setembro, a equipe de Nathalie se dividiu e inovou. Como a previsão era de que o Irma passaria por cima da redação da Univision, os repórteres foram deslocados para outras cidades ao norte da Flórida e, posteriormente para os países atingidos pelos desastres. Pela primeira vez, houve registro de uma cobertura via smartphone.
“Como bons imigrantes latinos somos aficionados pelo e começamos a passar informações com dia, hora, data e categoria dos furacões. As mensagens diziam: está em cinco [categoria], destroçou a Flórida. Eram informações muito pontuais porque não tinha internet, não tinha como fazer upload de uma nota ou um vídeo nas redes sociais”.
Em Porto Rico não havia luz e as informações eram passadas por telefone satelital. “Foi a única maneira que as pessoas tiveram de se informar durante 12 dias. Uma enorme experiência porque o foco foi basicamente jornalismo útil, de serviço. Como você pode se cuidar, o que fazer em caso de cheias, como está a rua da sua casa, como solicitar o seguro, ou seja, informações relevantes”, lembra.
“Nossa audiência é muito próxima e ativa, nos critica muito. O jornalismo serve também para podermos conversar”. A emissora criou um grupo fechado no Facebook e convidou 50 pessoas contra a imigração e outras 50 a favor para debaterem ideias durante um mês. “Foi uma experiência interessantíssima. Não estavam lá para brigar, mas para compreender e isso foi feito 100% em ambiente digital, via rede social”, aponta.
Segundo Nathalie, a televisão tem um perfil de telespectadores já definido; 60% do público é mexicano e está concentrado na Califórnia, já o digital ainda está formando uma audiência. “Nos demos conta de que o ângulo latino sobre política e imigração é interessante. Portanto, passamos a traduzir para o inglês as reportagens do Univision News e nos interessa cobrir também a questão da imigração olhando para os países e analisando quais são os problemas que levam a pessoa a imigrar”, diz.
Tendo em vista os equívocos da imprensa diante da surpresa que foi a eleição de Trump no ano passado, Nathalie afirma que é papel dos jornalistas, tanto do digital quanto dos veículos tradicionais, lutar pela verdade e terem responsabilidade com as informações. Em 2018, acontecem as eleições para o Congresso americano e, dessa vez, “vamos nos preparar melhor para não termos sustos”, conclui a jornalista.
Saiba mais:





