"Não vai haver mudança no país pela educação, mas pela democratização da mídia", afirma Luiza Coppieters
O debate “Vozes da Educação” foi promovido pelo Jeduca durante o 1º Congresso de Jornalismo de Educação, na Universidade Anhembi Morumbi, emSão Paulo, realizado no dia 29 de junho de 2017.
Entre as pautas discutidas estão os movimentos de ocupação em instituições de ensino no Brasil que "também revelam a necessidade dos estudantes de que suas vozes sejam ouvidas”, conforme destaca para o Zero Hora escrito por Marcelo Rocha, professor da Unipampa, Crédito:Alice Vergueiro/Jeduca
Outro Marcelo Rocha, ativista e fotojornalista, que participou do movimento de ocupações em 2015, reitera essa necessidade. “Nosso desafio era criar visibilidade para a ocupação, por meio da página ‘Maria Elena Ocupada’ (referente à ocupação em Mauá da EE Professora Maria Elena Colônia), para mostrar os bastidores da ocupação, o outro lado”. Ele lembra a postura da imprensa com relação à ocupação do Centro Paula Souza, em 2016, “que só noticiava coisa ruim, se cansou da gente estudantes”, de acordo com ele.
O surgiu em 2015 durante o movimento de ocupações em São Paulo contra o fechamento de escolas pelo governador tucano de SP, Geraldo Alckmin, e se transformou, segundo Marcelo, em um canal em que “falávamos do nosso posicionamento e produzíamos conteúdo próprio, já que a imprensa não tinha questão de noticiar, mudando completamente a narrativa, distorcendo informações”.
Ele ressalta que o estudante está pronto para falar, além das representações, ter voz. Além do Canal, Marcelo atua como colaborador na Mídia Ninja, em que procura também abordar questões ligadas à educação.
Crédito:Alice Vergueiro/Jeduca
Ronaldo Tenório, assessor de imprensa da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, também mostra preocupação com a distorção de informações pelos jornalistas. “A pasta sente falta de entrar no debate sobre o que é educação, buscando melhorar a cobertura, que está diminuindo”. Ele questiona: “Os jornalistas conhecem as escolas? Qual a sua relação com as fontes? Quem conhece educação está no chão da escola”. Só que muitos servidores têm medo de falar com a imprensa, afirma Tenório: “Receio que as aspas coloquem em xeque um bom trabalho, a sua credibilidade”.
O ativista Marcelo rebate que essa censura vem direto da Secretaria de Educação, como aconteceu no período de ocupações. “Vi alunos sendo perseguidos quando denunciavam problemas na escola pública”. E que falta a questão da vivência (da imprensa) “com os atores da escola pública”.
Ana Elisa Siqueira, pedagoga e diretora da EMEF Amorim Lima, na zona oeste de São Paulo, lembra que o jornalismo tem que ser a favor da sociedade, e não contra. Ela questiona: “Como a mídia pode assumir o lugar da coisa pública no país? A imprensa destrói ainda mais a coisa pública, esse lugar da esperança, das possibilidades. Falta muito a visibilidade do que é público que tem qualidade, para só mostrar as mazelas”.
Uma professora que teve a coragem de assumir sua transexualidade e acabou sendo demitida após assumir sua real identidade, Luiza Coppieters, professora de filosofia e integrante do Conselho LGBT pelo segmento mulheres transexuais, passou a ser procurada como fonte para explicar questões de gênero, especialmente após o lançamento do Programa Transcidadania, em 2015, pela Prefeitura da Cidade de São Paulo. Virou até personagem de história em quadrinhos no .
Crédito:Catraca LivreLuiza tem encontrado barreiras, junto aos jornalistas, para dar espaço a outras realidades. “Sofri transfobia, mas o jornalista comenta que as pessoas não entendem o termo, por estarem estão mais acostumadas com a homofobia. É muito complicado partir do pressuposto que não serão entendidas as diferentes violências”. Ela reforça que o jornalista constrói seu público na maneira como forma o discurso, em sua opinião.
Considerando a incapacidade da mídia de estabelecer um espaço democrático para ouvir os contraditórios, Luiza defende que não vai haver mudança no país pela educação, mas pela democratização da mídia.
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