“Não há vencedores na guerra”, diz Marcos Losekann sobre cobertura de conflito em Israel

Ao longo de seus 30 anos de jornalismo, pode-se dizer que Marcos Losekann passou boa parte deles na linha de tiro – ou de mísseis. Como correspondente da Globo nos anos 1990 na região Amazônica, fazia matérias investigativas em Roraima, Acre, Rondônia, Amazonas, Tocantins, Pará e Amapá, onde denunciou esquemas de corrupção, crimes ambientais e tráfico de drogas.

Atualizado em 18/11/2014 às 10:11, por Danubia Paraizo.


As reportagens quase custaram sua vida, como revelou em entrevista exclusiva à IMPRENSA durante a terceira edição do seminário internacional mídia.JOR, na última segunda-feira (17/11). “Em Roraima teve uma vez que um governador me ameaçou por causa de algumas matérias. Mandou sinais de que tinha controle sobre meus passos”, disse o jornalista, que admitiu que teve mais medo dos conflitos em Israel.
Losekann tornou-se correspondente em Jerusalém, em 2004, fazendo a cobertura da guerra entre Israel e a Palestina. Cobriu também a guerra de Israel e Líbano direto das trincheiras de forma inenterrupta nos 33 dias de conflito.
Crédito:Divulgação Marcos Losekann é repórter especial da TV Globo IMPRENSA - Você cursou direito antes do jornalismo. Por que decidiu mudar de profissão? Marcos Losekann - Fiz direito mais porque meu pai queria que eu tivesse um título de doutor antes do meu nome. Mas o direito ficou pelo caminho porque o jornalismo se tornou mesmo minha verdadeira paixão, minha razão de viver. Sem querer plagiar o Samuel Weiner, mas é uma paixão. Direito, acho que seria também muito bom, mas não sinto falta de nada como repórter. Sou muito feliz com o que faço.
Você fez diversas reportagens investigativas na época que esteve na Amazônia. Divulgou esquemas de corrupção, fez denúncias sobre o tráfico de drogas. Quais cuidados devem ter o jornalista na área? A primeira coisa que um jornalista que está começando tem que ter é muita correção com os fatos. A apuração dos fatos tem que ser exaustiva. Não acredito no jornalismo investigativo que a toda semana traz uma investigação nova. Acho que as investigações devem ser mais apuradas, bem fechadas para que quando ela seja colocada no ar ou no impresso ninguém possa contestar. Não por receio de que vá responder um processo, mas porque você tem um compromisso com o público.
Tem muito jornalista por aí que se avalia pelo número de processos que respondeu. Eu nunca respondi nenhum. Acho que não respondi nenhum porque fiz as matérias direito. Elas ficaram incontestáveis. Acho que tem que ter intuição, vontade de fazer, apurar incansavelmente, ouvir todos os lados, não ter lado nem ter pré-julgamentos. Avaliar se está no caminho certo e voltar para ele se sair e no final de tudo ainda fazer uma oraçãozinha.
Falando em oração, já teve algum risco de morte por causa de suas coberturas? Sim, em Roraima teve uma vez que um governador me ameaçou por causa de algumas matérias. Mandou sinais de que tinha controle sobre meus passos, mas o segredo é não mostrar medo. Esses caras que gostam de andar com segurança fazem mais para aparecer do que propriamente para protegerem sua vida, salvo raríssimas exceções.
Acho que matar um jornalista é algo pontual e arriscado para quem o faz. Pensa: 'eu sou um repórter da Globo e vou até o Tocantins fazer uma investigação'. Aí um coronel lá me mata. É claro que a Globo vai mandar cem repórteres para lá: 99 para investigar minha morte e um para continuar a minha investigação inicial. Tenho mais medo de bala perdida. No Oriente Médio vivi momentos bem difíceis e isso sim acho perigoso. Lá no caso eram mísseis perdidos. Mas não tenho medo de ameaças. Pode parecer que estou me gabando, mas nunca parei para pensar que isso seria perigoso.
Você foi correspondente no Oriente Médio em 2004. Como avalia o conflito entre Israel e Palestina hoje, dez anos depois? Avalio com tristeza. Houve perdedores nas duas trincheiras. Não há vencedores na guerra. Mais triste também é pensar que uma minoria que quer guerra e a maioria é quem paga por isso. Pouca coisa mudou desde então. Sou um frustrado. Fui para lá para ser correspondente de guerra como muitos sonham e vi como tudo aquilo era feio. A guerra é feia, é trsite.
Sonhei que talvez um dia eu pudesse ser um correspondente da paz, mostrar que houve acordos, mas me parece que ninguém honra acordo de paz ali. Eles não querem saber de paz. E depois que a guerra termina, sua história é contada pelo vencedor, ou seja, ela é contada como se quer. Acho que para ter uma solução ali, só depois de algumas gerações, infelizmente.

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