"Não existe bom repórter sem boas fontes", diz Percival de Souza ao relançar "Narcoditadura”

Especializado em jornalismo investigativo, Percival contextualiza ambiente em que o narcotráfico está inserido, na “ditadura do tráfico”.

Atualizado em 06/10/2014 às 15:10, por Christh Lopes*.

Como serviço essencial à sociedade, o jornalismo investigativo tem no Brasil um de seus maiores desafios. Afinal, no país tropical, seja à luz do dia ou na penumbra da noite, o tráfico de drogas contamina as periferias das cidades. Foi pelo bem de informar que Tim Lopes arriscava sua própria vida, para relatar a realidade que poucos conheciam sobre o subúrbio. Há uma década, perdeu-se um dos profissionais mais engajados na área. Porém, o convívio com o perigo não mudou e foi base para estudo de Percival de Souza.
Crédito:Divulgação Jornalista enaltece trabalho de Tim Lopes na denúncia do narcotráfico
Ao relançar a obra “Narcoditadura”, o jornalista relata a constatação de que o poderio do narcotráfico não foi abalado após o sacrifício de Tim Lopes. Em suas palavras, disserta sobre os novos fatos que desencadearam em uma “tragédia interminável”. Quem se interessar pelo livro, poderá compreender a situação da segurança nacional, que vai muito além dos índices criminais. O apresentador da Record não faz rodeios e revela todos os trâmites do esquema que vitimou o colega jornalista.
À IMPRENSA, ele conta que já sofreu ameaças pelo trabalho desenvolvido há mais de trinta anos e revela os novos projetos.
IMPRENSA: O que motivou a relançar a obra? Há novos fatos a serem esclarecidos? Percival de Souza: A constatação de quer o poderio do narcotráfico não foi abalado após o sacrifício de Tim Lopes. Fatos novos podem ser acrescentados a cada dia, uma tragédia interminável. Na Copa do Mundo, os morros cariocas foram ocupados por tropas das Forças Armadas, mesmo com as chamadas unidades policiais pacificadoras. É chocante a balança da ditadura do tráfico. Alguém quer comprar, anulando a própria razão. Alguém mercantiliza. Sobre o tema, predominam as discussões estéreis, bizantinas, inúteis. Daí o relançamento do livro, como uma espécie de denúncia permanente.
O que mudou no combate ao narcotráfico desde o lançamento do livro? Percival de Souza: O aperfeiçoamento repressivo do Departamento de Polícia Federal, algumas polícias estaduais especializadas, em paralelo com a constatação de que o tráfico é uma poderosa hidra, de muitas cabeças, que se infiltra nos aparelhos do Estado, corrompe e domina. O tráfico é sempre dinâmico; o aparato legal é lento, com dificuldades em se manter atualizado permanentemente. Hoje, facções criminosas específicas dominam o tráfico, especialmente o de cocaína.
Como avalia cobertura da imprensa no tocante ao tema da obra? Percival de Souza: Ela se alterna entre o factual, que faz parte do panorama diário, e o aprofundamento esporádico. A droga envolve e seduz, possui defensores ardorosos, mesmo sendo a fuga da realidade, uma “viagem”, sensação efêmera. A realidade só pode ser mudada através da própria realidade, ensinou Brecht. O dia a dia em torno do assunto nos remete ao escritor Albert Camus: 'hoje, está difícil você sustentar que dois mais dois... são quatro'. Existe muito empenho, filosófico até em se pretender demonstrar a quadratura do círculo. Crédito:Divulgação Obra reeditada traz retrato de um “tragédia interminável”
Já sofreu algum tipo de ameaça durante sua carreira no jornalismo investigativo? Percival de Souza: Muitas, em forma de ameaças, que exigiram proteção pessoal para mim e familiares, e outras intimidatórias, na forma de processos, que transformaram o chamado ”dano moral” numa indústria ameaçadora, eventualmente rentável. Não me sinto nenhum herói por isso e sim envergonhado por viver assim, quando um trabalho jornalístico investigativo precisa ser feito com malabarismos, peripécias, espírito de aventura e uma dose mínima de coragem.
Como é construir uma rede de fontes nesse meio? Quais são as maiores dificuldades? Percival de Souza: Elas são o grande capital do repórter. Existem fontes de primeira qualidade e aquelas que nutrem algum tipo de interesse em jogo. Você precisa filtrá-las e estabelecer uma hierarquia, na qual prevalecem as 100% confiáveis.

Isso exige uma confiança recíproca, uma comunhão de princípios e ideais. Você se identifica com a fonte, ela com você. Muitos jornalistas ainda não compreenderam isso. São aqueles que vivem de aspas e declarações oficiais. Não se colocam no palco, como contadores de uma história.

Não sabem que a reportagem é a alma do jornalismo e possui dimensões épicas. Não existe bom repórter sem boas fontes. O bom repórter as cultiva, como se fosse um jardineiro, sempre cuidadoso com elas no seu precioso jardim particular: boas fontes são pessoais e intransferíveis.
O que o jornalismo investigativo poderia tomar como lição do caso Tim Lopes? Percival de Souza: Como digo em “Narcoditadura”, o jornalismo investigativo é a.T. e d.T., antes e depois de Tim. A grande lição é que muita gente, grupos, bandos e instituições querem obstruir esse tipo de trabalho porque não lhes convêm que certos assuntos venham à tona. Preferem icebergs. Nesse sentido, somos estorvos, incômodos. Precisamos ter plena consciência disso ao ouvir um “não” e que determinadas abordagens seriam “impossíveis”. Não são. Tem gente com saudades do Pravda e as redações se tornaram uma espécie de pátio de milagres, procuradas por muitas pessoas em busca da última esperança.
Quais são os próximos projetos? Há algum tema que gostaria de abordar no futuro? Percival de Souza: Estou pensando, por sugestão da Editora Planeta, em elaborar uma série de livros sobre crimes que tiveram, a seu tempo, grande repercussão. É um projeto. Antes dele, porém, pretendo reeditar "Autópsia do Medo", uma biografia contextualizada do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais expressivos nomes da repressão política naquela que chamo de polícia do pensamento, a saber, o DOPS - o Departamento de Ordem Política e Social, atrelado ao DOI-CODI.
Durante uma coletiva de imprensa, a presidente Dilma Rousseff disse que não cabe à imprensa investigar. O senhor concorda com tal declaração? Percival de Souza: Cabe, sim, e graças a ela muitos segredos já foram desvendados em nosso País. Inúmeros fatos não teriam sido apurados se não tivessem sido feitas denúncias através da imprensa. Mais: sem imprensa, vários desses fatos sequer seriam apurados. É o Brasil contemporâneo.

Serviço "Narcoditadura - Um dos maiores casos do jornalismo investigativo sobre o crime organizado" Autor: Percival de Souza. Editora: Planeta. Preço: R$ 29,90.
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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves