"Não é um livro contra o futebol ou contra as Copas", diz Jamil Chade, do "Estadão"

Faltando 76 dias para o início da Copa do Mundo, chega às livrarias nesta sexta-feira (28/12) uma obra que tem como principal objetivo mostrar os bastidores da preparação do Mundial de futebol, cujos gastos somam o equivalente aos dois últimos campeonatos.

Atualizado em 28/03/2014 às 15:03, por Vanessa Gonçalves.

Sob a pena de Jamil Chade, correspondente de O Estado de S.Paulo na Europa, o leitor vai descobrir como "a Fifa usou o Brasil" em "A Copa como ela é — a história de dez anos de preparação para a Copa de 2014".


Crédito:Divulgação Jamil Chade revela os bastidores da organização da Copa no Brasil

À IMPRENSA, o jornalista conta como passou dez anos apurando o tema, mesmo com todas as dificuldades em furar o bloqueio armado pela entidade máxima do futebol para ocultar qualquer assunto que diz respeito ao esporte. A triste constatação é aquela que a mídia brasileira tem constantemente anunciado: perdemos uma oportunidade única de transformar nossas cidades. "A Copa já acabou para o Brasil. Só não sabemos quem venceu em campo", afirma Chade.


Segundo o correspondente, a realidade é que "nossa emoção com o futebol foi sequestrada por um grupo de pessoas que tentam tirar proveito disso". É por essa razão, que o jornalista espera que ao acompanhar a obra o torcedor tenha um novo olhar sobre o Mundial. "Espero contribuir para que o torcedor que vá aos estádios saiba porque aquele estádio está ali, porque aquele jogo está sendo disputado ali, quem ganhou com ele. Não é uma tentativa de boicote ao futebol. Mas torcer de forma consciente".


IMPRENSA - Como surgiu a ideia do livro? JAMIL CHADE - Há 14 anos sou correspondente do Estadão na Europa e cobri a candidatura do Brasil e depois sua escolha em 2007 de forma intensa na Fifa. Sempre tive a vontade de fazer um livro sobre esse assunto. Mas o que me fez de fato começar a escrever e buscar uma editora foi algo que ocorreu no final de janeiro de 2014. A presidente Dilma Rousseff visitou a Fifa em Zurique, numa tentativa desesperada de dar uma imagem ao mundo de que tudo caminhava bem.

Ela e Blatter montaram um verdadeiro teatro. Abraços, sorrisos, elogios,frases de efeito e a garantia de que tudo ficaria pronto. Blatter e Dilma não se suportam. Mas ali a ordem era mostrar ao mundo uma harmonia total. Depois de mais de uma hora de reuniões, que me relataram como tensas, Dilma e Blatter saíram para falar com a imprensa. Mas, para a surpresa de todos nós, a condição era de que eles não aceitariam perguntas. Ou seja, nos éramos obrigados a engolir o discurso que eles haviam preparado, no teatro que eles haviam preparado, sem poder questionar. Naquele momento, senti que estava fazendo parte de um jogo para manipular a opinião pública e saí daquela cobertura convencido de que precisava contar a historia completa da Copa.
Qual é o objetivo da obra? O objetivo dessa obra é simplesmente a de denunciar e escancarar a forma pela qual um evento foi preparado. A Copa já acabou para o Brasil. Só não sabemos quem venceu em campo. Mas a realidade é que perdemos uma oportunidade única de transformar nossas cidades. Não é um livro contra o futebol ou contra as Copas. Mas uma tentativa de mostrar que precisamos ser uma espécie de torcedor-cidadão, que claro apoia a seleção. Mas não sem saber o que de fato representou essa Copa.
Crédito:Divulgação Jornalista passou dez anos investigando realização da Copa no Brasil
Depois das denúncias de Andrew Jennings, da BBC, os olhos ficaram voltados para a Fifa. Como conseguiu ter acesso a tantas informações? A Fifa é uma das organizações mais fechadas do mundo. Para entrar no prédio, é exigido a impressão digital do funcionário para abrir as portas. Na sala do Comitê Executivo da Fifa, não há nem sinal de celular. A assessoria de imprensa não tem qualquer compromisso em transmitir a verdade. Portanto, não é um trabalho dos mais simples.

Mas vivendo na Suíça há mais de uma década, a vantagem é criar fontes e ver como pessoas entram e também saem da Fifa. Todos os grandes escandalos na entidade foram revelados em momentos de disputa interna do poder, com diferentes grupos tentando derrubar a outros expondo os podres da organização à imprensa. Nosso trabalho é o de ter o cuidado de não entrar nesse jogo e confirmar se as denuncias são verdadeiras.
Quais foram as maiores dificuldade em apurar um assunto que mexe com tantas paixões? Talvez, justamente, a paixão. Dou um exemplo. Há poucos meses, Messi foi indicado por evasão fiscal na Espanha. Quando ele chegou ao tribunal, foi aplaudido por uma multidão que o aguardava na porta. Falar de Copa e de seleção é também falar de emoções e há muitos que acham que, ainda assim, vale a pena ter uma Copa no Brasil.

Se não bastasse, autoridades e cartolas usam justamente a emoção para te descreditar. Quantas vezes tive de ouvir: "só vocês jornalistas não querem a Copa. O Brasil todo quer a Copa". Ora, o meu único trabalho na cobertura do Mundial é o de mostrar o que ele de fato é. Nos últimos meses, temos ouvido até Dilma mudar seu discurso. Ela abandonou o esforço de mostrar que a Copa deixará um legado e agora só fala em realizar "A Copa das Copas" e "torcer pela conquista da seleção". Ou seja, mexer com as paixões e não falar do que o Mundial representa. Outra grande dificuldade é a de apurar um assunto que, para a a Fifa e a CBF, é um evento privado. Os contratos com patrocinadores são secretos, a forma de escolher as sedes na Fifa é secreto, os salários daqueles que trabalham no evento são secretos.
Trabalhar fora do País ajuda a ter uma visão distanciada da Copa? Talvez ajude, inclusive por não estar vivendo o bombardeio de publicidade para a Copa e da pressão. Mas vejo meus colegas no Brasil fazendo um trabalho espetacular de denúncia e apuração. Almir Leite, Silvio Barsetti, Sergio Rangel, Rodrigo Mattos, Martin Fernandez, Juca Kfouri. Há muita gente comprometida em mostrar o rosto completo da Copa e talvez a Fifa tenha se surpreendido diante da capacidade da imprensa em questionar. Eles acharam que chegariam no Brasil com espelinhos e que, nós, no país do futebol, aceitaríamos tudo. Você acompanha há dez anos as negociações que culminaram na escolha do Brasil para sediar a Copa. Na sua opinião, quais os pontos mais chocantes? Acredito que seja a tentativa descarada de políticos e de cartolas de mentir. O livro começa no hall de entrada de um hotel em Zurique. Ricardo Teixeira me chamou para conversar e me disse em 2007: "essa Copa será feita sem um centavo do governo". Hoje, o que vemos é que, de cada nove dólares gastos em estádios, oito foram emprestados, financiados ou pagos pelo poder público. Ela custará três vezes mais que o plano inicial de 2007. Ela custará o equivalente a duas Copas do Mundo. O Brasil gastou em estádios o equivalente ao que a África do Sul e a Alemanha gastaram em 2010 e 2006. Não há o que justifique isso. Como explicar que uma cidade que tinha o Morumbi construiu um estádio novo? Como justificar que Brasília tem hoje o terceiro estádio mais caro do mundo e sem um time de futebol? Como justificar uma Copa em doze sedes, se a Fifa apenas pediu oito?
Sabemos que muitos interesses estão em jogo nessa Copa. De acordo com sua apuração, haverá algum benefício para o Brasil e para seu povo? O Brasil perdeu uma grande oportunidade de mudar a cara de suas cidades e usar a Copa para promover desenvolvimento social. A Fifa usou o Brasil, e não foi o Brasil que usou a Copa. E esse talvez tenha sido o maior erro dessa Copa. Dou um exemplo claro: todos falam de Barcelona como uma referência em organização de um evento esportivo que mudou uma cidade. Mas, nos Jogos Olímpicos de 1992, apenas 9% do orçamento de obras foi usado para as instalações esportivas. O restante foi para o aeroporto, avenidas, mobilidade urbana etc. No Brasil quase 40% dos gastos da Copa serão com estádios, nem sempre em locais adequados.
O que o leitor deve esperar desse livro? Um livro que foge da propaganda oficial da Copa. Um livro que conta os bastidores políticos e comerciais do maior evento hoje do mundo. Nossa emoção com o futebol foi sequestrada por um grupo de pessoas que tentam tirar proveito disso, justamente conhecendo nossa paixão. Não há nada de errado em manter uma paixão. Mas ela precisa uma dose de consciência. Após a leitura da sua obra, é possível assistir a Copa com outros olhos? Espero que sim. Espero contribuir para que o torcedor que vá aos estádios saiba porque aquele estádio está ali, porque aquele jogo está sendo disputado ali, quem ganhou com ele. Não é uma tentativa de boicote ao futebol. Mas torcer de forma consciente. Se finalmente a Copa é um empreendimento público, o cidadão tem o direito de saber tudo sobre ela.

Serviço:
"A Copa como ela é — a história de dez anos de preparação para a Copa de 2014"
Data: 28 de março Horário: 19h Local: Livraria Saraiva - Shopping Eldorado Endereço: Av. Rebouças, 3970 - 1º piso - São Paulo Convidado: presença de Juca Kfouri