Nada grave, só uma greve
Nada grave, só uma greve
Atualizado em 20/06/2008 às 23:06, por
Rodrigo Manzano.
Quando retornávamos, hoje, de uma apuração pelo centro de São Paulo, a estagiária da revista IMPRENSA, Karina Padial, e eu nos deparamos com a greve dos professores da rede estadual. Ao chegarmos em nosso destino, confundidos com os milhares de professores que se reuniriam na Praça da República, um taxista nos desejou boa sorte e afirmou que "os professores são o futuro do país". Quando percebemos, não só estávamos no meio do piquete como parecíamos, a quem olhava de longe, os líderes do movimento. Diante dos batedores da Polícia Militar, éramos nós os pontas-de-lança da passeata. Só faltaram as palavras de ordem, as bandeiras, o megafone na mão, para compormos na massa mais dois na luta pela melhor qualidade das condições do ensino em SP. De um carro de som, um manifestante solicitava com urgência a presença da professora Elizabete. Perguntei à Karina quantas professoras Betes não estariam ali, compondo a greve. Brincamos: daqui a pouco, aparecem umas 140 professoras à beira do trio elétrico. Nesse momento, dos alto-falantes ecoava uma informação mais precisa: professora Elizabete, de Piracicaba. Ah, sim, agora o número baixaria para algo como 100, afirmou Karina.
Naquele momento, lembrei-me de minha infância. Sempre fui aluno de escola pública estadual e, para completar, sou filho de professora. Minha mãe, até seus últimos dias, queixava-se do salário que recebia como professora de História de Ensino Médio (naquele tempo, Colegial), e o orçamento doméstico só não era mais apertado porque ela tinha, ainda, dois outros trabalhos. A dura realidade dos professores sempre foi muito próxima da minha realidade. Sinceramente, eu sempre gostei das greves, principalmente porque elas representavam dias e dias sem aula. A greve, na minha percepção infantil, era sinônimo de férias adiantadas, brincadeira na rua, acordar mais tarde, alforria das lições de casa etc. A greve era um fato desfocado.
O noticiário sobre as greves, de maneira geral, e desta, em particular, registra o caos no trânsito que as manifestações provocam, mas parece ignorar o motivo que levou milhares e milhares de professores a cruzarem os braços. O jornalismo tem uma percepção tão infantil quanto a minha. A diferença é que eu tinha 10 anos. O jornalismo, 200. Eu alimento um desejo antigo: escrever um livro-reportagem sobre a vida de professores e professoras espalhados por todo o país. Certa vez, em viagem, sentei-me ao lado de uma professora de Língua Portuguesa no ônibus. Durante horas, falamos sobre a dificuldade e a falência do ensino público fundamental e médio, especialmente em São Paulo, onde inúmeras administrações não colocaram a educação no eixo. A maior colaboração oferecida pelo governo do Estado foi uma figura pública chamada Gabriel Chalita, que dispensa comentários - tão conhecido é. Ao longo de nossa conversa, a professora e eu choramos, literalmente, quando ela me contou o número de ameaças de morte que sofria de seus alunos, o volume de remédios - em especial ansiolíticos - que precisava tomar para se encorajar a entrar em sala de aula e, sobretudo, sobre a falta de visão dos poderes públicos para melhorar a educação. Naquele dia, decidi que um livro sobre professores era algo que entraria em minha lista de trabalhos a realizar.
Um dia, quando os repórteres decidirem visitar uma escola pública, a greve deixará de ser apenas um problema de trânsito. Será um problema de Estado. Então, professoras como as tantas Betes que se reuniram hoje em São Paulo para exigir melhores salários deixarão de ser apenas volume, para se tornar gente.
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A propósito: em 1990, era entronizado, no Japão, Akihito, pai do príncipe regente da Casa Imperial que nos visita nestes 100 anos de imigração japonesa. Na ocasião, houve uma cerimônia muito solene da qual participaram chefes de estado de todo o planeta. Reuniram-se numa sala os mais poderosos homens e mulheres do mundo. Collor e Rosane estavam lá, um pouco descolados, é verdade. Em um ritual secreto e privado, sacerdotes xintoístas transformavam o então príncipe regente em imperador. O chefe de protocolo e cerimonial já havia transmitido as instruções aos poderosos convivas: eles tinham o privilégio de ser os primeiros a ver o então recém-entronizado imperador. Como forma de reverência, deveriam curvar-se, à moda japonesa, diante dele. Apenas um homem, solitário e tímido, no fundo da sala, não tinha a obrigação de fazer o gesto. Era o professor do imperador, a quem o monarca faria sua reverência.






