“Na cobertura de defesa militar o erro pode ser fatal”, diz Roberto Godoy, do "Estadão"

Repórter especial do Estadão, Roberto Godoy é um dos poucos profissionais brasileiros especializados em defesa militar. Quando o assunto está em pauta, ele é prontamente requisitado por outros meios de comunicação para análises e opiniões.

Atualizado em 20/06/2012 às 13:06, por Luiz Gustavo Pacete.

Roberto Godoy é um dos poucos profissionais brasileiros especializados em defesa militar. Quando o assunto está em pauta, ele é prontamente requisitado por outros meios de comunicação para análises e opiniões.

Entre os funcionários de mais tempo de casa do Grupo Estado, o jornalista admite que não começou a cobrir o assunto por hobby, mas pelo desafio recebido, em 1979, para cobrir um setor, até então, extremamente fechado. “Muitas pessoas pensam que eu já era louco pelo assunto, mas comecei a acompanhar essa área por questões práticas. Não vejo diferença de mim para um jornalista especialista em economia”.
Roberto Godoy
Apesar da complexidade do assunto e da dificuldade de conseguir fontes, Godoy reconhece que pegou “gosto pela coisa”. Antes de mergulhar na cobertura militar, o repórter já escrevia para a editoria de ciência e tecnologia.

Godoy começou sua carreira no Correio Popular , em Campinas, e depois mudou para o Grupo Estado. Ganhou cinco vezes o Prêmio Esso. À IMPRENSA, Godoy falou sobre os detalhes da cobertura de defesa militar no Brasil e sua relação com as fontes.
IMPRENSA – Como começou sua relação com a pauta de defesa? Roberto Godoy – Em 1979, o então editor-chefe do Estadão , Miguel Jorge, me pediu para fazer um perfil do segmento de defesa no Brasil. Até então, nós jornalistas tínhamos informações pontuais sobre a área militar. Havia uma indústria de equipamentos militares que, durante a censura, tinha sido cuidadosamente blindada. E mesmo no governo militar três grandes grupos empresariais foram desenvolvidos: Avibras Aeroespacial, Embraer e a Ejesa. Mas se eu citasse essas empresas em uma matéria qualquer, o secretário de defesa tinha que dar explicações em Brasília por causa do sigilo recorrente da época.
Por qual motivo acontecia essa blindagem? Era uma das formas que a ditadura usava para manter o assunto fora das páginas dos jornais. Procuradas, as empresas arrepiavam. Os assessores eram preparados para que nada saísse. Eles trabalhavam na contramão. E no meio dessa confusão toda, cai de pára-quedas. Aos poucos e com muito trabalho fui conquistando fontes. Além disso, o mercado também se abriu um pouco mais. Perceberam que era estratégico trabalhar a comunicação e dialogar com jornalistas.
Quais são os principais cuidados para cobrir o tema? Nesse tipo de cobertura você não discute com o terceiro escalão. Fala direto com o chefe de estado, com o ministro. Ou seja, primeiro escalão. Logo, o cuidado deve ser dobrado. A compra dos caças, por exemplo, é algo que a presidente cuida, as declarações sobre o tema partem dela e ponto. São pessoas altamente preparadas e envolvidas com o assunto. Além disso, as informações são estratégicas, estão relacionadas à defesa do país, logo, é sempre com muito cuidado que eles repassam qualquer tipo de informação.

Conheça um pouco da carreira de Roberto Godoy:

De que maneira você lida com suas fontes? Outro detalhe nessa relação com as fontes é o fato de que existem poucas pessoas habilitadas para falar, logo, não existe essa de a fonte não ser boa. Se não for boa, não temos outras opções. Tem que tomar muito cuidado para não virar parte de um lobby de determinado grupo. Entre as fontes mais comuns estão pessoas do governo, de empresas, de diplomacia e fontes de outros países que acabam sendo mais fáceis e eventualmente sabem mais do que as fontes locais. No caso das fontes estrangeiras, elas têm menos medo de falar.
Novas gerações têm obtido interesse pelo assunto? Não vejo muita gente nova nesse tipo de cobertura. É muito complicada. O conhecimento técnico eu acredito que é superável, dá para levar. Agora, conseguir fontes é um desafio. Reforço a questão do cuidado. Uma declaração mal colocada pode ser fatal para um setor tão complexo.
Qual o momento da indústria de defesa militar no Brasil? Vejo um momento de retomada desta indústria e um futuro promissor. O que levaria, por exemplo, a Odebrecht a criar uma unidade de negócios voltada para essa indústria, não fosse as boas perspectivas para o setor?. Hoje, eles possuem o maior contrato do setor submarino nuclear, um negócio de R$21 bilhões em pleno curso. E são negócios que se estendem por 30, 40 até 50 anos.