O ano de 2009 marcou a aliança definitiva do cinema documental com a música popular brasileira. Nunca tantos documentários tendo música e músicos como tema alcançaram tanta repercussão. Os mais bem sucedidos foram Simonal: Ninguém Sabe o Duro Que Dei e Loki: Arnaldo Baptista, ambos êxito de público e crítica. O filme sobre Wilson Simonal, produzido e dirigido por Claudio Manoel (da trupe Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, joga uma luz sobre os motivos que levaram o cantor a ser execrado por parte da classe artística e condenado a um quase total ostracismo após um rumoroso episódio envolvendo o suposto sequestro e espancamento de um contador e declarações sobre uma suposta atuação como delator da classe artística junto à ditadura militar nos anos 70. Simonal é mostrado como um entertainer de primeira e também como um homem amargurado tentando mostrar a verdade dos fatos. Com produção impecável e edição ágil, Simonal: Ninguém Sabe o Duro Que Dei, recentemente lançado em DVD pela Biscoito Fino, mostra também imagens raras do cantor em programas de televisão e apresentações ao vivo entremeadas por depoimentos.
Loki: Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle, produzido pelo Canal Brasil, é um retrato rico e detalhado da carreira do músico Arnaldo Dias Baptista, dos Mutantes, que vai das origens passando pelo movimento tropicalista, o casamento com Rita Lee, a rumorosa separação, as internações em clínicas e hospitais psiquiátricos, a tentativa de suicídio - ele caiu do quarto andar de um hospital em São Paulo - e a retomada da vida e da carreira. A exemplo do filme sobre Simonal, são utilizadas como material de apoio valiosas imagens de arquivo entremeadas a depoimentos recentes. A música, é claro, tem peso fundamental no desenvolvimento da narrativa. Loki: Arnaldo Baptista foi lançado em DVD pelo selo do Canal Brasil com distribuição da gravadora MZA Music.
Outro interessante documentário lançado em 2009 é Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre o compositor e zoólogo Paulo Vanzolini, autor de clássicos como Ronda e Volta Por Cima. Depoimentos de Vanzolini são intercalados a belas imagens das gravações da caixa de CDs Acerto de Contas, onde intérpretes de vários gêneros recriam composições dele. Saiu em DVD pela Biscoito Fino. Mais um belo documentário é Paulo Gracindo, o Bem Amado, de Gracindo Júnior, sobre a vida do extraordinário Paulo Gracindo (1911-1995), que além de ator foi apresentador de programas de variedades no rádio e na televisão. O filme é recheado de belas imagens de arquivo e de depoimentos de artistas que passaram pelos programas conduzidos por Gracindo. Foi lançado em DVD pela Biscoito Fino.
Os programas da série Por Toda Minha Vida, da TV Globo, que trazem biografias de grandes nomes da música brasileira já falecidos, mesclando dramaturgia e jornalismo, também começam a sair em DVD. A EMI lançou o episódio dedicado aos Mamonas Assassinas, que se dramaturgicamente é fraco, traz na área jornalística interessantes depoimentos de produtores e do biógrafo do grupo de Guarulhos, São Paulo.
Ainda inédito em DVD, Alô Alô Terezinha, do jornalista Nelson Hoineff, analisa o fenômeno de comunicação que foi o animador Abelardo Barbosa, o Chacrinha (1917-1988), responsável direto pelo sucesso de vários músicos brasileiros.
A tudo isso somem-se produções dos anos anteriores já disponibilizadas para o grande público, e material que se encontra em produção. Estão em fase de conclusão documentários sobre a geração de músicos ligados ao Teatro Lira Paulistana, que marcou a cultura de São Paulo a partir do final dos anos 70, e sobre o Tropicalismo. O casamento da música popular com o cinema documental vem dando excelentes frutos. Que venham muitos outros em 2010.
