Mulheres superpoderosas VII - Tereza Cruvinel: "Fernando Henrique viveu no congresso como um peixe no aquário"

Mulheres superpoderosas VII - Tereza Cruvinel: "Fernando Henrique viveu no congresso como um peixe no aquário"

Atualizado em 14/03/2005 às 17:03, por Thaís Naldoni - thaisnaldoni@portalimprensa.com.br.

Por Tereza Cruvinel é colunista política do jornal O Globo e comentarista da TV Globonews . Atuando no jornalismo político desde o começo da carreira, trabalhou na TV Brasília, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e O Globo . Cobriu o processo de transição política, os movimentos pela redemocratização, a abertura do regime, a campanha pelas diretas e a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral.
A partir de 1986, passa a escrever de terça a domingo a coluna "Panorama Político", onde combina análise e informação política com foco no processo governamental e legislativo. Sua experiência com as fontes transformou seus ouvidos em testemunha da história recente do país.

IMPRENSA - Você sente que hoje em dia no jornalismo existe equilíbrio entre mulheres e homens nos cargos de chefia?
Tereza
- Quantitativamente sim, havendo redações que têm até maior número de mulheres jornalistas. Mas embora haja hoje muitas mulheres ocupando cargos de direção, o poder nos meios de comunicação ainda é basicamente masculino.
O importante, entretanto, é que as mulheres já provaram sua competência profissional e a questão de gênero não é um impedimento à ascensão na carreira. Há mulheres colunistas, editoras, chefes e diretoras de redação, embora poucas nos cargos de editor-chefe.

IMPRENSA - Você percebe distorções no tratamento dado a homens e mulheres que exercem a profissão de jornalista? Já foi preferida ou preterida por ser mulher?
Tereza -
Pessoalmente, nunca enfrentei discriminação, mas entrei na profissão em 1980, quando as mulheres já se impunham profissionalmente em diversas áreas.
Nem tenho tido notícias de ocorrências desta natureza no jornalismo, felizmente.

IMPRENSA - Hoje em dia, há a equiparação salarial entre homens e mulher?
Tereza -
Não disponho de números para responder com absoluta segurança, até porque os dados salariais em geral são confidenciais. Mas, geralmente, quando surge uma vaga no mercado, sabe-se o salário, não se tendo notícia de variação deste valor diante da escolha de profissional mulher. Nos grandes centros acho que a equiparação é satisfatória, embora tenha notícias de distorção em veículos regionais.

IMPRENSA - A política é um setor dominado por homens. Como é para uma mulher trabalhar neste meio? Alguma dificuldade ou vantagem?
Tereza -
Hoje em dia não vejo problemas. As repórteres políticas são respeitadas por sua competência e seriedade. O tempo em que os políticos desconfiavam da capacidade profissional e intelectual das mulheres já passou. Depois de Adalgisa Nery, que escreveu uma coluna política nos anos 50, acho fui a primeira colunista política mulher. Mas Adalgisa era uma intelectual e política escrevendo em jornal, não uma repórter. Eu, no início, percebia, sim, uma certa insegurança na revelação de informações confidenciais, alimentada talvez até pela mística de que mulher fala muito e não sabe guardar segredo. Mas o trabalho do dia a dia foi sempre a melhor resposta, e foi através dele que nós, mulheres, fincamos nosso padrão na profissão.

IMPRENSA - A sensibilidade feminina ajuda na apuração de notícias?
Tereza -
Não sei. Há quem acredite em intuição feminina. Eu creio mesmo é na persistência, na argúcia e na atenção aos fatos, tomando-se a política como uma atividade humana extremamente rica e surpreendente, para o bem e para o mal. E estes são atributos tanto de homens como de mulheres.

IMPRENSA - Em algum momento de sua vida você flertou com o movimento feminista?
Tereza -
Eu me considero feminista, não no sentido sectário do termo, que remete às caricaturas dos anos 60/70. Todas aquelas cenas, como queimar sutiãs nas ruas, talvez tenham sido necessárias para despertar as mulheres do mundo inteiro para sua condição. Hoje, ser feminista é, sobretudo, zelar pela equidade de gênero, não se submetendo a qualquer forma de discriminação, e se for o caso, denunciando tais ocorrências. É ser atenta às políticas públicas e às práticas coletivas relacionadas com o direito das mulheres, e isso deve ser uma prática de vida. Sei de muita feminista de classe média que ignora direitos básicos da empregada doméstica em casa.

IMPRENSA - Qual o governo mais acessível como fonte, Lula ou FHC?
Tereza -
Havia maus informantes no Governo passado, como os há no atual. Da mesma
forma, tive e tenho excelentes interlocutores entre os tucanos, como os tenho no PT e no Governo atual. Fontes são seres humanos, com personalidades e comportamentos variáveis. A diferença importante deve ser buscada nas políticas de comunicação dos dois governos. O de Lula teve e tem mais dificuldade para compreender a real natureza do trabalho dos jornalistas, o papel da imprensa como mediadora das relações Estado-sociedade na democracia. Mas isso também não se aplica a todo o Governo, não pode ser generalizado.
Há também diferenças de personalidade entre os dois presidentes. Lula, acredito que por sua trajetória, pelas dificuldades que enfrentou em sua caminhada, seja mais defensivo em relação aos jornalistas. Ao contrário de Fernando Henrique, que viveu no Congresso como um peixe no aquário, Lula teve uma experiência parlamentar muito curta. E o Congresso, também neste sentido, é uma grande escola para os políticos.
Os petistas que têm mais experiência parlamentar - Genoino, Mercadante, Jacques Wagner, Palocci e outros _ são exatamente os que têm mais atenção e melhor relacionamento com a imprensa.