Mulheres superpoderosas VI - Salette Lemos: a sensibilidade feminina ajuda nas questões de economia"
Mulheres superpoderosas VI - Salette Lemos: a sensibilidade feminina ajuda nas questões de economia"
IMPRENSA - Como foi o início de sua carreira?
Salete - Eu comecei como revisora no Diário de S. Paulo, depois, fui para a revisão da empresa O Estado de S. Paulo, então, fui para a redação, em muito pouco tempo e fui para a editoria de esportes, como foca.
O fato é que sempre fui uma leitora muito assídua de todos os jornais e me incomodava muito os cadernos de economia, porque eu não entendia. E aí, eu ficava atrás do Celso Ming, perguntando o que ele queria dizer quando escrevia determinadas coisas. Acho que porque eu era muito pentelha, pegava muito no pé deles, fui transferida da editoria de esportes, para a de economia.
IMPRENSA - Neste início, quem foi seu maior exemplo?
Salete - O meu grande instrutor, logo que eu entrei na editoria de economia, a quem sou extremamente agradecida pela carreira de sucesso que eu tenho, foi o Júlio Moreno. Ele me recebeu de uma forma muito doce, muito confiante e, no primeiro ano de economia no Jornal da Tarde, eu ganhei um Prêmio Esso, em 1985. Foi falando sobre o BNH, que eu nem sabia o que era na época.
Foi muito difícil porque eu não tinha a menor noção do que era economia (eu gostava muito de esporte) e nós começamos e nos demos extremamente bem. A editoria de economia cresceu muito e logo eu fui para a Getúlio Vargas.
Naquela época, a GV tinha cursos semestrais, à noite e eu saía da redação e ia para o curso. Inclusive, meu primeiro curso foi com o Júlio Moreno. Eu não saí da GV até hoje. Tenho muita afinidade com os professores, que são fontes minhas e gosto do clima do local e, posso dizer que me apaixonei pela economia, pela macroeconomia, a filosofia, a teoria econômica. Não gosto muito da coisa financista, de fazer contas, mas discutir a economia me fascina.
IMPRENSA - Como avalia, atualmente, a mídia de economia? Você acredita que ela seja ainda dominada por clichês ou está se aprofundando mais, conseguindo estar mais acessível ao grande público?
Salete - Tenho por mim, que economia é cidadania, então, na verdade, o meu início foi respaldado por esta necessidade de as pessoas entenderem do que se trata a economia, acabar com aquele "economês", aquela coisa enfadonha, chata, absolutamente impermeável. Foi onde eu fui conquistando algum espaço. Eu traduzia economia no Jornal da Tarde, na verdade, era essa a minha função. Eu fazia grandes entrevistas e traduzia aquilo, então, as manchetes eram fantásticas, porque as pessoas sabiam do que estava sendo tratado.
Acho que de lá para cá, sem dúvida nenhuma, você tem um contexto de cidadania dentro da abordagem das questões econômicas. A própria revista Exame, que era extremamente técnica, com uma linguagem muito fechada para um leitor leigo, hoje ela já permite uma leitura prazerosa.
IMPRENSA - A economia está então mais acessível ao público?
Salete - Eu acredito que sim. Até pelo dato de a economia estar presente nos telejornais, existe uma preocupação dos editores em decodificar as grandes fórmulas, a coisa da teoria. A Folha de S. Paulo tem um primor nisso. Quando eles escrevem alguma coisa em economês, eles colocam um quadrinho, explicando o que significa, sem dúvida, as coisas mudaram muito nestes últimos 20 anos.
IMPRENSA - Atualmente, da sua opinião, há algum jornalista referência quando o assunto é economia?
Salete - Para mim, o único é o Luis Nassif. A gente que trabalha com economia lê muito. Eu gosto muito de fazer estudos comparativos das diversas teorias econômicas, são exercícios de divagação, que eu realmente gosto. Mas, eu acho que o grande jornalista econômico, neste país, é Luis Nassif. Mais do que Celso Pinto... A Miriam e eu aprendemos com ele. O primeiro programa de economia da televisão, o Cash, nós fizemos com ele. Eu gosto muito do Celso Ming, do Sardenberg, mas o Nassif é diferente, tem uma contestação, ele tem uma invasão na técnica, que é primorosa.
IMPRENSA - Há alguém em que você tenha se inspirado no início?
Salete - Eu me inspirava no Joelmir Beting ao contrário. Eu tinha por objetivo fazer o que ele fazia, mas explicando o que ele não explicava e sem aquela metáfora toda que me enchia um pouco a paciência.
IMPRENSA - Em um setor dominado por homens, como a economia, como foi para uma mulher entrar neste universo?
Salete - Para mim, foi uma coisa extremamente fácil. Eu tenho muita dificuldade em me relacionar com mulheres, porque a mulher é muito vaidosa, tem uma disputa, coisa que homem não tem. Eu sou meio masculina no tratamento das minhas questões profissionais, então, é mais fácil.
A mulher disputa espaço, tem aquela coisa do cabelinho, que tem estar sempre arrumadinho, para dar entrevistas tem que estar com as unhas pintadinhas, eu acho tudo isso um saco! Eu sou vaidade menos dez, aliás, nem sei como eu vim parar em televisão.
IMPRENSA - Em algum momento você passou por alguma situação constrangedora, sofreu algum tipo de assédio?
Salete - Com relação aos homens, eu sempre fui muito contida na minha argumentação profissional, então, nenhum homem me cantou ou tentou me seduzir, nenhum homem me chamou para jantar, nenhum ministro, nenhuma fonte, nada. È uma coisa extremamente objetiva e acabou. Nunca tive nenhum problema.
IMPRENSA - Um trabalho que absorve tanto tempo e energia, como o jornalismo, faz com que você deixe sua vida pessoal em segundo plano?
Salete - Não. Sou uma administradora, formada pela Getúlio Vargas. Eu namoro, eu curto balada, eu tenho dois filhos adolescentes, o Yuri, de 19 e a Marina, de 16. Gosto de pegar onda, faço ginástica, eu nado, faço academia, leio muito, estudo muito, faço curso de inglês e não falta tempo para absolutamente nada.
IMPRENSA - Você acredita que ainda haja alguma diferença entre homens e mulheres jornalistas, no que diz respeito a homens e mulheres jornalistas, no que diz respeito ao salário, tratamento, abertura ou não de portas?
Salete - Eu acho que não. Eu vejo algumas coisinhas, de alguns homens em cargos de chefia, assediando as meninas bonitinhas quando elas chegam, mas eu acredito que nós, mulheres, estejamos bem descoladas nestas coisas, inclusive, nestes casos aparecem pessoas, que te oferecem uma oportunidade, mas querem falar sobre isso depois do expediente. Eu acredito que coisas assim devam acontecer, mas acho que as coisas devam estar prevalecendo de um para um.
IMPRENSA - A sensibilidade feminina pode ser considerada um diferencial em entrevistas e apuração de matérias?
Salete - A sensibilidade da mulher ajuda muito, principalmente nas questões de economia. A mulher por ela ser hoje a provedora administrativa ou provedora até familiar, já que nós criamos os filhos sozinhas, pelo menos esta é uma constante que eu observo, tem uma forma de entender a questão econômica que tem uma tradução feminina, do orçamento, de fazer economia, nós somos muito mais econômicas do que os homens. Eu acho que a sensibilidade e a intuição feminina nos diferencia dos homens no tratamento das questões econômicas.
IMPRENSA- Quais mulheres jornalistas, nos mais diversos meios de comunicação, você admira?
Salete - Tem algumas que eu tiro o chapéu: Maria Lydia, ela é de rádio, de TV, é uma mulher maravilhosa, batalhadora, cidadã. Eu gosto muito da Cristina Frias, da Folha.
IMPRENSA - Nas redações, em cargos de chefia, você nota igualdade entre homens e mulheres?
Salete - Só tem homens. Não sei porque é assim, eu acho que o dia em que uma mulher chegar lá, os homens dançam. Quem sabe, antes de eu me aposentar, eu não tenho uma chance?
IMPRENSA - Em alguma época de sua vida, você já se simpatizou com o movimento feminista?
Salete - Eu sempre fui muito feminista. Nunca admiti diferença, sempre dei chute no saco de homens que se pretendiam mais, sempre estudei muito para desqualificá-los enquanto os grandes conhecedores das questões econômicas. Hoje, meu filho é uma gracinha, ele tem uma paixão e um respeito pelas mulheres que, de certa forma, eu participei. Minha filha, também é muito bem resolvida.
Eu sempre fui feminista e não gosto de nenhum tipo de discriminação. Não gosto de discriminação à gay, a mulher, a fumante. É importante que haja uma convivência pacífica com as diferenças, de forma totalmente igualitária.
IMPRENSA - Em entrevista recente à revista IMPRENSA, Luis Nassif afirmou que o governo Lula estava de joelhos para o Banco Central. Como você avalia isso?
Salete - Eu acho que o governo Lula está de joelhos para qualquer coisa que tenha um pouquinho mais de embasamento técnico. Eles são muito imaturos, são marinheiros de primeira viagem, não tem o conhecimento, então fica difícil a discussão.
Como o Banco Central é hermético, você vai discutir com o Meirelles e ele vai começar a não tradução da economia e aí ele acaba prevalecendo e vai acontecer aquilo que eles determinarem.
O próprio ministro Palocci não tem afinidade com as questões econômicas, ele é médico. Então, de certa forma, o governo Lula está de joelhos para as questões econômicas.
IMPRENSA - Após tantos anos de carreira, tendo passado pelos mais diversos meios de comunicação, você ainda se sente motivada?
Salete - Eu me sinto uma foca até hoje. Sempre tem alguma coisa que eu estou descobrindo, que eu estou aprendendo, principalmente com o domínio de línguas, quando você começa a ler coisas em italiano, por exemplo, e passa a ter informações que você ainda não tinha. Eu escrevo, falo programas de rádio, ajudo todo mundo, dou entrevistas, estou na TV todo dia, continuo na rua. Eu me considero uma eterna aprendiz.
IMPRENSA - Quais os objetivos que você ainda tem para sua carreira?
Salete - Talvez eu tenha hoje, a curiosidade de saber como é trabalhar no outro lado, por exemplo, na Diretoria de Comunicação das grandes empresas. Saber como é comunicação empresarial multinacional, como é ser diretora de um departamento destes. Acho que é a única coisa que eu gostaria de fazer.
IMPRENSA - Qual, na sua opinião, é o governo mais acessível como fonte, Lula ou FHC?
Salete - Eu não me reporto ao governo em nada, a título de informação. O governo FHC tinha mais competência de fonte. O Ministério da Fazenda, na época do Malan, você tinha ali técnicos brilhantes para conversar, o Banco Central, com o Armínio Fraga, ele próprio era uma fonte de inspiração, uma pessoa extremamente divertida. Hoje, não tem mais isso não. É desnecessário. Não encontro ali nada que alimente o meu conhecimento. Até nas decisões econômicas, eles pouco sabem daquilo que está sendo feito.
Não só o acesso, como a profundidade das análises era muito melhor do governo Fernando Henrique.
IMPRENSA - Você acredita que o Henrique Meirelles seja despreparado para o cargo que ocupa?
Salete - Não. Ele só não compactua daquela parafernália teórica do governo Lula. Ele é uma cara competente, um cara técnico, com ele eu converso, ele é muito acessível e sabe o que está fazendo. Não tem nenhum despreparo. Eu vejo mais como uma incompatibilidade de alvo. Para ele, também é muito difícil gerenciar a política monetária, até a política econômica nessa prática de dia-a-dia de mercado, tendo em vista a falta de relação técnica naqueles ministérios que dizem respeito a questões econômicas. Cada um fala uma língua.






