"Muitos estudantes de jornalismo sequer lêem jornais", afirma Nelson Cadena

"Muitos estudantes de jornalismo sequer lêem jornais", afirma Nelson Cadena

Atualizado em 18/03/2008 às 18:03, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

Por

No último dia 10/03, o jornalista Nelson Varón Cadena estreou como colunista semanal do Portal IMPRENSA. Seus textos terão sempre como tema as curiosidades da história da imprensa brasileira e mundial, baseadas nos estudos de um acervo pessoal, que conta com mais cinco mil revistas e jornais séculos XIX e XX, 15 mil fotografias e 18 mil comerciais.

Além de colunista do Portal, Nelson - colombiano, residente em Salvador - atua no curso de jornalismo na Unibahia e é colaborador regular do jornal Correio da Bahia , revista Propaganda e o neswletter Propmark.

Na seção "Entrevista da Semana", conheça mais sobre o colunista, sua juventude, sua jornada no jornalismo e, até mesmo, os conflitos em seu país de origem. Acompanhe.


IMPRENSA - Por que veio para o Brasil? A língua foi um empecilho em sua carreira como jornalista?
Nelson Cadena -
Vim ao Brasil como hippie, aos19 anos, e com uma mochila nas costas. Durante cinco anos estive fora da sociedade de consumo, inclusive de mídia. Deixei de ler jornais, revistas, de ouvir rádio, ver televisão e mesmo falar ao telefone. Fiquei oito anos sem falar ao telefone. Morei em Arembepe e na Ilha de Itaparica em colônias hippies. Em 1979, me reintegrei.

IMPRENSA - O que o motivou a tomar essa decisão de se isolar do mundo?
Cadena -
Eu queria romper com a sociedade de consumo. Não via muito sentido naquilo.Quando saí da Colômbia, decidi viver com índios pensando que eles não sofriam influências do homem, mas me decepcionei muito. Até fui roubado por eles.

IMPRENSA - Quando e como o jornalismo entrou em sua vida?
Cadena -
Comecei a escrever em 1979, colaborando para jornais de Salvador (BA). Em apenas um ano já tinha produzido mais de 50 reportagens com temas relacionados à ecologia e história da Bahia. Mais tarde passei a escrever regularmente sobre propaganda e marketing. Em 1982, fui convidado para colaborar na revista Propaganda da Editora Referência e ainda para o caderno "Asteriscos" do Diário Popular de São Paulo. Até hoje escrevo para a revista aqui referida. Trabalhei apenas no jornal A Tarde de Salvador: 13 anos como gerente de marketing. A partir de 1991, abri uma empresa de organização de eventos.

IMPRENSA - Sabe-se que o senhor possui uma vasta coleção de revistas e documentos de grande importância para o jornalismo nacional. Como juntou tantas obras de tamanho valor?
Cadena -
Em 1980 decidi escrever a História da Imprensa no Brasil, um projeto ainda não realizado. Desde então fui juntando tudo que imaginava um dia me seria útil: recortes de jornais sobre a imprensa, livros, jornais, revistas, fotografias, etc. Quando percebi, tinha um acervo razoável com mais de mil livros sobre o assunto, muitos esgotados e me tornei por acaso colecionador de revistas antigas.

IMPRENSA - Este tipo de acervo muito interessa, principalmente, às universidades. Em caso de oferta, você venderia este material?

Cadena - Nunca pensei nisso, nem em ter essa coleção. Tudo foi acontecendo, quando eu vi já tinha um material bom.

IMPRENSA - Falando sobre sua terra natal, a Colômbia, você vê saída para os conflitos gerados pelas Farcs e o que você acha da "interferência" do presidente venezuelano Hugo Chávez nas negociações?
Cadena -
Não vejo saída sem uma ampla negociação (que já foi tentada no passado) com deposição de armas e anistia. Tudo isso após a morte de Tirofigo, (líder das Farc há mais de 40 anos) que nunca quis a paz para não perder as mordomias (caminhonetes Cherokee, laptops, muito dinheiro em caixa e dezenas de empregados a seu serviço, conforme vi num documentário francês) e o poder. Nenhum acordo é interessante para quem chegou a esse estágio de liderança nessas condições.

IMPRENSA - Voltando à formação profissional, por que resolveu se graduar em jornalismo?
Cadena -
Para legitimar o que venho fazendo há quase 30 anos. Só nos jornais baianos já escrevi mais de 1.500 artigos ou reportagens. No newsletter Propmark (antes denominado Propaganda & Marketing) de São Paulo, devo ter escrito em torno de 1.000. Na Revista Propaganda , em torno de 200.

IMPRENSA - Você acredita que para ser jornalista é preciso de um diploma?
Cadena -
Não. As universidades precisam se reformular. E, principalmente, o processo seletivo. Por exemplo: dos meus colegas, 80% não serão jornalistas. Tem gente que está lá sem ter noção do que está fazendo. A maioria nem lê o jornal diário, e para ser jornalista o sujeito precisa ler muito, escrever diariamente; ser viciado em jornalismo e sedento por informação.

Acho que o jornalismo deveria ser uma matéria de pós-graduação. Como acontece nos EUA, por exemplo. O sujeito se forma em medicina e depois se especializa em jornalismo para aprender as técnicas.