Muitas escolhas

Muitas escolhas

Atualizado em 09/05/2008 às 16:05, por Annie Müller.

Foram dois momentos. O primeiro, aconteceu quando assisti ao filme Idiocracy, uma sátira de como ficaria o mundo caso a ignorância, a estupidez e a idiotice imperassem. Um mundo de burros e de lixos tombados. O filme pouco faz rir nem surpreende, mas vale por exagerar uma realidade possível de outra forma.

O segundo momento foi durante um jantar:
- Annie, você não acha que a nova geração está emburrecendo, está menos compromissada e mais passiva?

Na hora, eu não soube o que responder. Mas, como meia italiana, não me contive. Abri a boca e gesticulei com as mãos:

- Sim, é uma tristeza, estamos todos entregues ao comodismo, aos sonhos medíocres. Eu queria ser da tua época, quando os jovens invadiam as ruas!

Depois, concluí que havia sido generalista. E que esta é uma premissa da ignorância, embora eu generalize com freqüência. Bem, na verdade, não estamos fadados à burrice. Mas quase. Até a minoria se tornar a maioria. Alguém pode provar esses números? Ainda não. É só um sonho - ou, melhor, pesadelo - levantado pelo filme.

Uma coisa é certa: o mundo já produz os reflexos da multiplicidade de mídias, de tecnologias, marcas da evolução. E, embora essa nova dimensão de mundo aberto proporcione uma vasta gama de opções, também gera anseios, dúvidas e, às vezes, nos faz inativos. Por onde começar, qual escolher? Acredito que seja a palavra escolha nossa maior amiga e inimiga. Ouve-se sempre que quando fazemos uma escolha, automaticamente excluímos outra. Hoje, porém, existe um aumento significativo no número de escolhas disponíveis e, assim, também no número de escolhas descartadas. E esta postura de inércia deve, até, ser vista como característica dos novos tempos. Só não podemos torná-la uma "tendência", termo tão massificado. É como um jovem na fase do pré-vestibular: são tantos cursos que não sabe qual fazer. Pense, analise, escolha. Só não fuja da responsabilidade por causa do medo de errar.

Diante a infinidade de opções, escolhamos várias. Muitas, até. É a velha história: se tivermos uma cesta com um só ovo e ele cair, perdemos tudo. Já, se carregarmos uma cesta repleta deles, vários podem quebrar, mas teremos outros que nos salvarão. Não podemos nos imobilizar, mas agir com mais força, mais fôlego. Li a matéria com uma poderosa executiva norte-americana: precisamos de jovens mais ferozes pelo trabalho, ela disse. Eu agrego: precisamos ser mais ferozes pela vida.

Formamos nossa opinião enquanto as de outros são também formadas. E, como aconteceu na criação do mundo, foram momentos diferentes, mas paralelos que nos trouxeram até aqui. Agora, somente as nossas mãos para remodelá-lo. Somente nossas escolhas. Não deixemos a Idiocracy se estabelecer. Vamos ler mais e assistir menos tevê, aumentando o índice de leitura! Vamos atingir graus maiores nas provas escolares e, consequentemente, elevar o nível de ensino das nossas universidades, além de aumentar o salário dos nossos professores.

Assim, não teremos novas pessoas nos perguntando se estamos mais inativos do que elas foram. Responderemos antes da pergunta ser feita, com o nosso próprio exemplo.