Mudança de hábito - por Fernanda Melo/Univale

Mudança de hábito - por Fernanda Melo/Univale

Atualizado em 22/11/2004 às 15:11, por Fernanda Melo e  estudante do 5º período de Jornalismo da Universidade Vale do Rio Doce.

Por Nova pagina 1


Com alterações simples nas ações do dia-a-dia, como fechar a torneira ao escovar os dentes e usar o balde na hora de lavar o carro, moradores da Região da Ibituruna atentaram para a importância da água e passaram a utilizá-la de forma racional.

"Quando eu mudei para cá, era tudo cheio de árvores. A gente via minar água das nascentes no Pico da Ibituruna. Hoje, tudo está sendo destruído. Sem a natureza não existe nada, nem mesmo a gente". Com muito saudosismo, mas sem perder a esperança, o alfaiate Geraldo Pereira Pinto, 63 anos, que mora no bairro Vila Isa há 47 anos, lembra dos bons e velhos tempos em que Governador Valadares tinha o meio ambiente preservado. Época essa que não havia muitas fábricas e gente morando à beira do Rio Doce. Geraldo conta que a água que minava do córrego Cardoso, localizado no bairro Vila Isa, era transparente. "Muita gente tomava banho no córrego, usava a água para lavar vasilha e até mesmo beber, sem precisar filtrar e nem ferver".
Esses são tempos bons que podem voltar algum dia. E se depender dos moradores da Região da Ibituruna, um dia essa saudade pertencerá apenas ao passado. Numa iniciativa da sociedade civil organizada através da Igreja Católica, moradores da Região da Ibituruna e de todo o Brasil discutiram e planejaram ações concretas e de conscientização para a preservação de um grande bem: a água. Esta iniciativa de se organizarem e colocarem o futuro dos recursos hídricos em pauta aconteceu através da Campanha da Fraternidade 2004 (CF-2004), que tem como tema "Fraternidade e Água" e como lema "Água, fonte de vida".
Os participantes sugeriram ações concretas e botaram a mão na massa, ou melhor, na torneira. As atividades para racionalizar o uso da água e conscientizar os demais foram as mais diversas. A criatividade andou à solta para a elaboração de apresentações teatrais, palestras, caminhadas em prol das nascentes e protestos contra as empresas e demais instituições que agridem o meio ambiente. Nas reuniões, os participantes discutiram a situação da água, a política das águas, a importância da água para as plantas e os homens e maneiras para acabar com o desperdício.

Conscientização

As paróquias de Nossa Senhora de Fátima e São Raimundo não possuem dados referentes ao número de pessoas envolvidas na campanha, mas através do depoimento dos participantes, nota-se que o trabalho surtiu bastante efeito. As pessoas relatam as mudanças de pensamento e comportamento em relação à importância e ao uso da água tomadas por um sentimento de satisfação e alegria, em poder contribuir com a sua cidade num ato de cidadania.
Na casa da coordenadora do movimento de Círculos Bíblicos, Kelen Aparecida Silva Lopes, 28 anos, a preocupação com cada gotinha foi levada a sério. Até o filho de Kelen de 5 anos, Daniel Silva Magalhães, aprendeu a importância da água. "O Daniel participou comigo das reuniões na igreja. Quando ele vê o pai fazendo barba com a torneira aberta, logo pede para fechar, explicando que está jogando água fora". Kelen, hoje, lava menos a calçada. "Não varria antes e lavava três vezes por semana. Hoje, sei que apenas uma vez é o suficiente". Daniel não imagina que o pai está fazendo uma economia de quase 80 litros, mas sabe que ali se encontra o desperdício e esse tem de ser fechado, assim como a torneira.
Outra que mudou sua rotina de limpeza a partir dos ensinamentos da CF-2004 foi a vendedora Nilza Pereira Fonseca, 45 anos. Ela percebeu que racionalizar o uso da água não é deixar de usá-la, e sim fazer uso apenas do necessário. "Água no carro e jardim, agora só uma vez por semana. Depois disso, percebi que o resultado foi o mesmo, a não ser na conta que diminuiu 50%".
Outra dona de casa que administra e fiscaliza rigorosamente o consumo é a coordenadora da Pastoral da Criança Maria de Fátima Lima Cardoso, 45 anos. Em sua casa a água usada na máquina de lavar roupa ganhou uma nova função. Agora, é com essa água que a escada é lavada. "Tudo que posso fazer para reutilizar a água eu faço. Antes, lavava a escada com a mangueira. Me atentei que a água que ia pelo ralo do tanque poderia ser reutilizada". Fátima, assim como várias outras participantes da CF-2004, não usa mais o "limpa alumínio", produto utilizado para dar brilho nas vasilhas de alumínio, pois descobriu que é um produto altamente corrosivo. "Numa reunião na igreja uma colega nos avisou que este produto não era bom, pois é um produto químico e prejudica o meio ambiente. Desde então, paramos de usar".
Maria de Fátima indigna-se com a idéia de algumas pessoas em achar que a água do rio nunca vai acabar. Para ela, esse tema sempre deveria estar em pauta. "Todos os meios de comunicação deveriam discutir a questão da água, pois assim conseguiríamos conscientizar muito mais pessoas". Fátima acredita que uma das formas para solucionar o problema do desperdício da água é através da conscientização. Nilza também atenta para o egoísmo das pessoas que não levam a sério a questão da água e não pensam nas próximas gerações. "As pessoas ainda são ignorantes. Se tiver água para eles, já está bom. Não pensam nos netos e bisnetos que virão".
Quem já sofreu na pele a falta de água potável em casa, sabe muito bem a necessidade de economizá-la. Quando morava em Natal, no Rio Grande do Norte, a coordenadora do Grupo de Reflexão, Francisca Salvelina Rodrigues Clementina, 54 anos, aprendeu a dar valor a esse bem que para ela é tão precioso. "Com a realidade do Nordeste aprendi a economizar. Quando vim para cá e vi essa fartura, fiquei contente, mas não esbanjei. Continuo economizando até hoje". Para Francisca, um ponto que merece atenção é a questão das barragens. "A gente pode não conseguir vetar as barragens, mas, pelo menos, tentar fazer com que elas sejam construídas de uma forma ecológica". Francisca se preocupa com a devastação das matas e rios em função do capitalismo voraz almejado pelas empresas. "Na igreja discutimos a questão da privatização das águas. Se isso acontecer será horrível, pois vai encarecer muito para o consumidor e nem todos têm dinheiro para pagar". Francisca discorda desta idéia, pois todos devem ter o direito a este bem. "O art. 30 da Declaração dos Direitos do Homem diz que a água é um dos direitos fundamentais do ser humano. Desta forma, ela não pode pertencer a ninguém, pois é de todos", conclui.
A informação ao ser passada adiante gera conhecimento e este é o principal passo para a conscientização. As pessoas que participaram da CF-2004 ao transmitirem os ensinamentos, criam mecanismos para que mais e mais pessoas reflitam sobre a necessidade de preservação e respeito ao meio ambiente, para que, assim, tenha-se um lugar mais aprazível e com água em abundância para se viver.

Afirmação de que a água acabará é alarde

O químico industrial e diretor de Departamento de Água do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Governador Valadares, Reinaldo Pacini, 47 anos, não confirma as profecias de que a água irá acabar. Ele explica que pelo fato da água obedecer a um ciclo, ela é infinitamente retornável à natureza. "A água não vai acabar porque ela participa de um processo cíclico. Sua quantidade pode até diminuir, mas ela volta". O ciclo da água acontece da seguinte forma: a água dos rios, oceanos e lagos evapora com o calor e se acumula nas nuvens. Quando as nuvens estão carregadas, elas liberam a água na terra. Essa água retorna para os mesmos locais de onde saiu. E o ciclo se reinicia.
Entretanto, Pacini analisa que se as pessoas e as empresas não atentarem para a preservação do meio ambiente, a tendência é que a qualidade da água seja cada vez mais baixa. Isso exigirá o uso freqüente de produtos químicos no tratamento, acarretando assim o repasse desse gasto para o consumidor. "Em função do descaso das empresas, dos agropecuaristas e da própria população ao despejar lixo e dejetos nos rios e nascentes, a solução é adicionar cada vez mais produtos químicos no tratamento da água. E isso não seria o ideal, mas seria a saída momentânea", afirma o diretor.

Aprendizado para a vida e para a cidadania

Para economizar e se conscientizar não importa o tamanho, muito menos a idade. Pode ser criança, jovem, adulto e até mesmo os mais velhos. Isso é o que mostra o trabalho desenvolvido no Colégio Ibituruna. Todos os anos os professores utilizam o tema da Campanha da Fraternidade para convocar os estudantes a refletirem sobre as questões que interferem em suas vidas e na de muita gente. Neste ano, desde as crianças da Educação Infantil até os adolescentes do 3º ano do Ensino Médio, trabalharam a questão da importância da água. Segundo a supervisora-pedagógica da instituição, Maria Beatriz do Valle Coelho Lopes, 34 anos, os estudantes e os adolescentes passaram a pensar na água com mais responsabilidade e respeito. "Pelos relatos percebe-se a conscientização. Em casa, os alunos vigiam os pais. Na escola, atentam para vazamentos e tudo que caracteriza desperdício", explica a coordenadora.
Diversas oficinas e manifestações artísticas foram trabalhadas pelos alunos para expressarem a necessidade de preservar o meio ambiente, garantindo, assim, o despertar da conscientização e educação para a cidadania dos alunos.
As professoras de Educação Infantil Bárbara Natal Menezes, 28 anos, e Millena Mendes, 24 anos, trabalharam em conjunto para desenvolver atividades que prendessem a atenção das crianças. "Transformamos a parede da sala em um oceano com várias espécies de peixes e mostramos a eles quantos seres vivos precisam da água para sua sobrevivência, assim como cada um de nós", explica Bárbara. A professora afirma que também aprendeu muito com o trabalho. "Depois do meu primeiro projeto de meio ambiente com as crianças me conscientizei muito mais".
Pedro Carvalhaes, 4 anos, colocou a imaginação para funcionar. Com um aspirador de pó, canos, lanternas, uma caixa de papelão e muita criatividade, ele e os outros coleguinhas da sala criaram uma máquina despoluidora, que tem como função retirar o lixo despejado nos rios, mares e lagos. "Com a máquina, sugamos o lixo do rio e reciclamos", explica com atenção a pequena Lívia Carvalho Murta Monteiro, 4 anos.
Millena ressalta a importância de trabalhar essa e outras questões com os "baixinhos", pois desta forma eles vão se tornando verdadeiros cidadãos. Ela explica que para eles os ensinamentos são para a vida toda. "Os adultos não aceitam de bom grado as mudanças de hábitos. As crianças aprendem e praticam os ensinamentos, por isso é mais fácil lidar com elas".

Projetos visam preservação e recuperação do meio ambiente

A esfera municipal, juntamente com as esferas estadual e governamental, também está atenta à preservação e elaboração de ações que tenham como finalidade o cuidado com o meio ambiente. Os focos destes trabalhos são distintos, mas o objetivo é único: convocar todos para se unirem em prol da preservação do meio ambiente e conscientização dos que utilizam os recursos hídricos.

Comitê

Formada por 282 municípios dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a Bacia do Rio Doce em quatro anos pode ter o seu comitê consolidado. O objetivo do Comitê da Bacia do Rio Doce é gerir, cobrar, fiscalizar e autuar os usuários que captam água dos rios formados pela bacia. O que for arrecadado pelos captadores servirá para manter o Comitê e investir na recuperação ambiental ao longo da bacia. O Comitê já está formado, com os conselheiros e a agência que identificará todos os usuários ao longo da bacia.

Nascentes

Para preservar as nascentes do município de Governador Valadares, a Prefeitura Municipal desenvolve o "Projeto de Recuperação das Nascentes", que segue uma linha de trabalho visando a participação dos próprios produtores rurais. De início serão recuperadas 50 nascentes, cada uma com um custo de R$ 2.650. A verba para a recuperação, cedida pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, já está na conta do município. O trabalho deste projeto consiste em cercar com arame a nascente num raio de 50 metros e fazer o replantio da área de recarga, que é o topo de morro que encobre a área onde a nascente está situada. Para facilitar o trabalho, o setor rural foi dividido em quatro áreas estratégicas. Cada área vai possuir viveiros comunitários cedidos pela prefeitura através de recursos do Ministério do Desenvolvimento Social.

Desenvolvimento sustentável

Seguindo a linha de participação popular, a Agenda 21 Local, formada por 38 instituições, governamentais e não-governamentais, procura garantir o desenvolvimento sustentável na região. Este trabalho é uma extensão da Agenda 21 Brasileira, desenvolvida na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro no ano de 1992, que ficou conhecida como Eco-92. A população foi convocada a participar porque são os próprios moradores que têm noção das necessidades do seu espaço. Na primeira etapa da Agenda 21, os moradores participaram da "Oficina do Futuro, onde fizeram um levantamento dos problemas do seu espaço e em seguida imaginaram como eles gostariam que aquele local fosse daqui a alguns anos. Feito esta parte, a equipe da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) elaborou o "Plano de Ação", que consiste em traçar os problemas com características de desenvolvimento sustentável e apontar possíveis soluções.

15 dicas para esbanjar economia:

1. Lave o carro utilizando um balde no lugar da mangueira. Em 30 minutos de torneira aberta vão-se embora 560 litros, com o balde apenas 40 litros.
2. Mantenha a torneira fechada enquanto escova os dentes. Você fará uma economia média de 50 litros de água.
3. Mangueira não é vassoura. Prefira varrer a calçada a lavá-la com a mangueira. O ideal é usar a água do tanque ou da máquina de lavar para jogar na calçada.
4. Os vasos sanitários consomem 50% do consumo doméstico. Regule as válvulas de descarga dos banheiros e evite dar descargas prolongadas.
5. Durante o banho procure fechar o chuveiro na hora de se ensaboar e lavar a cabeça. Assim, de 240 litros, você gastará apenas 80 litros.
6. Na hora de lavar a louça retire os restos de alimentos dos pratos e panelas, coloque água numa vasilha grande com detergente para ensaboar. Depois enxágüe a louça. Desta forma você gastará apenas 20 litros ao invés de 243.
7. Faça um coletor de água da chuva e use a água coletada para lavar calçadas, regar jardins e outras atividades que não exijam água tratada.
8. Faça uma revisão periódica em sua instalação hidráulica, verifique se há rachaduras e vazamentos nos canos. Uma torneira gotejando chega a um desperdício de 46 litros por dia. Por mês são 1.380 litros.
9. Informe o poder público caso note algum vazamento na rua, em hidrantes, canos, caixas d água, etc.
10. No jardim use regador no lugar da mangueira. Tente não usar água potável. É melhor regar ao entardecer, assim a terra absorverá a água e não haverá muita evaporação. Ao escovar os dentes, molhe a escova, feche a torneira enquanto escova e use um copo para enxaguar a boca. Dessa forma você gastará apenas 1litro de água, ao invés de 80 litros.
11. Na hora de lavar o rosto e as mãos tampe a pia e utilize a água retida como um lavatório. Você deixará de jogar fora 16 litros d água.
12. Na hora de fazer a barba gaste apenas dois litros ao invés de 80. Como? Tampando a pia e reutilizando a água retida.
13. Use a máquina de lavar com capacidade máxima. Com isso você estará economizando água e energia. Tente não exagerar no sabão para não precisar de muitos enxágües.
14. Na hora de lavar os alimentos deixe a torneira fechada e lave frutas e legumes numa vasilha com água e vinagre. Depois passe-as na água corrente para terminar de limpá-las.

Fontes: AreaSeg.com, Corsan, ADOC, Casal, Sabesp, Ecoambiental, Cagece, Idec, Saae.