Mudança de CEP

Mudança de CEP

Atualizado em 02/12/2010 às 15:12, por Redação Revista Imprensa.



Da Redação da revista IMPRENSA

Em dezembro de 2002, convidamos personalidades de diversas áreas para escreverem uma carta de boas-vindas ao presidente então recém-eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, oito anos depois, voltamos a convidá-los para uma carta de despedida às vésperas de sua saída do Palácio do Planalto. Os remetentes retornaram ao teclado para relembrar momentos marcantes de Lula na Presidência, tecer críticas sobre pontos da administração que deixaram a desejar e fazer considerações a sua sucessora, Dilma Rousseff. As cartas atuais estão publicadas na edição de dezembro da revista IMPRENSA (edição 263, pág. 32). Para comparar, também as republicamos aqui, assim como a respectiva carta publicada em janeiro de 2003.

Você também pode participar enviando sua própria carta. Escreva para o e-mail cartasaolula@portalimprensa.com.br - além de publicá-las no Portal IMPRENSA a partir de janeiro, encaminharemos uma a uma ao ex-presidente.

Cartas ao presidente - 2002

Cartas ao presidente - 2010




Glauco Mattoso [2002]

SONETO 582 RECADO

Prezado Presidente: Quem lhe escreve
é cego e literato, caso inverso
do povo analfabeto que, disperso,
quis vê-lo lá pra já. Mas serei breve .

Também me revoltei, quase fiz greve
de fome, mas não roubo nem malverso.
Enquanto escuto os outros, faço verso
e creio que o senhor algo lhes deve .

O gringo é quem nos deve! Não lhe pague!
Resgate a real dívida, faminta,
interna, já que a externa é blefe e blague!

Se o banco protestar, deixe que sinta
no bolso o que é perder mais um Gulag!
Prometa-lhe que um dia paga! Minta!

Glauco Mattoso é escritor, poeta, roteirista de cinema. E cego.

Luiz Mott [2002]

Carta do Grupo Gay da Bahia ao Presidente Lula

Estimado Presidente Lula,

Nós, homossexuais, representamos 10% da população. Mais de 17 milhões de brasileiros que ainda vivem com medo, escondidos dentro da gaveta. Diferentemente das demais minorias sociais, que recebem da própria família apoio e reforço de sua auto-estima, nós, gays, lésbicas, travestis e transexuais, somos insultados, agredidos, expulsos de casa. Na televisão, na rua, nas escolas, nos quartéis, nas igrejas, de norte a sul do Brasil, predomina o preconceito e a discriminação anti-homossexual, ocupando nosso país a vergonhosa condição de campeão mundial de assassinatos de homossexuais. A cada dois dias, um gay brasileiro é barbaramente trucidado, vítima da homofobia, o ódio contra os homossexuais.

Este quadro triste e aterrador tem de ser imediatamente mudado. Nós, homossexuais, também somos gente e os direitos humanos não podem excluir brasileiro algum. Direitos sexuais também são direitos humanos! Assim sendo, neste momento histórico em que a esperança tomou conta de todos os brasileiros e que todos queremos mudar o Brasil para melhor, nós, homossexuais, exigimos somente uma coisa: igualdade! Não queremos mais nem menos: queremos ser tratados como cidadãos plenos, com idênticos direitos e deveres aos dos demais brasileiros. Que seja prioridade absoluta do Governo Lula enfrentar a discriminação anti-homossexual com o mesmo rigor que devemos combater o crime racial: racismo sexual também deve ser crime inafiançável! Por que não? Queremos que os assassinos de homossexuais sejam presos e processados com todo o rigor da lei, já que a impunidade vem estimulando novos homicídios. Exigimos a criação de uma Secretaria ou Fundação Governamental do mesmo molde das que já existem voltadas para a promoção da cidadania de negros, mulheres e índios. Reivindicamos que sejam instalados cursos de educação sexual em todos os níveis escolares, onde se ensine a verdade científica sobre a homossexualidade: que ser homossexual não é crime, doença, nem pecado. Só assim faremos com que este novo Brasil, que lutamos tanto para fundar, seja de fato a mãe gentil para todos seus filhos, inclusive para os homossexuais.

Luiz Mott é professor titular de antropologia da Universidade Federal da Bahia, Fundador do Grupo Gay da Bahia e Membro do Conselho Nacional

Luciana Garbin [2002]

De Combate à Discriminação

Caro presidente,

Como jornalista, eu provavelmente vou poder encontrá-lo algumas vezes. Pode ser nos plantões em frente do seu prédio, em São Bernardo do Campo, ou nas tradicionais coletivas. Mas dificilmente terei tempo nessas ocasiões de lhe contar sobre a história da Maria Edileusa. Por isso, aproveito esta carta para resumi-la em poucos parágrafos. Maria Edileusa é uma mulher que conheci ao fazer uma reportagem sobre trabalho infantil e cujo maior sonho, que ela não cansa de repetir, é ser ouvida pelo presidente da República. Quando o senhor venceu as eleições, ela ficou feliz, não só por admirar sua história, como também por apostar que o senhor escutará mais o povo do que seus antecessores. Ela queria lhe contar que nasceu no Ceará e vive em São Paulo há 15 anos. Trabalha puxando carroça com papelão, ferro-velho e latinha de alumínio na periferia da zona leste e é mãe de quatro filhos - de 10, 8, 7 e 3 anos de idade. Analfabeta, fatura R$ 20 por semana com a ajuda dos meninos. Dia sim, dia não, toda a família acorda cedo para pegar o lixo das casas antes que passe o caminhão da prefeitura. A todos que conhece, Maria Edileusa se apressa em contar que não explora os filhos. Apenas luta para que eles aprendam sua profissão e tenham como se virar em caso de necessidade maior. Porque o futuro, ela diz, pode ser ainda mais difícil do que foi até agora.

Apesar de seus filhos estarem na escola, ela sabe que eles vão precisar se esforçar muito para competirem com outras crianças da mesma idade que estudaram em colégios caros e nunca passaram fome ou precisaram trabalhar. Também não tem dúvidas de que eles terão muito mais dificuldade para arrumar um bom emprego, fazer carreira e subir na vida. Antigamente, Maria Edileusa não escondia o desejo de que os filhos entrassem para a universidade e virassem doutores. Com o tempo, diz que foi ficando mais realista e já se conforma se eles não tiverem de catar papelão a vida inteira e acordarem tão cedo para concorrer com o caminhão de lixo. Sua história, presidente, fez com que as esperanças da catadora de papelão num futuro diferente ganhassem força. E é da principal delas que me faço porta-voz: a de que crianças e adolescentes brasileiros tenham oportunidades de desenvolvimento iguais, independentemente da classe social em que nasceram. Eu sei que pode soar óbvio para uma pessoa como o senhor, que já conhece todo o Brasil e descobriu há muito tempo que cinco séculos de história não foram suficientes para criarmos um projeto de nação socialmente justo, mas corno esse desejo é não só de Maria Edileusa como também de milhões de brasileiros, acho que nunca é demais lembrá-lo.

Atenciosamente,

Luciana Garbin

Repórter de "Cidades" do jornal O Estado de S. Paulo

Lurian Silva [2002]

Exmo. Sr Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Primeiramente não posso esconder o orgulho ao escrever esta carta! Acho que a revista IMPRENSA resolveu fazer isto para testar minha imparcialidade, mas hoje, não só sinto muito orgulho de ser sua filha, como também sinto muito orgulho em ser brasileira, e ser governada por um "Silva". Aliás, um não, dois, porque não podemos esquecer de que o vice-presidente José de Alencar é um dos nossos tradicionais "Silvas". Como você mesmo disse hoje, em tom emocionado no seu discurso de diplomação, que durante tantas vezes foi acusado de não ter um diploma superior, ganhou o seu primeiro diploma, o diploma de presidente da República . A cada momento em que ouvimos chamá-lo de EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA, é como se tratasse de nós, humildes brasileiros, que há tantos anos vivemos à mercê da elite brasileira. Isso é um sentimento não de filha coruja, mas de uma brasileira com esperança, a mesma esperança que venceu o medo no dia 27 de outubro de 2002! Sei e acredito que muitas coisas vão mudar no seu governo, não em curto prazo. Mas boa vontade e credibilidade somadas à colaboração da sociedade é um ótimo começo. Imagino que o senhor e sua equipe tenham recebido dezenas de pedidos, propostas, reivindicações, pois assim como em futebol todo mundo é técnico, na política todo brasileiro acredita saber o que deve ser feito para melhorar o país. Não tenho o que reivindicar, mas gostaria muito de poder contribuir com o seu governo, e queria sugerir que fosse formada uma comissão para avaliar a questão salarial dos jornalistas no país. Em muitos estados, o salário está completamente defasado, como é o caso de Santa Catarina, onde o piso está em R$730,00, sendo que o valor do curso é pouca coisa inferior a São Paulo. Infelizmente os sindicatos estaduais não têm a autonomia de levar esta discussão ao Congresso Nacional sozinhos, seria necessária uma intervenção da Fenaj, pesquisando o custo dos cursos de jornalismo em todo o país e elaborando um piso salarial proporcional por regiões. Do mais, meu querido EXCELENTÍSSIMO COMPANHEIRO PAI SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA (Ufa!), o que te desejo é muita boa sorte, saúde, paz, persistência e sabedoria para comandar o nosso Brasil!

Lurian Silva

Jornalista, assessora de imprensa do PT em Blumenau (SC) e filha de Luiz Inácio Lula da Silva

Marcelo Tas [2002]

Querido Lula ,

Lembro muito bem da primeira vez que te vi ao vivo. Eu estava travestido de Ernesto Varela, o repórter ficcional que inventei junto com o Fernando Meirelles, ele mesmo, o diretor de " Cidade de Deus", que era o meu câmera naquela tarde bonita de sol. Você estava de camiseta e barba preta espessa. Todos nós estávamos entusiasmados naqueles momentos que antecediam o primeiro comício pelas Eleições Diretas, em frente ao estádio do Pacaembu. Uma rápida consulta na internet e aqui está: era o dia 27 de Novembro de 1983! Te encontrei bem na frente de uma barraquinha do PC do B, que vendia livros, bottons e churrasquinho-de-gato. Peguei o microfone e mandei a pergunta de sopetão: é verdade que vocês comunistas comem criancinhas? Você e os "companheiros" em volta riram nervosos. A situação era constrangedora, mas divertida para todos. Ninguém ali estava acostumado a dar entrevista pra televisão. Nós tampouco sabíamos mexer direito nos botõezinhos da nossa nova câmera, uma Ikegami alaranjada que tinha acabado de chegar do Japão. Éramos um bando de moleques fundadores de uma das primeiras produtoras independentes de TV do país, a Olhar Eletrônico. Você e seus companheiros queriam mudar o Brasil. Nós, muito mais pretensiosos, queríamos revolucionar a TV e o cinema mundial. Já pensou se, naquele instante, iluminado por uma bola de cristal, eu contasse tudo que iria acontecer com você? Assim: "Lula, sinto muito, você está aí todo empolgado, mas só vai conseguir ser presidente do Brasil daqui a 20 anos, em 2003. Com a ajuda do marketeiro do Maluf e o seu vice vai ser um empresário super rico do Partido Liberal mineiro. Ah, e entre as principais figuras da sua futura equipe de governo vai estar um diretor da Fiesp e um mega executivo de um banco norte-americano eleito deputado federal por um partido neoliberal". Com certeza eu seria cremado ali mesmo, dentro da grelha do churrasquinho-de-gato pelos seus "companheiros". Mas o melhor da história é ver que você e cada um de nós ali naquela roda mudamos muito pouco. A diferença é que agora você é o Presidente da República. E nós, apesar de alguns acertos, ainda vamos ter que passar por algumas reencarnações para completar a revolução da TV e do cinema mundial.

Lula, o ano passado eu disse aqui nesta revista que achava o Fernando Henrique o melhor presidente da História do Brasil. Fui muito criticado, mas continuo achando. Só que agora, sinceramente, do fundo do meu coração, desejo que daqui a quatro anos eu seja obrigado a mudar de idéia e colocar você na pole-position. Você é uma prova viva da qualidade, alegria e perseverança do povo brasileiro. Cuidado com os banqueiros e os velhos coronéis da política. Deus te abençoe e boa sorte.

Marcelo Tas

Apresentador do programa "Vitrine", da TV Cultura de São Paulo.

Pasquale Cipro Neto [2002]

Meu caro Lula,

Não vou chamá-lo de "Excelência". Não foi com essa formalidade que nos tratamos nas vezes em que conversamos. Quando nos vimos, por exemplo, no saguão do aeroporto de Porto Alegre, antes de uma viagem que fizemos juntos para São Paulo, ou quando nos encontramos e nos abraçamos no velório de Celso Daniel, chamamo-nos pelo nome. Fui professor de Lurian, sua querida filha. Todos os seus filhos estudam ou estudaram no Singular-Anglo, escola em que trabalho desde 1978. Desde a fundação do Partido dos Trabalhadores, compareço aos comícios (apresentei um deles ao seu lado, lembra?) e emociono-me ao ouvir seus discursos. Desde a fundação do PT, caro Lula, empenho-me em dessatanizá-Io, a começar pelos preconceitos de que você ainda é vítima. Desde sempre, digo aos quatro ventos que é uma grande barbaridade afirmar que você é analfabeto, como dizem muitos infelizes deste país. Como pode ser "analfabeto" um homem que encanta milhares de pessoas com sua oratória? Como pode ser "analfabeto" um homem que discute a vida brasileira com qualquer interlocutor e em qualquer situação? Como?

Posto isso, caro Lula, vamos ao que interessa. Vou deixar de lado as obviedades, isto é, não vou falar de saúde, educação, moradia etc. Como sei que não me dirijo a um deslumbrado, mas a alguém que sabe quanto custa manter-se vivo neste país ainda infame, a alguém que sabe que é preciso "fazer desta vergonha uma nação", como diz Caetano Veloso na genial "Vamo Cumê", vou falar de algo de que você entende bem, porque já o viveu e o continuará vivendo (espero): o cotidiano brasileiro, caos absoluto, verdadeiro inferno, produzido pela nossa mais próspera indústria, a das máfias.

Tente usar o transporte coletivo em cidades como São Paulo ou Rio, por exemplo, caro Lula. É preciso lutar contra a máfia dos perueiros, que enfrenta a máfia dos donos de ônibus "legalizados" (serviço de oitavo mundo), mancomunada com a máfia dos fiscais municipais, mancomunada com a máfia dos... Tente caminhar pelas calçadas de nossas ruas ou andar de carro pelas nossas ruas e estradas, caro Lula. Nosso asfalto não aguenta um temporal. Quando se fecham as crateras, coloca-se nelas asfalto de quinta; quando se faz o recapeamento de ruas e estradas, os buracos aparecem antes mesmo da conclusão do "serviço". É a máfia do asfalto (e seus tentáculos) em ação. Também é preciso tomar cuidado com as imensas caçambas, desprovidas de sinalização, presentes em cada esquina. É a máfia das caçambas, caro Lula. É preciso precaver-se com os radares, cujos donos lucram com as multas aplicadas. É a máfia das multas, dos radares.

Não é possível estacionar o carro em frente a um bar ou restaurante. Há cones ali, postos para garantir as vagas dos freqüentadores. É a máfia dos privatizadores do espaço público, que conta com a benevolência dos fiscais municipais e dos promotores de justiça, que não se indignam com essa barbárie.

Alguém já disse que é nas pequenas coisas - e não nas grandes - que se vê quanto há de democracia num país. Como vê nesse miniexemplário, meu caro Lula, nosso cotidiano é prova viva de que estamos longe da real democracia. Nosso dia-a-dia está impregnado de pequenas ou médias máfias, filhotes das grandes, daquelas de que certamente não é preciso falar, mas que é preciso enfrentar corajosamente, porque, pensando bem, derrubadas essas, abrir-se-ão as portas para a verdadeira democracia, que dá a todo cidadão o direito de morar, de ir à escola, de receber tratamento médico etc. Derrubadas essas máfias, caro Lula, derruba-se a da indústria da ignorância, da subserviência, do cala-a-boca. Derrubadas essas máfias, derruba-se também a que matou Celso Daniel, que, se não foi morto a mando de uma grande máfia que agiria nos intestinos da prefeitura de Santo André, foi morto por bandidos "comuns", produtos diretos do trabalho sintonizado de grandes máfias: a dos policiais corruptos, a dos traficantes, a dos governantes corruptos, a dos magistrados corruptos, a dos militares corruptos, a dos...

É muita máfia, presidente! Aja, por favor! Indigne-se! Não perca contato com a realidade. Continue com os pés no chão, presidente! E que Deus o ilumine e lhe permita fazer um grande governo!

Do fundo do coração e da alma,

Pasquale Cipro Neto

Escritor e professor de língua portuguesa, colunista da Folha de S.Paulo, de O Globo e do Diário do Grande ABC e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa", da TV Cultura de São Paulo.

Raul Wassermann [2002]

Prezado Presidente,

Ao surgir a oportunidade desta carta, tendo comparecido à reunião preparatória do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o instrumento com o qual Vossa Excelência pretende mobilizar a sociedade brasileira para enfrentar nossos problemas, o que logo me ocorreu foram os versos do Arnaldo Antunes: "A gente não quer só comida / A gente quer comida diversão e arte / A gente quer saída para qualquer parte". Sim, Presidente, a fome de comida é absolutamente essencial, mas não é tudo. Como os Titãs, diria que é essencial ter diversão e arte. E acrescentaria: informação e formação. Que, juntas, conformam a equação fundamental para o nosso país: Cidadania. Temos insistido com veemência que o direito ao acesso às informações proporcionadas não apenas pelos livros, mas principalmente por estes, é um componente essencial de qualquer política pública conseqüente . O acesso aos livros é fundamental para uma política de trabalho e emprego, pois possibilita a reciclagem e a atualização profissional. O acesso ao livro é elemento de uma política de saúde, pois o leitor informado tem melhores condições de observar práticas de prevenção de doenças e, portanto, de fazer menos pressão sobre a rede pública. Uma política de acesso ao livro, finalmente, produz cidadãos mais informados e capazes de tomar decisões e ações políticas, econômicas e sociais mais eficazes. Obviamente não se trata aqui de fazer do livro uma panacéia, e sim de ressaltar sua importância como elemento componente de políticas públicas de longo alcance. O livro e a leitura estão presentes em todas as nações desenvolvidas e investimentos em educação foram fator fundamental para os países que mais recentemente se tornaram fortes. É nesse sentido que faz falta, no projeto "Fome Zero", o componente de acesso à informação, através do estabelecimento de bibliotecas de acesso ao público nos mais diferentes lugares de acesso da população que é o alvo do projeto: escolas, creches, postos de saúde, centros comunitários e todo tipo de instalação que seja centro de atuação do "Fome Zero" deveriam ter pequenas bibliotecas e desenvolver ações em torno do livro e da leitura. Afinal, os versos do Arnaldo Antunes não servem apenas para transmitir uma indagação da juventude roqueira. São a expressão de um anseio muito profundo. Para que isso seja realidade, meu caro presidente Lula, duas linhas de ação se fazem essenciais: A primeira, é certo, uma política de bibliotecas públicas e de acesso ao livro e à leitura - ou seja, à informação cidadã - como um componente essencial de uma política de Estado voltada para tornar nosso país uma sociedade mais justa. A segunda é a da aplicação radical do disposto na nossa Constituição, que veda a tributação do livro. Precisamos ter livros mais baratos, e a cascata de impostos escamoteia o que a Constituição prevê como imunidade.

Temos esperança - a esperança que o elegeu e da qual compartimos todos os brasileiros, independente da filiação partidária ou ideológica - de que esses caminhos para a cidadania sejam afirmados e se transformem efetivamente em meta de governo. Afinal, como editores e autores, sempre reafirmamos o dito por Monteiro Lobato, há mais de 50 anos: "Um país se faz com homens e livros".

É o nosso desejo que me faz, esperançoso, subscrever-me. Atenciosamente,

Raul Wassermann

Presidente da Câmara Brasileira do Livro

Tom Zé [2002]

Pra governar um mundo muito menos complexo que o de hoje, Zeus, que tinha poderes do tipo "não se discute", precisou devorar a Astúcia, integrando-a a si mesmo. Imagine os pobres-de-nós, apenas mortais, presidente Lula! Por exemplo: certos assuntos são proibidos. O trem é um deles. Como extensão do transporte coletivo e popular, o trem, na versão apresentada por interesses poderosos, é um sinônimo de atraso e desemprego. E mais: logo de início, o eventual projeto de uma estrada de ferro encontrará um inimigo natural em grandes jornais do País que, industriosamente, de saída, encontrarão rombos, defeitos, roubos. O trem será confundido com o que for possível inventar de ruim. Será o Mal teológico sobre trilhos, apitando na curva. Qual o primeiro governo, caro presidente, a ter a ousadia de falar em trem num pais de 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados como o Brasil? E principalmente mencionar a conjunção desse assunto com o assunto "automóvel"? As fábricas precisam vender milhões de carros por ano - pra botar não se sabe aonde - caso contrário, supremo absurdo, ameaçarão a população com mais desemprego.

E os 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados clamando como o braço de um argumento lógico e irrefutável! Votos afetuosos : meus votos de astúcia mastigável e antiácida para seu governo são acompanhados pelo efeito composto de manha e navalhada com que uma canção pode participar de uma página argumentativa.

A VOLTA DO TREM DAS ONZE

O trem das onze
anda tão longe
que pra Iracema
em Jaçanã
a esperança
parece vã.

Lá no comando
retoma as forças
Adoniran
que de cavaquinho
derrota o monstro
Leviatã (breque: de manhã)

Refrão
De ferro e bronze
o trem das onze
voltará
em Jaçanã
Bem de manhã apitará

II
Soja quer andar de trem
milho também
Feijão disse que ninguém
vai ficar sem

Zurique, Roma
Europa forte
é povo rico
de toda sorte
Onde o trem campeia
tudo barateia

Até Las Vegas
o trem carrega
pra Nova Iorque
mas aqui o gringo
tirou o trilho
pra não deixar (breque: trem andar)

NB: Já tenho cantado esta música em shows, entre os estudantes . Parece que estão de acordo.

Com crença forte e um abraço.

Tom Zé

cantor e compositor.

Ana Sacoman [2010]

Caro presidente,

Antes de apagar a luz, passar a faixa e deixar para trás a aridez do Centro-Oeste, gostaria que o senhor conhecesse um brasileiro de origem muito parecida com a sua, homem de grandes sonhos e opinião formada, que melhorou de vida nos últimos oito anos, mas nem pensa em se acomodar. Comodismo, aliás, provoca arrepios em João Eleutério da Silva, que não acredita nem aprova sua maior bandeira de governo. Para ele, "colocar os filhos na escola é dever dos pais" e o Bolsa Família não deveria "premiar" quem faz isso. Ele acha que o maior feito de seu governo foi seguir a política econômica dos antecessores. Por isso, talvez, hoje chegou onde está. Alagoano de Arapiraca, palmeirense doente, pai do João Marcos, do Lucas e da Mariana, João é dono de bar. Juntou economias da vida inteira para comprar o ponto. Quatro anos depois, tem carro zero-quilômetro, "já pago, Graças a Deus", TV de plasma e um dinheiro guardado. Tem, como ele diz, uma "vida independente". Seu maior orgulho é ver os filhos comendo e vestindo melhor do que ele quando criança.

Veio menino para São Paulo e passou dois terços de seus 39 anos atrás de um balcão de bar, sem férias. Trabalha 18 horas por dia, seis dias por semana, vive cansado, mas se diz realizado. Mora de aluguel e um dos seus sonhos é comprar uma casa na zona norte de São Paulo. Outro, veja só presidente, é continuar gerando renda. Quer abrir outro bar e empregar mais seis funcionários, aos quais quer pagar "direitinho, sem atrasos".

Em um de seus muitos "minutos de sabedoria", esse baixinho desconfiado acha que nada vai adiantar se o país não progredir junto, na mesma passada larga dele. João acha que, com o mínimo de oportunidade, como ele teve e agarrou, ninguém fica de bobeira. É por isso que, mesmo sem ter votado na sua sucessora (nem no opositor, se apressa em dizer), acredita nas "boas intenções" do futuro governo. "Vi a história dela (Dilma) na TV e comecei a pensar positivo. Se não for tudo ensaiado, ela pode fazer um bom governo". E ele vai torcer para que isso aconteça. Porque daqui a quatro anos seu filho mais velho vai começar a pensar em faculdade, e João já se prepara para mais um desafio na vida: formar um Eleutério da Silva com terceiro grau completo.

Atenciosamente,

Ana Sacoman é subeditora de "Metrópole" do jornal O Estado de S. Paulo.

Glauco Mattoso [2010]

PREZADO PRESIDENTE [soneto 3836]

Escrevo novamente, ao fim da sua
dobrada permanência no mandato.
Confesso que, na imprensa, fui um chato;

agora, a seu favor, eu saio à rua.

Cobrei, como eleitor, que quem jejua

comesse, e o capital pagasse o pato.

Em verso o critiquei, mas me retrato,

pois, sem você, mais temo a falcatrua.

Você fez muito mais do que eu supunha!

Supera Vargas, Prestes, Juscelino:

um pobre, ou negro, ou cego, é testemunha!

Por isso é que eu "lulista" me defino:

partidos se desgastam, mas quem cunha

a própria efígie, fica, é o seu destino!

Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista.

Luiz Mott [2010]

Lula,

Temos a mesma idade. 1980 foi fundamental para ambos: quando tínhamos 34 anos, você fundou o PT e eu, o Grupo Gay da Bahia (GGB). Estivemos juntos três vezes nos mesmos espaços: em 1981, no palanque de seu primeiro comício na Bahia. Depois em 2007, quando me outorgou a medalha de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, e finalmente na Conferência Nacional LGBT, em 2009, quando você e a primeira dama colocaram o boné do arco-íris na cabeça.

Votei em Lula em todas as eleições, sempre acreditando que iria contribuir decisivamente para tirar o Brasil da vergonhosa condição de campeão mundial de assassinatos de homossexuais. Na carta que lhe enviei, ao iniciar seu primeiro governo, reforcei minha confiança que depositei no seu governo. Nós, homossexuais - hoje referidos como LGBT, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais -, avançaríamos significativamente na conquista do mais elementar: a cidadania plena. Infelizmente, companheiro Lula, você ficará na história como o presidente em cujo mandato mais homossexuais foram assassinados e se infectaram com o vírus da aids. Em 2009 foram executados 198 homossexuais no Brasil, cinco vezes mais que nos EUA, que têm 100 milhões de habitantes a mais. Onze por cento dos gays são soropositivos, contra 0,8% dos homens heterossexuais. Como corajosamente declarou a companheira Marta Suplicy: "A situação piorou para os homossexuais!".

O principal erro de sua política de direitos humanos para os 20 milhões de brasileiros LGBT foi ter planejado muito, proposto demais, sem oferecer condições mínimas de efetivar as centenas de ações afirmativas aprovadas em improdutivas conferências estaduais e nacionais, nos grandiloquentes programas e resoluções que jamais saíram do papel. Tudo não passou de blábláblá para veado dormir, usando o mesmo termo chulo que Vossa Excelência utilizou ao dizer que Pelotas era polo exportador de veados...

Faltou vontade política, senhor presidente! Bastaria pequenina pressão em sua base aliada ao Senado para aprovar ao menos um de uma dezena de projetos pró-cidadania LGBT: o PL 122/2006, que equipara a homofobia ao crime de racismo. Bastava ter cumprido apenas as dez resoluções do Plano Nacional de Direitos Humanos II, em vez das 555 ações afirmativas aprovadas na midiática Conferência Nacional LGBT, e certamente não teria de carregar em sua biografia política esse triste recorde. Nunca na história deste país foram assassinados tantos homossexuais, aumento de um crime homofóbico a cada três dias para um a cada dois, número certamente subnotifcado, já que V. Exª não instituiu sequer um mecanismo nacional de coleta de informações sobre crimes de ódio, conforme previsto no citado e engavetado PHDH2.

Votei nulo por sua causa. Agora sou oposição! e continuarei cobrando ações concretas e imediatas pela cidadania homossexual. Afinal, o povo gay nasceu para ser feliz, não para morrer de aids ou numa poça de sangue.

Luiz Mott é professor titular de antropologia da Universidade Federal da Bahia e decano do Movimento Homossexual Brasileiro.

Lurian Silva [2010]

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, meu mais que amado PAI, Luiz Inácio Lula da Silva,

Em nome de todo o povo brasileiro te agradeço por tudo o que o senhor fez pelo nosso país. Agradeço em nome dos milhares de pessoas que hoje têm comida à mesa e luz elétrica em casa; que conseguiram adquirir seu imóvel graças ao Minha Casa, Minha Vida e o carro zero graças a isenção do IPI. Agradeço pelos milhares de pessoas que hoje estão no mercado de trabalho e pelos nossos jovens que graças ao Pró-UNI frequentam os bancos das universidades deste Brasil. Agradeço também, presidente, por ser o exemplo que é para o mundo. O Obama chegou atrasado: Para mim e para milhares de brasileiros, o senhor sempre foi e será o NOSSO CARA. Ah! Não posso deixar de citar o fim da dívida com o FMI, a Copa de 2014, as Olimpíadas de 2016 e os Jogos do Pan que houve no Rio. A Lei Maria da Penha, o Pró-Jovem, as UPAs e o Pré-Sal. Que descoberta hein presidente? Sabe do que eu mais me orgulho? É que as pessoas que duvidavam de sua competência, inteligência, de seu jogo de cintura, hoje se curvam ao senhor, ao seu governo. A cada tombo seu que desejavam, você reaparecia de cabeça erguida e com a popularidade mais alta.

Falei muito do presidente, agora queria falar um pouco do pai. Agradecer como filha, por não se esquecer da família e, mesmo com esta vida turbulenta, ter tido tempo para acompanhar a chegada do João Gabriel, assim como a do recém-chegado Pedro. Por ter participado de um dos momentos mais importantes das nossas vidas - "nossas", porque vi nos seus olhos a alegria de estar ali, apenas como avô, nos 15 anos da Maria Beatriz. E agradeço do fundo de minha alma pelo exemplo e pela história que deixa para mim e para meus filhos. Te agradeço por me ensinar o que é cidadania, o que é autoestima, o que é dignidade, o que é amor próprio. Te agradeço por me ensinar a chorar, a não esconder emoções - e como eu já chorei com você e por você, por ter me ensinado que um olhar diz muito mais que mil palavras e que todos os seus olhares, mesmo que cansados e mudos, para mim vinham seguidos de um "Eu te amo, filha!" .

Me dói escrever tudo isso, porque é uma despedida de uma filha militante, e o povo brasileiro levou tanto tempo para ter um governo tão popular, que fizesse tanto por ele, mas que durou tão pouco. Tenho certeza de que nas mãos de nossa companheira e agora presidenta eleita, Dilma Rousseff, haverá a continuidade de suas ações. Assim como tenho certeza de que, enquanto bater no coração de cada brasileiro as lições que o senhor deixou e a esperança de um país melhor e justo, este país só vai melhorar. Assim como o povo brasileiro, entendo a necessidade dessa pausa na sua vida para um merecido descanso, mas temos a certeza de que seus olhos e seu coração não nos abandonarão. Até a volta, presidente Lula.

Lurian Silva, jornalista, é secretária municipal de Desenvolvimento Social de São José (SC) e filha de Lula.

Marcelo Tas [2010]

Caro Presidente Lula,

Ao final de 2002, escrevi a Vossa Exª dando-lhe boas-vindas ao cargo de presidente do Brasil. Naquele ano, eu também havia declarado a esta mesma revista IMPRENSA que, até então, Fernando Henrique Cardoso havia sido o melhor Presidente da República do Brasil. E completei: "Desejo do fundo do meu coração que daqui há quatro anos eu seja obrigado a mudar de ideia e colocar você, presidente Lula, na pole-position".

Muito bem, companheiro, oito anos se passaram e agora trago duas notícias: uma boa e outra ruim.

Vou começar pela ruim para que eu possa encerrar essas maltraçadas linhas com algum otimismo, como pede a cultura verde-amarela. No seu governo, o povão, que já comia frango com FHC, passou a comprar televisão de LCD e até automóvel. Notável! Só que, apesar da aceleração no crescimento do consumo, o papel do Brasil no cenário mundial continua predominantemente o de exportador de matéria-prima. Ou seja, continuamos na fase 1 do videogame. O próprio nome do nosso país vem da primeira matéria-prima arrancada e exportada daqui a preço de banana: o pau-brasil. Hoje, além de continuarmos exportando madeira, como fazemos há 510 anos (!), acrescentamos outros itens a esse ciclo vicioso - boi, soja, minério de ferro. Ok, o senhor conseguiu aumentar os postos de trabalho, mas não a ponto de isso representar uma mudança no que realmente importa: na valorização da capacidade de inovação do povo brasileiro. Para ilustrar com um exemplo futebolístico, como é de vossa preferência: continuamos exportando nossos craques - matéria-prima - e pagando para assistir ao campeonato espanhol e italiano - o produto elaborado - às empresas gringas de TV a cabo. Sacou a metáfora, companheiro?

Agora, a boa notícia: principalmente por ter conseguido incluir na sociedade tantos brasileiros como o senhor, que ralaram para subemergir da miséria e participar da vida nacional, vou colocar Vossa Excelência na pole-position, à frente de FHC. Reconheço: nunca antes na história do Brasil tivemos um presidente tão excelente quanto Vossa Excelência.

Infelizmente, isso não muda muita coisa. Quem continua comemorando nossa lanterninha na educação ou nossa vitória na ignorância que massacra a maior parte do povo são justamente os seus aliados nesses oito anos de mandato: os Sarneys, os Barbalhos e os Renans, donos das capitanias hereditárias que nunca terminam. Aliás, para fazer justiça, são os mesmos que, curiosamente, lá estavam na era FHC.

Ou seja, companheiro, se alguma coisa melhorou, alguma coisa continuou igual. Infelizmente, o essencial. Minha torcida fica agora para que o seu sucessor - uma mulher! - encare essa faxina com mais seriedade. Diga a ela, por gentileza, que se for para tratar da educação do povo brasileiro como gente grande, pode contar comigo!

Obrigado pela atenção ao "CQC" e desculpe eventuais tiradas exageradas dos meninos.

Atenciosamente,

Marcelo Tas, jornalista e âncora do "CQC".

Pasquale Cipro Neto [2010]

Excelência,

Na carta que lhe escrevi em 2003 (Vossa Exª acabara de vencer a sua primeira eleição), pedi-lhe, essencialmente, que mantivesse os pés no chão, que não perdesse o contato com a realidade e, sobretudo, que enfrentasse o que transforma num inferno o cotidiano brasileiro: as máfias, pequenas, médias e grandes, cuja atuação, creio, expliquei bem. (Aos que não leram essa carta, peço-lhes que a leiam; aos que a leram, que a releiam em portalimprensa.com.br/revista/263.)

Passados oito anos, que ocorreu? Sim, já sei, nunca na história deste país se compraram tantos automóveis, iogurtes, telefones celulares, apartamentos, camisinhas, latas e garrafas de cerveja etc., etc., etc. Também nunca na história deste país tanta gente pôde finalmente saber o que é a energia elétrica, como se vive com ela etc., etc., etc. Mas... E o resto? Como ficou o infernal cotidiano brasileiro? Como ficaram as escolas, os hospitais, as estradas, o transporte público, a justiça, as cadeias, as polícias etc.? E a corrupção? E a liberdade de expressão?

Sei não, Exª, mas acho que a coisa não melhorou muito, não. As rodovias federais continuaram em petição de miséria (sim, já sei, depois da concessão algumas delas começaram a melhorar, mas a maior parte está em cacos), os aeroportos foram de mal a pior, as cadeias continuaram indecentes, os escândalos não tiveram limites etc., etc., etc. Sim, já sei, a Polícia Federal até que fez um trabalho razoável, mas a truculência foi e ainda é nódoa dessa e das outras polícias do Brasil.

Mas quero voltar ao ponto principal da minha carta de 2003, Excelência: as máfias, pequenas, médias ou grandes. Para mostrar como o governo de Vossa Exª lidou com elas, vou citar um fato que deve ser tomado não só na sua essência, mas também (e sobretudo) no que tem de representativo do modo como se resolveram certas questões no governo de Vossa Exª (modo idêntico ao que vigora desde sempre na história deste país).

Sabe do que vou falar, Exª? Da "regulamentação" do engate. Sim, o engate, aquela porcaria que muitos espertos instalam na traseira de seus tanques, digo, de seus automóveis. Exemplo típico da mais pura e legítima boçalidade brasileira, o engate foi "regulamentado", no seu governo, pelo Ministério das Cidades, ao qual estão subordinados o Denatran e o Contran.

Não estou louco, não, Exª, estou mesmo falando daquela idiotice chamada engate, que não protege coisa nenhuma o carro em que está instalado (pelo contrário, pode provocar danos irreparáveis à estrutura do veículo, se este sofre forte impacto traseiro; piores do que os danos estruturais são os físicos, nos eventuais passageiros do banco traseiro - com o engate, ocorre uma dobra do para-choque e a consequente invasão da parte traseira do habitáculo, o que pode matar ou ferir gravemente quem estiver sentado no banco de trás).

E o carro cuja frente colide com a traseira de um que tenha o maldito engate? Os danos continuam: pode ocorrer, por exemplo, entre outras desgraças, a destruição do radiador, o que implica o despejo de substâncias tóxicas no meio ambiente (cadê o Ministério do Meio Ambiente?). Não se podem esquecer, por fim, os ferimentos causados nos pedestres que, ao atravessar uma rua, muitas vezes precisam iniciar o processo passando entre dois carros estacionados, um dos quais tem o maldito engate: pobres ossos das canelas e dos pés. Também não se pode esquecer que a fabricação dessa porcaria e das peças que não precisariam ser trocadas no caso de um acidente custa energia elétrica, água, matéria-prima etc. (cadê o Ministério do Meio Ambiente?).

Que fez o seu governo quando finalmente o assunto veio à tona? Ouviu os especialistas, o IPT, as universidades, alguém que tivesse um mínimo de noção de física, de resistência dos materiais? Claro que não! Em vez de fazer o que deveria ter feito (proibir essa estupidez e multar pesadamente quem a mantivesse no automóvel), o seu governo, para proteger o interesse de meia dúzia de bandidos, ou seja, de uma máfia, "regulamentou" o uso dessa arma. Vale lembrar que o governo do seu antecessor também não teve peito de proibi-la (tive acesso ao texto oficial do Denatran, de 2000 ou 2001, que proibiria a estultice; misteriosamente, o texto foi dormir numa gaveta...). O engate é só um exemplo, Exª, transformado aqui em prova cabal e também em símbolo da ineficiência e do alheamento selenita do poder público no Brasil.

Lamentavelmente, o Brasil que Vossa Exª deixa, embora "melhor" do que aquele de 2002, está longe do que quero como país, sobretudo de uma República (do latim res publica, que significa "coisa pública"). No seu Brasil, Exª, muito do que é público foi tratado como privado... Não preciso explicar, preciso?

Em tempo: não posso esquecer que Vossa Exª assinou a trapalhada, digo, a lei que pôs em vigor uma grande bobagem chamada "Reforma Ortográfica". Vossa Exª tem ideia de quanto isso custou ao povo brasileiro e ao país? Sabe quanto dinheiro público foi jogado fora por causa disso? Se quiser saber, posso explicar. AVossa Exª e à nova presidente.

Apesar de tudo isso, Vossa Exª continua me emocionando. Ainda me vêm lágrimas quando o vejo pondo o dedo em certas feridas nacionais e internacionais em que nunca antes na história deste país ninguém tinha posto o dedo. Incrível, não?

Cordiais saudações,

Pasquale Cipro Neto é professor de língua portuguesa, apresentador da TV Cultura e colunista da Folha de S.Paulo.

Raul Wassermann [2010]

Prezado Presidente,

Há oito anos, quando da sua posse, tive a oportunidade de enviar uma carta como esta, que começava citando os versos de Arnaldo Antunes: "A gente não quer só comida / A gente quer comida diversão e arte / A gente quer saída para qualquer parte", e prosseguia (Leia a carta original em portalimprensa.com.br/revista/263).

Oito anos depois podemos constatar muitos avanços. Temos uma Lei do Livro e temos também a legislação que desonerou a produção e comercialização de livros do que restava de tributos (PIS/Pasep - Cofins). O número de municípios sem bibliotecas diminuiu radicalmente. Construímos um Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), com a participação do MinC, do MEC e da Sociedade Civil. O MEC passou a incluir livros de literatura nos programas de aquisição de livros para as escolas. O Ministério da Cultura aumentou de forma muito significativa seu orçamento para aquisição de livros para as bibliotecas públicas e iniciou um programa de modernização desses equipamentos culturais fundamentais, além da construção de novas bibliotecas. Recentemente o MinC anunciou propostas de apoio para que as livrarias independentes desenvolvam programas culturais.

Mas, paradoxalmente, subsiste uma sensação muito forte de "serviço incompleto". A Lei do Livro até hoje não foi regulamentada - e existem propostas dormitando no MinC há quase seis anos; a Lei de Desoneração Fiscal deveria ter sido acompanhada da criação do Fundo para o Livro, Leitura e Literatura, e o MinC só pensou nisso no último ano: dificilmente o Congresso Nacional aprovará as propostas na atual legislatura. O programa de implantação de bibliotecas nos municípios - reconhecido como enorme e meritório esforço do Governo Federal - não resultou no estabelecimento de um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, capaz de coordenar os esforços de todos os entes federados para proporcionar o acesso ao livro para todos os brasileiros. Na área institucional, apesar de reiteradas promessas do Ministro da Cultura, não se logrou a criação do Instituto Nacional do Livro, Leitura e Literatura, e as questões da política do livro estão esquizofrenicamente divididas entre uma Biblioteca Nacional que não tem vocação para isso e uma simples diretoria em uma das secretarias do MinC. O PNLL é uma estrutura por demais frágil para cumprir seus objetivos.

Em síntese, muito foi feito, porém muito mais foi prometido e não cumprido. E mesmo o prometido (e não cumprido) ainda está aquém das necessidades do nosso país. O nosso entusiasmo e dedicação à causa do livro e da leitura não nos permite o contentamento com a mediocridade. Queremos mais, muito mais, e melhor.

O Programa de Governo anunciado na campanha de sua sucessora prevê a integração de todas as políticas sociais. Faz-se necessário que as políticas para a Cultura - em especial aquelas voltadas para o livro e a leitura, para o acesso às artes e ao conhecimento - passem a fazer parte do que se chama de "políticas sociais" e estejam igualmente integradas ao Bolsa Família, ao Fundef, ao SUS e demais políticas sociais. Só dessa maneira se conseguirá induzir estados e municípios a desenvolver programas na área da cultura que sejam contrapartidas reais para os esforços do Governo Federal.

É fundamental desatar o nó institucional das políticas públicas para o livro e a leitura, com a criação do Instituto Nacional do Livro, Leitura e Literatura, com autonomia administrativa e orçamento irrigado pelo fundo decorrente da contribuição de 1% do faturamento das editoras, como foi pactuado por ocasião da desoneração do setor.

Portanto, cabe à presidente Dilma "completar o serviço". O aprofundamento do que foi feito, a solução dessas descontinuidades e o estabelecimento de mecanismos mais eficazes de ação pública são, na nossa opinião, o que cabe fazer de imediato para reafirmarmos, mais uma vez, a frase dita por Monteiro Lobato há quase 60 anos: "Um país se faz com homens e livros".

Esse é o desejo que me faz, sempre esperançoso, subscrever-me. Atenciosamente,

Raul Wassermann, diretor do Grupo Editorial Summus e ex-presidente da Câmara Brasileira do Livro