Mudamos para continuar os mesmos
Mudamos para continuar os mesmos
Atualizado em 30/01/2011 às 22:01, por
Igor Ribeiro.
Não costumo gostar de mudanças. Há quem as encare com naturalidade e ache o máximo parafrasear a metamorfose ambulante do Raul Seixas. Sinto inveja de quem consegue encarar isso numa boa. Embora muitas vezes fique feliz com o resultado da mudança, tenho medo e preguiça de mudar. Um sólido passado me fez construir este presente, um platô que eu conheço bem. Já domino isso e aquilo, manjo um pouco daquilo outro. Sei quem você é, estou vacinado contra suas manias e posso andar por esse lugar de olhos fechados. Para quê mudar?
O desgosto aumenta conforme o tamanho da mudança. Quanto maior for o impacto e quanto maior for o esforço, físico ou intelectual, menos gosto da ideia de mudar. Acho que muita gente se sente assim, embora não confesse. Um lado Sheldon Cooper íntimo e escondido que, às vezes, vem à tona, admitindo temer as castanholas da vizinha nova.
Não fosse assim, estaríamos nômades e vivendo seminus, em cavernas, até hoje. Curioso é o paradoxo implícito nessa evolução, já que a humanidade caminhou sempre a favor da mudança, mas também por um sentido de preservação/manutenção. Aprendemos a cultivar e colher para sobreviver sem sair do lugar; aprendemos a navegar para continuar poderosos; aprendemos a produzir em linha para aumentar o giro capital; aprendemos a nos conectar para falar com Tóquio sem tirar a bunda do sofá. Nem sempre funcionou, mas essa é a inquestionável realidade.
Se, por um lado, o medo da mudança tem reflexo no desconforto que provoca, por outro é inerente aos sacrifícios afetivos que quase sempre a acompanham. Pode ser aquela blusa que você reluta em doar não porque é bonita e voltou à moda, mas porque te traz lembranças, ou os amigos da escola anterior que eram os melhores do mundo, "para sempre". De fato, encontrar menos do que se gostaria pessoas queridas tem enorme influência sobre essas decisões. Além do que fazer amizades novas e reconquistar confianças costuma dar um trabalhinho. "E se os colegas do trabalho novo não forem legais como os atuais?"...
Mas, muitas vezes, mudanças são imperativas. Precisam ser encaradas e atravessadas. A necessidade de vencê-las está além dos pequenos confortos, da inércia da rotina, e é determinante que se quebre esses temores. Eu mesmo, que confesso aqui esse medo excêntrico, já mudei bastante nessa vida. Só de endereço foram nove vezes, cinco sob autogestão. Outras dezenas (centenas?) de mudanças envolveram relacionamentos, empresas, ideias, projetos, pontos de vista... O receio de mudar, portanto, não me impede de mudar. Só me deixa ressabiado. Como dirigir à noite, sob tempestade.
Que venham mudanças, pois. Para todos nós. Ligue os faróis, desvie dos raios e se mantenha na estrada. Tenha certeza de que segue o caminho certo, leve na bagagem o mais importante e, na boleia, o fundamental. Se tiver de ser, será - sem medos. E quando nos reencontrarmos um dia, que seja breve ou distante, mas sempre terno.

O desgosto aumenta conforme o tamanho da mudança. Quanto maior for o impacto e quanto maior for o esforço, físico ou intelectual, menos gosto da ideia de mudar. Acho que muita gente se sente assim, embora não confesse. Um lado Sheldon Cooper íntimo e escondido que, às vezes, vem à tona, admitindo temer as castanholas da vizinha nova.
Não fosse assim, estaríamos nômades e vivendo seminus, em cavernas, até hoje. Curioso é o paradoxo implícito nessa evolução, já que a humanidade caminhou sempre a favor da mudança, mas também por um sentido de preservação/manutenção. Aprendemos a cultivar e colher para sobreviver sem sair do lugar; aprendemos a navegar para continuar poderosos; aprendemos a produzir em linha para aumentar o giro capital; aprendemos a nos conectar para falar com Tóquio sem tirar a bunda do sofá. Nem sempre funcionou, mas essa é a inquestionável realidade.
Se, por um lado, o medo da mudança tem reflexo no desconforto que provoca, por outro é inerente aos sacrifícios afetivos que quase sempre a acompanham. Pode ser aquela blusa que você reluta em doar não porque é bonita e voltou à moda, mas porque te traz lembranças, ou os amigos da escola anterior que eram os melhores do mundo, "para sempre". De fato, encontrar menos do que se gostaria pessoas queridas tem enorme influência sobre essas decisões. Além do que fazer amizades novas e reconquistar confianças costuma dar um trabalhinho. "E se os colegas do trabalho novo não forem legais como os atuais?"...
Mas, muitas vezes, mudanças são imperativas. Precisam ser encaradas e atravessadas. A necessidade de vencê-las está além dos pequenos confortos, da inércia da rotina, e é determinante que se quebre esses temores. Eu mesmo, que confesso aqui esse medo excêntrico, já mudei bastante nessa vida. Só de endereço foram nove vezes, cinco sob autogestão. Outras dezenas (centenas?) de mudanças envolveram relacionamentos, empresas, ideias, projetos, pontos de vista... O receio de mudar, portanto, não me impede de mudar. Só me deixa ressabiado. Como dirigir à noite, sob tempestade.
Que venham mudanças, pois. Para todos nós. Ligue os faróis, desvie dos raios e se mantenha na estrada. Tenha certeza de que segue o caminho certo, leve na bagagem o mais importante e, na boleia, o fundamental. Se tiver de ser, será - sem medos. E quando nos reencontrarmos um dia, que seja breve ou distante, mas sempre terno.






