Miriam Moraes cria manual sobre política para acabar com a “cegueira” sobre o assunto
A jornalista conduz o tema de modo didático, combatendo os preconceitos sobre cada item apresentado no livro. Novos módulos serão lançados.
Atualizado em 25/11/2014 às 16:11, por
Christh Lopes*.
Miriam Moraes cria manual sobre política para acabar com a “cegueira” sobre o assunto
No início deste mês, o jornalista Guga Noblat foi agredido em uma manifestação que pedia uma intervenção militar no Brasil. Na ocasião, o repórter do “CQC” entrevistou um dos militantes do movimento que pede a saída da presidente Dilma Rousseff do governo federal.Em meio aos protestos, o profissional de imprensa abordou um jovem e questionou quais seriam os próximos passos do grupo de manifestantes caso sua solicitação fosse atendida. Depois de admitir que não sabia, este foi confrontado com a informação de que Michel Temer assumiria o cargo de presidente, caso Dilma sofresse o impeachment.
Crédito:Divulgação Jornalista criou manual de política para os jovens
“Não seria pior?”, indagou o repórter. “Você é comprado”, rebateu o estudante, que embora tenha acesso ao ensino, não tinha o conhecimento sobre o funcionamento da estrutura das esferas do governo que ele quer mudar. Na sequência, Noblat foi agredido e teve que deixar o ato na capital paulista.
A vontade de participar ativamente do debate público do país é avaliada positivamente pela jornalista Miriam Moraes. “Percebi que uma esmagadora parte da população não faz a menor ideia do que significa embasamento de opiniões, até porque a maioria não tem como ser embasadas, pois se originam de um absoluto desconhecimento do sistema político”, declarou à IMPRENSA.
Ao desenvolver um guia politicamente correto sobre a “Política”, a comunicadora pretende derrubar os preconceitos que se proliferam sobre o tema. O projeto, desenvolvido como uma espécie de manual, explica de modo didático como discutir temas políticos, a quem se deve cobrar uma obra pública e quais são as maneiras corretas de se comportar ao dialogar com alguém sobre o assunto.
As jornadas de junho foram o ápice desse sentimento coletivo, que, embora tenha colocado milhares às ruas, não apresentou uma problematização real ou solução a ser apreciada. Enquanto isso, acadêmicos se apressaram na tarefa de atribuir significados para aquelas aglomerações, cada um criando uma tese temperada "ao gosto do freguês" ou ao propósito que interessava seu público.
“Particularmente não vi nenhuma explicação minimamente coerente e interpreto o movimento como o pedido de socorro de um povo que caminha às cegas. O analfabetismo político é uma cegueira que produz no organismo social o mesmo sofrimento que produz no indivíduo, colocando-o numa situação de insegurança e incertezas, com igual risco de acidentes fatais”, relata a autora.
Nas redes sociais, os jovens marcaram eventos para ‘invadir a avenida Paulista’, ‘tomar o Congresso’, e ‘requisitar os nossos direitos’. A plataforma digital, desde então, demanda uma necessidade de opinar sobre tudo o que acontece e, nem sempre, a argumentação tem algum embasamento. Na época, a jornalista era comentarista da Rádio Interativa FM e pedia a participação dos ouvintes.
“A análise de todo esse conjunto de manifestações por diversos meios me fez perceber que as atribuições do Executivo, Legislativo e Judiciário, e mesmo as competências do Executivo federal, estadual e municipal se confundem no imaginário popular, e terminam todas elas atribuídas a uma única entidade mágica e incompreensível chamada ‘governo’”, diz Miriam Moraes.
Segundo ela, a sede do saber que motivou gerações foi substituída pela incerteza ou irrelevância do tema. Por um outro lado, o movimento das ruas que ganhou destaque em junho de 2013 tornou evidente um desejo das pessoas em debater e participar da política. “Essas pessoas estavam tateando o ambiente político e obviamente se arriscando no encontro com o desconhecido”, afirma.
Necessidade virou um trabalho jornalístico
No seu perfil oficial no Facebook, a jornalista Miriam Moraes respondia a todos os internautas e amigos que comentavam sobre política. O nível das discussões, no entanto, era relativizado tão somente por pautas negativas, que não levavam em conta o contexto dos fatos. A solução que encontrou para combater a desinformação foi discorrer sobre as esferas do governo.
Na plataforma digital, chegou a dialogar sobre os princípios básicos do processo político, que, apesar de ser repetitivamente proferido, é ignorado por uma boa parte dos usuários na rede. Ela virou uma espécie de voluntária da formação política e participou dos debates na internet com o propósito de apontar as supostas distorções, como inúmeras pessoas já se dedicam pela internet.
Crédito:Divulgação Obra pode ganhar mais dois módulos Segundo a jornalista, os argumentos sempre eram exaustivamente explicados, o que gerou até um inusitado arquivo de onde ela apenas extraia uma informação sempre que o conflito exigia. “Acabei me dando conta de que o arquivo estava tão extenso que mais parecia um livro. E por que não? A ideia inicial era criar um guia que facilitasse o trabalho dos voluntários e servisse também como uma ajuda para quem desejava instruir-se politicamente”, diz.
Através da obra o leitor conhecerá desde os princípios mais básicos como a origem e o conceito dos termos direita e esquerda e suas relações com os sistemas produtivos – Capitalismo, Socialismo e Comunismo –, como estes se constituem enquanto base de formação das ideologias e partidos, atribuições de cada esfera do poder e alguns temas da atualidade, como a influência da imprensa.
Há ainda traços sobre questões polêmicas, como corrupção e reforma política, além de dicas de como participar de debates em rodas de amigos ou no ambiente virtual. “O leitor terá uma ideia dos pontos fundamentais para aguçar a habilidade crítica e tornar-se capaz de extrair suas conclusões a partir dos dados ou notícias, ou seja, estará apto a perceber e evitar a manipulação da informação”.
“Quarto poder”
Miriam dedica um capítulo de sua obra para falar sobre o papel da imprensa na política. Para ela, a mídia nem sempre ocupa o “quarto poder”, já que pode assumir posições determinantes em certos momentos. As ditaduras, por exemplo, só estabeleceram um controle através da comunicação.
“É ela quem relata os fatos políticos para a população, podendo tanto instigar uma reação como consolidar o novo poder. Os ditadores podem extinguir o Parlamento, mas nunca se viu a extinção da imprensa”, disserta a jornalista, que apresenta o contexto brasileiro e discorda do modelo atual.
Segundo ela, o país está dividido entre um oligopólio de veículos, que inibem o crescimento de novos veículos em território nacional. “Democratizou-se o país, mas não a imprensa; a lei que regulamenta as concessões é ainda a que foi promulgada na ditadura. A população e nem mesmo os jornalistas fazem ideia de que quase tudo o que assistem, escutam e leem vem da mesma fonte”.
Com um resultado surpreendente nas vendas, o manual de polítia da jornalista Miriam Moraes pode ganhar uma “edição de ouro” e até novos módulos. A ideia é lançar mais dois novos títulos da sequência do guia nos próximos dois anos. “No entanto, isso dependerá do alcance que o primeiro módulo terá. O interesse dos brasileiros em participar da política é notório, resta saber se esse interesse se materializará na busca do conhecimento para uma participação mais eficaz”, ressalta.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





