Minha pequena Pequim
Minha pequena Pequim
Ontem, no centro de São Paulo, presenciei a cena mais bizarra que poderia ter visto. A imagem - colada em minhas retinas - era a de mim mesmo, andando de bicicleta, em meio ao congestionamento das 11 horas da capital. Depois de muita relutância, decidi aderir ao programa de uso de bicicletas, gratuito, oferecido pelo Metrô e pela Porto Seguro, em parceria com a ONG Parada Vital. Quase quatro quilômetros separam a faculdade onde dou aulas da redação de IMPRENSA, percurso sempre percorrido de Metrô, a pé ou de táxi, nos dias de chuva ou atraso.
Há muito tempo venho pensando nos chineses. Hoje a China é uma letra dos BRICs, potência mundial e redentora da economia global. Mas, para mim, a grande China ainda persiste como uma nação de bicicletas. Quando pequeno, estranhava um país com tantas delas: objetos infantis, divertidos e despretensiosos. Na minha modesta e ingênua geopolítica, um país que andava de bicicletas não podia ter um futuro muito promissor. Errei.
Ontem, então, virei um chinês e São Paulo, minha Pequim. Vista do alto de uma bicicleta, a cidade é deliciosamente assustadora. O vento na cara, a sensação de liberdade e velocidade (pagas com as moedas da dor no joelho, da camiseta molhada e da falta de ar) são as faces adoráveis da experiência; por outro lado, o risco de atropelamentos, a ausência de guias rebaixadas e os carros e ônibus, seu lado mais desafiador.
Vez ou outra me pergunto quando o jornalismo vai se reconciliar com as cidades. À medida que o mundo invadiu os jornais - e o planeta está cada vez maior, acreditem - menos espaço sobra para as questões urbanas, locais. Os cadernos de cidades ("Metrópole", no Estadão e "Cotidiano", na Folha, por exemplo) tratam de um espaço desenhado e construído no gabinete do prefeito. Existe um descolamento agudo entre a cidade real - essa dos carros, das bicicletas, dos buracos, da gente comum - e da cidade imaginária dos jornalistas. Penso que o ponto de origem dessa separação está no fato de que, nem literal nem figurativamente, os jornalistas "estão na rua". A culpa, imagino, não é dos repórteres, mas dos editores.
Com isso, não estou sugerindo que editores e repórteres andem de bicicleta. As cidades, sobretudo as grandes, são vastos territórios povoados por fantasmas, verdadeiras forças sobre a maneira como nos relacionamos, entendemos e interpretamos os ambientes públicos. O grande fantasma dos nossos dias é a convicção de que a unidade de referência para o planejamento metropolitano sejam os automóveis, não as pessoas. Não à toa, emissoras de rádio relatam de tempo em tempo a situação das ruas e avenidas; as imagens aéreas de congestionamento, transmitidas pela TV, já fazem parte do nosso cotidiano e ninguém ousa questionar mais profundamente o padrão insustentável que esse modelo impõe à nossa vida. A transferência dessa pauta para o jornalismo de serviço - "a Rebouças está congestionada, prefira caminhos alternativos" - é tão e somente um paliativo. Não é necessário andar de bicicleta para perceber que os jornais não entendem isso tudo como um grave problema social, econômico, cultural e urbano.
Nas últimas semanas, o jornalismo paulistano viu-se mergulhado num debate sobre a proibição, pelo prefeito, do tráfego de ônibus fretados para transporte de trabalhadores das regiões mais afastadas da cidade para a zona central. Gilberto Kassab argumenta que eles atrapalham o fluxo. O prefeito, no entanto, deveria se preocupar mais comigo de bicicleta do que com centenas de fretados. Eu, neófito chinês sobre duas rodas, sou um problema muito maior que eles todos juntos.
Esse debate sobre os fretados revela que, ao pensar a cidade apenas a partir das demandas oficiais, o jornalismo cotidiano nunca permite avanços como um mediador do que pensam as pessoas da cidade. Elas até aparecem no noticiário, mas são reduzidas a personagens queixosas, meras imagens ilustrativas, e nunca como agentes que participam do caos, provocando-o e dele sendo reféns. O cidadão comum não cabe na cidade imaginária - feita de papel e tinta - do jornalismo. Eu tenho uma solução: nomear a Maria do Socorro, doméstica de minha casa, como pauteira dos jornais. Eu perderia uma notável ajudante, mas as redações ganhariam uma ótima jornalista. A Socorro entende mais de planejamento urbano que o prefeito, os editores, os repórteres, os professores de arquitetura e urbanismo da USP e nós todos juntos. Ela anda de ônibus e a pé todos os dias, eventualmente pega o trem, mora na periferia e trabalha em dois ou três bairros diferentes da cidade.
A reconciliação do jornalismo com a cidade passa pela sensibilidade em contemplar os espaços urbanos na sua totalidade e complexidade, e os cidadãos em sua vasta multiplicidade. Mas não. Preferimos falar das regiões centrais, dos automóveis, dos pequenos buracos nas ruas das cidades imaginárias. Do outro lado e nas bordas, a cidade real pulsa, ainda.
Eu vou continuar andando de bicicleta e representando tanto o risco que sou a São Paulo quanto o de pegar piolhos no capacete compartilhado. Para o primeiro problema, prática. Para o segundo, Neocid: receita infalível desde os dias de minhas calças curtas e de minha velha Monark. Enquanto isso, alimento minhas deliciosas utopias: um jornalismo que se alinhe à verdadeira metrópole e, claro, uma cidade inteira de ruas planas.






