Milton Neves pondera: "Nunca briguei, sempre reagi"

Milton Neves pondera: "Nunca briguei, sempre reagi"

Atualizado em 10/10/2007 às 12:10, por Pedro Venceslau.

A entrevista começou parecendo que ia terminar logo. Assim que acabou de apresentar o programa "Debate Bola", Milton Neves se despediu dos colegas e convidou o repórter para sentar. O relógio marcava 13h e às 14h ele tinha que estar em seu escritório, na Paulista, no mesmo prédio da Jovem Pan.

Pya Lima
Milton Neves e

O entrevistado não parece muito à vontade diante do gravador. Nas negociações prévias, foi logo avisando que não ia polemizar com outros jornalistas e que as perguntas relativas a Record deviam ser feitas para direção da emissora. Para quebrar o gelo, começo falando de uma de suas grandes paixões, a pequena Muzambinho, em Minas Gerais. A expressão séria de Milton parece relaxar. Essa foi a senha para uma sessão de nostalgia que terminaria com um inusitado desabafo. "Eu era pobre lá em Muzambinho. Não tinha carro, televisão, nem sofá em casa. Meu sonho era jogar futebol, porque isso era um trampolim social. Tentei, mais fui o pior beque que Deus pôs na terra. Aliás, sou incompetente com tudo que é manual. Não sei trocar pneu, nem gravar vídeo cassete. Com computador sou péssimo. Também sou monoglota. Eu relativamente dei certo na minha carreira, mas sou um aborto da natureza".

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Milton já não olha mais o relógio. Parece estar gostando do papo. Quando sai da defensiva e tira a armadura de durão, o apresentador da Record se mostra sensível, simples e convicto de suas posições. Apesar de resistir, acaba falando sobre as pendengas com a banda "anti - merchandising" da crônica esportiva: "Eu nunca briguei. Ficou essa fama, mas sempre reagi. Normalmente, o cara que mais processa é que está em melhor fase". Milton parece estar mesmo vivendo uma fase "zen"; "zen" paciência para brigar, "zen" tempo para nada, "zen" a mesma audiência de outros tempos. Ele está, enfim, cansado. Não vê a hora de pendurar as chuteiras e se mudar de mala e cuia para sua fazenda, em Guaxupé, em Minas Gerais. "Nós tempos um prazo de validade. A boa fase já passou. Minha tendência, agora, é cair. Não vou esperar. Dentro de uns cinco anos, não devo mais estar aqui".

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Fazer ou não fazer merchandising? Milton fica inquieto. A resposta está na ponta da língua e é bastante convincente. "Olha, você é o milésimo cara que me pergunta isso. Hoje existe um merchandising escancarado na mídia impressa e ninguém fala disso. Existe uma puta hipocrisia. Como não tem jeito de dizer que o Milton Neves é incompetente, ficam com esse papo. O merchandising com a bola rolando faz com que o comercial tenha a mesma audiência do programa. Além disso, quem tem que ajudar o esporte brasileiro é a iniciativa privada. Todo mundo diz isso. Mas quando o sujeito ganha uma medalha - que é algo raro - e vai em um programa, focalizam da testa ao queixo o ignoram o boné do patrocinador".

A conversa corre solta por bem mais de uma hora. E continua no dia seguinte, no Estádio do Pacaembu, reservado pela revista IMPRENSA especialmente para as fotos da matéria, que estará nas próximas edições. Vale apenas esperar.