Milton Neves, Lula, Agnelo Queiroz, CBF, cartolagem, COB. Ninguém escapa à metralhadora giratória do polemista Juca Kfouri

Milton Neves, Lula, Agnelo Queiroz, CBF, cartolagem, COB. Ninguém escapa à metralhadora giratória do polemista Juca Kfouri

Atualizado em 07/10/2004 às 05:10, por Pedro Venceslau e Gabriel Pelosi.



Em entrevista exclusiva para , do Portal IMPRENSA, o cronista esportivo que marca em cima da cartolagem fala sobre os labirintos do esporte, reforça artilharia contra antigos desafetos de dentro e fora das redações e coloca na linha de tiro um novo personagem da sua lista negra: o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz.

PORTAL IMPRENSA – Logo depois da posse do presidente Lula, houve uma expectativa muito grande no meio esportivo quanto à nomeação de Aldo Rebelo – pai da CPI CBF/Nike – para ministro dos Esportes. Ele acabou não aceitando e quem assumiu o cargo foi o deputado Agnelo Queiroz. Você acredita que, na média geral, o Agnelo está cumprindo um bom papel no Ministério dos Esportes?

JUCA – Não. O Agnelo é uma decepção completa. Ele curvou- se à cartolagem de maneira clara. É um trapalhão. O ministério virou um escritório do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Na verdade, tudo aquilo que se esperava de uma política de esporte no Brasil - de massificação, inclusão social - ficou no discurso. Não foi feito nada de prático que possamos mencionar.

PORTAL IMPRENSA – O Estatuto do Torcedor não foi um avanço?

JUCA – O Estatuto é uma herança da gestão Fernando Henrique. Na verdade, quem fez o Estatuto foi o último ministro dos Esportes e Turismo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

PORTAL IMPRENSA – Então por que não foi colocado em prática pelo Fernando Henrique?

JUCA – O Estatuto do Torcedor estava pronto quando Lula assumiu. Méritos sejam dados a ele, que assinou o Estatuto e a Lei da Moralização do Esporte - que, aliás, foram as duas primeiras leis assinadas pelo novo presidente. Mas, na verdade, não sinto nenhum compromisso do atual Ministério dos Esportes com esses dois textos. Você não vê o ministério fiscalizando ou acionando o Ministério Público para punir quem desrespeita a lei. Basta dizer o seguinte: não há nenhuma punição até hoje. E já faz mais de um ano que esses textos entraram em vigor.

PORTAL IMPRENSA – É a primeira vez que o Brasil tem um Ministério dos Esportes. Isso não significa um avanço?

JUCA – Existe o prédio, existe o nome. Mas ainda não decorre daí uma política.

PORTAL IMPRENSA – Recentemente Pelé fez um desabafo público, em que criticou duramente os dirigentes esportivos. O que você tem a dizer sobre o lado dirigente de Pelé?

JUCA – Vamos tentar fazer justiça a Pelé. A passagem dele pelo Ministério dos Esportes, no que diz respeito especificamente ao futebol, foi um avanço. A Lei Pelé, apesar de estuprada pelo Maguito Vilela na regulamentação, significou um avanço. Culpar a Lei Pelé pelas mazelas atuais de nosso futebol é uma velha desculpa da cartolagem, que não foi capaz de se adequar aos tempos mais modernos de gestão profissional.

O problema do futebol brasileiro está na gestão e no arrombamento do cofre dos clubes a favor dos bolsos dos cartolas. Isso é uma realidade que durante muito tempo foi considerada "coisa de alguns jornalistas chatos".

PORTAL IMPRENSA – Como você avalia essa aproximação de Ricardo Teixeira com o governo?

JUCA - Com a maior decepção. Diferentemente de outros presidentes que eram muito distantes do mundo do futebol, Lula sabe bem quem são esses caras. Lula é um torcedor. Por uma troca de favores, eles se aproximaram. E eu acho isso muito ruim.

Outra decepção: recentemente o Aldo Rebelo foi homenageado pelo Eurico Miranda...Não é possível...Será que o poder deixa todo mundo igual?

PORTAL IMPRENSA – A bancada da bola está enfraquecida no congresso?

JUCA - Ela está enfraquecida no Congresso porque não precisa mais se manifestar. Se o presidente da República tem andado de braços dados com os cartolas, com o formador da bancada da bola, para que dar a cara a bater?

PORTAL IMPRENSA – Você votou no Lula?

JUCA – Votei.

PORTAL IMPRENSA – Tem uma lenda que circula no meio esportivo, que diz que você virou malufista, em função de um manifesto assinado em 1992...

JUCA – Nunca. Aquilo era um manifesto absolutamente ambíguo, com uma dose de malícia política. Fizemos aquilo para mostrar o seguinte: a situação mudou no Brasil e vivemos em um regime democrático. Foi um bando de comunistas que assinou. Essa história aconteceu nas eleições municipais de 1992. Por causa da repercussão, eu escrevi um artigo para o Estadão, que diz claramente o seguinte (lendo com o papel na mão): "O malufismo também não serve ao país, mas a maioria do eleitorado já garantiu a vitória de Paulo Maluf. É preciso criar condições políticas para que o virtual prefeito governe sem estar condenado a se cercar de gente que o passado já deveria ter aposentado. A experiência recente da primeira fase do governo Collor é suficientemente eloqüente para que não seja preciso detalhar o que significa. Quem vota em Suplicy não é necessariamente bom. E quem vota em Maluf não é obrigatoriamente mau e vice-versa."

Assinei o manifesto como assinaria qualquer documento pela liberdade de expressão. Naquele momento, o que se esperava? Um automático apoio de todos os setores da esquerda à candidatura Suplicy. E nosso setor mostrou que não é assim. Que em uma situação de democracia, você tinha de analisar o que era melhor para a cidade. Eu não votei nem em um, nem outro. Votei no Serra nessa eleição. Mas ficaram os dois. Agora querer transformar alguém como eu, com a história que tenho, em malufista... Esse boato só surgiu agora, há dois anos, quando estabeleceu-se o grande racha na imprensa esportiva entre o pessoal do camelódromo e o pessoal que não faz merchandising. Aí virou essa baixaria. Mas isso é uma bobagem.

PORTAL IMPRENSA – Como que se deu esse grande racha da imprensa esportiva, especialmente sua com Milton Neves?

JUCA – Eu já perdi muito tempo com esse rapaz. Dediquei uma coluna inteira para ele no jornal Lance!. E acho que está clara a minha posição a respeito. Ele começou me elogiando, me elogiando, como uma maneira de confundir a opinião pública de parecer que éramos todos da mesma turma...

PORTAL IMPRENSA – O que ele queria te elogiando tanto?

JUCA – Queria pegar uma carona na imagem que eu tenho, ou que ele imagina que eu tenho. Chegou um belo dia que eu dei uma notinha dizendo: nós não somos da mesma turma. Ele estava processando o José Trajano, ele tinha dado um pontapé no Sílvio Luís, por que o Sílvio Luís não tinha tirado o chapéu para ele no programa Raul Gil, uma coisa ridícula. Quando você vir algumas figuras me criticando, por exemplo, o Eurico Miranda, o Ricardo Teixeira, não precisa nem me avisar, por que isso só colabora com a minha biografia. Agora se você vir um deles me elogiando, me avise porque aí eu vou me defender. Elogio deles eu não quero. Foi só isso que eu fiz. O tipo de atuação dessa gente não colabora para a credibilidade do jornalismo. Ele (Milton Neves) que se assuma como garoto-propaganda e não como jornalista.

PORTAL IMPRENSA – Essa cobertura apaixonada que às vezes se transforma em torcida, como o Galvão Bueno faz, como é que você avalia isso, você acha que isso prejudica a cobertura?

JUCA – Minha opinião sobre narração na televisão é absolutamente solitária. Eu prefiro os que falam menos e os que não berram. Eu acho ainda que o modelo de transmissão na televisão brasileira é o modelo de rádio. Que rádio seja como é, eu acho inteiramente compreensível. Na televisão eu acho que não precisa. Eu te diria que quando o Galvão está transmitindo um jogo ele não está fazendo jornalismo, ele está fazendo entretenimento, como se fosse um animador de auditório.