"Militares conversavam com o repórter, não com o veículo de comunicação", diz Dalton Moreira

"Militares conversavam com o repórter, não com o veículo de comunicação", diz Dalton Moreira

Atualizado em 26/01/2009 às 17:01, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Jornalista há 30 anos, Dalton Moreira conta que começou na profissão "por acaso". Acaso este que lhe rendeu inúmeros "furos" durante sua carreira, como a divulgação de que os militares estariam preparando a Serra do Cachimbo, entre o Pará e o Mato Grosso, para fazer testes nucleares, e uma entrevista com o brigadeiro Hugo Piva relatando como ele ajudou Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, a fazer mísseis que poderiam atingir Israel.

Um dos únicos profissionais a ser recebido pelos militares nas décadas de 80 e 90, Moreira explica que a relação com eles era complicada, por todos eram "extremamente desconfiados". Segundo ele, o off era uma situação normal. "Eles conversavam com o repórter, e não com o veículo de comunicação".

O repórter mantém atualmente um jornal em Taubaté, interior de São Paulo, chamado In OFF , e está prestes a terminar um livro sobre a Serra do Cachimbo. "Um bom depoimento jornalístico é ótimo pois quem vivenciou o fato conhece como ninguém o assunto", afirma.

Portal IMPRENSA - Conte um pouco de sua trajetória profissional e como você começou no jornalismo.
Dalton Moreira -
Sou jornalista por acidente, por acaso. Comecei em setembro de 1976 como revisor no jornal A Tribuna (Taubaté). Depois fui para outras publicações. Em 1978 estive no jornal Agora (regional) e, em 1979, no ValeParaibano . Em 1983 comecei na Folha de S.Paulo como correspondente em Taubaté, onde fiz a capa da Ilustrada com as últimas cartas inéditas de Monteiro Lobato. Posteriormente fui montar a sucursal da Folha em São José dos Campos. Depois fui para Brasília e voltei para São Paulo. Sempre cobrindo área militar e Polícia Federal. Depois que saí da Folha , logo após a cobertura do afundamento do Bateau Mouche (em 89) fui para O Globo , rádio Jovem Pan, Correio Popular, Veja, Gazeta do Paraná . São mais de 30 anos de profissão. Atualmente tenho um jornal: o In OFF . Meu grande sonho era ser escritor. Não dava. Virei repórter.

IMPRENSA - Você está escrevendo um livro sobre o sua reportagem na Folha de S.Paulo sobre a Serra do Cachimbo. Conte a história e fale um pouco sobre a obra.
Moreira -
O título provisório é "A História Secreta da Bomba Nuclear Brasileira". No dia 8 de agosto de 1986, a Folha estampava a seguinte manchete: "Brasil prepara local de teste nuclear". Na história do jornal foi seu único furo de repercussão internacional. Nunca ninguém soube quem foi o responsável pelo levantamento da reportagem que; somente o diretor de redação na época, o Otávio Frias Filho, e o publisher Otavio Frias de Oliveira tinham ciência. Acontece que houve - pro razões de segurança - um acordo para que o nome do repórter fosse preservado. Esse segredo estava sendo mantido até hoje, quando resolvi contar para todos os fatos que nunca foram revelados pelo jornal durante a série de reportagens publicadas.

IMPRENSA - E por que você decidiu contar que você foi o responsável pela reportagem?
Moreira -
Muitos vão se questionar porque somente agora. Um bom depoimento jornalístico é ótimo pois quem vivenciou o fato conhece como ninguém o assunto. Isso que estou falando surgiu de uma idéia do jornalista Ricardo Júlio num almoço que tivemos. Ele perguntou: "Por que você não escreve um livro sobre Cachimbo? Isso vai ser bom para para os jornalistas mais jovens e também para que saibam quem é você. É história quer você queira ou não". Comecei a fuçar meus arquivos e a digitar tudo que vinha, aleatoriamente. Seria leviano se não o fizesse e em nada contribuiria para o jornalismo investigativo.

IMPRENSA - Você como repórter especial da Folha nos anos 80 e 90 era um dos poucos jornalistas recebido por militares, num período em que a sombra da ditadura ainda era muito presente. Como era ter essa relação com eles?
Moreira -
Sim. Por todos. Até o general Octávio Aguiar de Medeiros do então SNI (governo Sarney). Uma relação complicada. São extremamente desconfiados. Mas diferem dos políticos em tudo. Conversam com o repórter e não com o veículo de comunicação. O off é situação normal.

IMPRENSA - Você começou sua carreira em São José dos Campos e agora retorna para o interior do estado. Qual a diferença de se fazer jornalismo nas grandes capitais e no interior? Como é lidar com fontes e imparcialidade em um lugar pequeno?
Moreira -
O interior é horrível. Não respeitam o profissional, e as fontes em geral não são confiáveis. Não aconselho ninguém a trabalhar por aqui.

IMPRENSA - Como você avalia a situação do jornalismo investigativo no Brasil hoje?
Moreira -
Não dá para avaliar legal. Acabou. Eu fazia muito isso. Hoje não temos mais espaço. A focaiada emburrecida é mais útil. Tenho muitas histórias sobre indústrias bélicas que hoje morreram.