Mídia, consumo e crianças: a cidadania em perigo
Mídia, consumo e crianças: a cidadania em perigo
As crianças brasileiras, a exemplo das crianças de todo o mundo, têm sido submetidas diariamente a um intenso bombardeio e isso vale mesmo para aquelas que, por sorte, não vivem em zonas de conflito, como o Iraque, o Afganistão, a Palestina ou outras.
A guerra que as ameaça está dentro de casa e é desencadeada todas as vezes que elas acionam o controle da televisão. Uma guerra suja porque travestida de sedução, recheada de hambúrguer e gergelim, batatas fritas, salgadinhos em geral, celulares, bebidas, brinquedos que não educam e conceitos equivocados de felicidade, bem-estar e sustentabilidade.
A mídia, principalmente a televisão no caso das crianças, tem se comportado de maneira irresponsável, numa relação promíscua com anunciantes e agências, que defendem, cinicamente, a liberdade de expressão ao mesmo tempo em que agridem a cidadania com objetivo único de engordar os seus lucros.
Na sociedade de consumo, cada vez menos consciente, todo esforço tem sido feito para tornar crianças em consumidores, para vender a idéia de que a felicidade e o prestígio estão associados a produtos e comportamentos que fazem mal à saúde e à qualidade de vida.
Os resultados dessa guerra barulhenta, estimulada por apresentadoras com trejeitos e mentes infantilizadas, são visíveis: crianças obesas, doentes, reféns de soluções prontas e portanto pouco críticas, que começam a beber cada vez mais cedo e a procurar maneiras fáceis e não éticas de conseguir sucesso a todo custo.
A mídia tem estimulado a competição e não a solidariedade, tem exposto precocemente as crianças à violência e à banalização do sexo, respaldada na ética "do Zeca Feira", típica da batalha pelo consumo em que se digladiam anunciantes e agências inescrupulosos.
A mídia tem forjado em nossas crianças uma mentalidade não sustentável e de submissão a riscos não desejáveis, como se pode depreender dos anúncios das montadoras (que querem consumidores pilotos e não motoristas conscientes e, com isso, contribuem para a morte e a mutilação de um número formidável de jovens), de celulares (a apologia cínica do descarte e da obsolescência planejada) e de bebidas (a imprensa, as cervejeiras e as agências embriagam nossas crianças sem qualquer moderação).
A mídia responde, certamente, pela perda de auto-estima e pelo sentimento de revolta que domina uma parte considerável de crianças que, excluídas do mundo do consumo por pertencerem à legião dos menos favorecidos, são desafiadas a um consumo que não lhes é permitido.
A mídia estimula posturas condenáveis (você se lembra daquela campanha da Volks - a menininha colando prova do menininho - que, ao mesmo tempo, pregava a falta de ética e estimulava o preconceito de gênero?), transforma tragédia em espetáculo, vende um conceito cosmético de meio ambiente (o anúncio da Ipiranga neutralizando carbono com venda de gasolina é de arrepiar!), legitima o merchandising e as mensagens subliminares (tem até artista fazendo a apologia de medicamentos). Ela engrossa o lobby para a manutenção das corridas de Fórmula I que, apesar de legislação contrária, continuam estimulando o consumo de tabaco no Brasil. Parte dela se posta acintosamente a favor da venda de armas, dos bingos e de produtos calóricos.
É razoável admitir (e talvez seja fácil entender) que crianças submetidas a essa guerra sem limites proposta pela mídia estejam em nossas ruas atuando como delinqüentes, buscando conseguir acesso a produtos exibidos pela mídia e que a sociedade não lhes pode oferecer.
A mídia, apesar do discurso hipócrita da "criança esperança" continua avançando sobre as mentes das nossas crianças, buscando apropriar-se delas em seu interesse e de seus parceiros gordurosos, com seus programas "big brother" e campanhas publicitárias condenáveis.
Os palhaços do fast-food, que distribuem brindes e buscam, eles próprios, se proclamarem super-heróis freqüentam a mídia com desenvoltura, acompanhados de sucrilhos com sabor de brigadeiro e um festival de carboidratos a granel.
A sociedade precisa dar um basta a esta guerra em nome da saúde e do futuro das nossas crianças antes que seja tarde demais.
É necessário, em nome da qualidade de vida, dos bons valores e posturas que deveriam ser cultivados numa sociedade responsável, repudiar essa mídia comprometida com a "lei de Gerson" e que não se sente envergonhada de envolver as nossas crianças com seus negócios excusos.
A mídia brasileira que, prepotentemente, julga governos, empresas e cidadãos (muitas vezes promovendo verdadeiros linchamentos morais) precisa ser julgada também.
Não devemos cair na armadilha de deixar que o mercado da comunicação se auto-regule porque ele está contaminado pela ânsia do lucro, por valores insustentáveis, pela falta de ética e compromisso com o interesse público.
Não se trata de propor a censura, mas de estimular o debate, a reflexão e de conscientizar educadores, pais, agências e anunciantes (embora alguns deles sejam, como criminosos confessos, casos perdidos). Há governos que imaginam que a censura seja a única maneira de resolver os problemas que eles, de maneira incompetente, ainda não se dispuseram a atacar. Governos que descuidam da educação e que permitem que a indústria farmacêutica freqüente as nossas escolas de Medicina, a indústria agroquímica contamine as salas de aula dos cursos de Agronomia e que fecham os olhos a propostas de educação ambiental transgênica.
Está na hora de virar a mídia, as agências, os anunciantes e (por que não o Governo?) de bruços e encher o traseiro deles de palmadas. É bem pouco provável que, apenas com isso, eles tomem vergonha na cara, mas pelo menos a gente precisa dizer, sem meias palavras, que eles devem deixar as nossas crianças em paz.






