Micro inteligência e imagem empresarial
Micro inteligência e imagem empresarial
Um vestido curto pode afetar a imagem de uma organização? Certamente sim, dirão todos aqueles que vem acompanhando (o caso ainda não acabou e promete permanecer na memória dos comunicadores como emblemático por muito tempo!) o imbróglio em que se meteu a Uniban ao tomar partido no embate entre uma moça que gosta (e tem o direito) de mostrar as pernas e uma turba descontrolada de machistas.
Evidentemente, ninguém ignora que a cultura brasileira é machista e que mulheres bonitas, com o corpo à mostra ou não, correm o sério risco de serem incomodadas por varões pouco escrupulosos que se julgam no direito de pronunciar gracejos, dar cantadas ou mesmo agredir as moçoilas que os provocam (?????).
Episódios moralmente condenáveis, como o que aconteceu na Uniban, se repetem pelo país todos os dias, mas esse tem um ingrediente particular porque o seu palco foi uma instituição universitária, onde se imagina que existam pessoas esclarecidas, incapazes de uma barbárie dessas.
Mas estamos mesmo atravessando uma crise moral, como se pode depreender pelos exemplos que vêm de Brasília, com "representantes do povo" que se escondem atrás dos bigodes para perpetrarem atos não éticos, repudiados pela imprensa e pela sociedade.
Em artigo anterior no Portal da Imprensa, destacávamos a falta de postura de muitas instituições de ensino que insistem, sobretudo por ocasião dos vestibulares, em promessas que não podem cumprir, no desvirtuamento de conceitos (confundem redução de mensalidades com responsabilidade social) e tratam educação como venda de sabonete ou celular.
A degradação do ensino é um fato inconteste no Brasil e se inicia já no primeiro e no segundo graus, propagando-se vertiginosamente pelas milhares de universidades que têm mais compromisso com o bolso do que com a formação dos cidadãos, ressalvadas as exceções de praxe.
Não se trata, obviamente, de pregar a elitização do ensino superior, mas de exigir que as instituições universitárias não abram mão de seu compromisso essencial com o ensino, a pesquisa e a extensão.
Esse compromisso passa, obrigatoriamente, pela disposição para o diálogo, pela tolerância, pelo respeito à diversidade de opiniões, pela eliminação dos preconceitos de qualquer ordem e pelo equilíbrio no processo de tomada de decisões.
Foi essa a postura da Uniban? É claro que não e por isso a decisão (revogada instantaneamente em virtude das pressões - merecidas - da sociedade civil organizada) de expulsar a nossa colega que gosta de usar vestido curto foi amplamente repudiada, sacudindo e nublando a imagem da universidade.
Espera-se sempre que uma organização, em particular as que estão devotadas à formação profissional e pessoal dos nossos jovens, saiba enxergar os fatos a partir de uma visão abrangente, que contemple todas as facetas dos processos que ocorrem aos seus olhos (em especial dentro de seus muros) e que não se precipite para julgar previamente inocentes ou culpados.
Ninguém pode, quaisquer que sejam os motivos, justificar a atitude intempestiva e desequilibrada dos que se postaram para agredir uma moça de 20 anos e muito menos deixar de reagir violentamente à decisão de um colegiado que, preconceituosamente, elegeu o lado mais fraco como vítima, uma postura autoritária, intolerante, absolutamente em desacordo com os valores do nosso tempo.
A Uniban precisa, urgentemente, rever os seus conceitos, se deseja iniciar um longo processo de recuperação de sua imagem, desgastada terrivelmente após este lamentável episódio. A universidade, pela sua absoluta falta de inteligência educacional e/ou emocional, cometeu um equívoco formidável e hoje se constitui em referência negativa para estudiosos de processos de gerenciamento de crises.
Para nós, comunicadores, sobretudo os que atuam como gestores de comunicação nas organizações, o exemplo da Uniban deve servir para a nossa reflexão porque resgata todas as piores práticas em comunicação empresarial, uma absoluta falta de sensibilidade, uma visão ultrapassada, uma gestão dinossáurica de processos de crise.
Na verdade, é imperioso perguntar qual o papel desempenhado, neste episódio, pela estrutura profissionalizada de comunicação da Uniban porque quase sempre na linha de frente estiveram presentes os seus advogados, mostrando que a universidade, no fundo, encara a comunicação como risco e não como oportunidade e que tem uma tendência a atuar na defensiva, contemplando a imprensa, os stakeholders, a opinião pública como adversários e não como parceiros.
Uma organização, universitária ou não, precisa dispor de um programa competente de gerenciamento de crises e foi exatamente isso que a Uniban evidenciou não ter: num dia, gastou uma grana em comunicado publicado na mídia para comunicar a sua absurda decisão (expulsar a estudante) e no outro voltou atrás, com o reitor desautorizando o que ficara decidido num alto colegiado da instituição.
Uma organização que dispõe de uma comunicação efetivamente estratégica (o que não é caso da Uniban, mas também da maioria das empresas brasileiras) não comete erros grosseiros como os que caracterizaram este episódio, mesmo porque teria inteligência suficiente para fazer a leitura adequada da opinião pública, das fontes especializadas que estavam repercutindo o fato na mídia nacional.
A Uniban resolveu apostar contra o consenso e o bom senso, contra a tolerância, contra a modernidade e pagou caro e merecidamente por isso. Agora, só lhe resta juntar os cacos, refazer a imagem desgastada (esses processos costumam ser demorados e doloridos), assumindo definitivamente a sua condição de instituição universitária comprometida com os novos tempos.
Cabe à nossa colega do curso de Turismo, perseguida pela intolerância machista, buscar os seus direitos, exigir retratação, reparação financeira, no que terá sempre a solidariedade de todos nós. Aos estudantes e educadores deste país fica a lição a ser aprendida, a ser repetida em todas as salas de aula: é fundamental respeitar a individualidade e não é tolerável que nos transformemos em juízes dos nossos semelhantes, apenas porque se comportam, se vestem de forma diferente daquela que julgamos (autoritária e preconceituosamente) ser a adequada.
A comunicação empresarial precisa de mais jornalistas, relações públicas ou publicitários competentes e não pode ficar refém de bancas de advogados que tentam, como vimos inutilmente, blindar organizações que cometem equívocos inomináveis.
A imagem e a reputação são ativos intangíveis que devem ser construídos a partir de uma gestão moderna, democrática, pelo diálogo, pelo respeito à divergência e obediência aos valores que são cultivados pela comunidade. Não é algo que se possa limpar com facilidade depois que ficou sujo.
A Uniban vai ver como a intolerância a um vestido curto custa caro. Talvez, de agora em diante, inclua em sua gestão práticas modernas de comunicação, que não se confundem com apelos de marketing em época de recrutamento de alunos. Eu já tinha escrito (está no livro Comunicação Empresarial no Brasil :uma leitura critica) que a comunicação/marketing da Uniban fugiu da escola e que desconhece a precisão do conceito de responsabilidade social (andou enfiando Pelé, Martinho da Vila etc em suas campanhas passadas para os vestibulares de fim de ano).
Vestido curto é pra se tolerar, mas inteligência educacional reduzida e visão estreita em comunicação empresarial são defeitos que não se afinam com a modernidade.
Não sabemos como a Justiça avaliar o caso, mas a opinião pública já deu o seu veredicto. Aqueles que reconhecem a importância da imagem e da reputação para o mundo dos negócios não têm dúvida: é mais perigoso expor preconceitos e intolerância do que pernas e coxas. Que a Uniban vista novos conceitos, se não quiser pagar outros micos. Parodiando Nelson Rodrigues, podemos dizer que a nudez de inteligência será sempre castigada.
Em tempo 1: A avaliação da postura da Uniban, aqui realizada, não se estende à qualidade de seu ensino, pesquisa e extensão e não coloca em dúvida (muito pelo contrário) a capacitação de seu corpo docente. Essa avaliação só pode ser feita pelos próprios alunos , pelo MEC, pela Capes e pelo mercado de trabalho.
Em tempo 2: As crises podem começar a qualquer momento e por motivos diversos (que, muitas vezes, fogem do controle das organizações), mas precisam ser gerenciadas com competência. Algumas culturas organizacionais, truculentas, autoritárias, arrogantes terão sempre maior dificuldade para administrá-las.
Em tempo 3: Ter uma estrutura profissionalizada de comunicação, umbilicalmente vinculada ao processo de gestão, é uma exigência dos nossos dias. As organizações que insistem em ignorar a realidade correm riscos desnecessariamente. A comunicação estratégica não é apenas uma expressão, uma figura de retórica, mas uma condição básica para o sucesso empresarial.






