Meu maior erro, por Silvia Bessa

Meu maior acerto como mãe foi saber usar a experiência de repórter para decidir sobre a vida de minha filha Anaís. Meu maior erro como jorna

Atualizado em 22/05/2015 às 18:05, por Sílvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin lista foi começar a pensar em uma série de reportagens apenas um mês depois que Anaís partiu, aos 4 meses de nascida.
Curtia o quinto mês da primeira gravidez quando o médico da ultrassonografista perguntou: “Tem alguém com nariz muito pequeno em casa?”. Eu, sem informação prévia, achei que era brincadeira, e respondi: “Tem, eu!”. Insistiu: “Não, digo muito pequeno”. Havia algo fora do padrão, notei. Ele sugeriu que conversasse com a obstetra sobre o exame. Antes de ir na obstetra, corri para um computador para as primeiras pesquisas na internet. O nariz pequeniníssimo poderia ser indicativo de uma síndrome. Dias depois, soube que Anaís era portadora da Síndrome de Edwards, trissomia neurológica rara e severa, que se noticiava “ser incompatível com a vida”.
Não me lembro de ter sido uma repórter tão eficiente quanto nos três meses restantes da gestação. Apurando, conquistei minha liberdade para pensar sobre o caso. Nunca recebi propostas, mas vários médicos (ainda bem, não todos) indiretamente me induziram a pensar em desistir da gravidez. Alguns lembraram que havia pais que conseguiram na justiça a interrupção da vida de bebês com Edwards. Fuçando, conheci uma associação chamada “Síndrome do Amor”, que é de Ribeirão Preto (SP), e presta assistência a famílias despreparadas para navegar naquele mar revolto, com ondas enormes de notícias preocupantes. Encontrar a ONG Síndrome do Amor foi meu maior acerto como mãe; e devo isso à prática da reportagem.
A chegada de Anaís foi um presente valiosíssimo, e vivemos intensamente a presença dela. Minha filha viveu 111 dias na UTI. Numa terça-feira de Carnaval, Anaís parou de respirar.
Nessa época, a licença-maternidade estava prestes a acabar. Voltei à redação de braços vazios. Só conseguia pensar em escrever sobre UTIs neonatal. Aqui está meu maior erro como jornalista: fiz uma série de reportagens especiais sobre bebês em UTIs. Entrei e sai de quase todas as UTIs neonatal de Pernambuco. Contei com o apoio de muitos médicos. Reuni vasto material de entrevistas, casos fortíssimos, estatísticas, retratos de precariedade do serviço de saúde porque via tudo de dentro.
Como escrever, marcada pelo luto? Eu me faria presente de forma direta ou não? Recebi conselhos de dois colegas que respeito muito. Um, ou uma, disse-me: “Aproprie-se da sua matéria”. Outro opinou: “Escreva como se ninguém melhor que você pudesse escrever sobre o tema”.
Hoje, ao ler o trabalho, vejo que não há limites entre a mãe e a repórter. Entre leitores, a repercussão foi estrondosa. Mas foi um erro tê-la feito naquela época. Tentei esticar a corda ao máximo, ser útil com o conhecimento adquirido, mas minha experiência invadiu a matéria.
Era cedo. Mas a partir daquele momento passei a acreditar que o jornalismo ajuda à maternidade e a maternidade melhora as jornalistas.
Silvia Bessa é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com