Mercado incerto levou a jornalista Cleide Pinheiro a investir em comunicação corporativa

Mercado incerto levou a jornalista Cleide Pinheiro a investir em comunicação corporativa

Atualizado em 06/10/2008 às 18:10, por Érika Valois/ Redação Portal IMPRENSA.

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A paraense Cleide Pinheiro, 34, é natural de Santarém, oeste do Pará, e desde a infância demonstrou interesse pela comunicação, área em que é graduada como jornalista pela Universidade Federal do Pará. Quando criança, ela morava numa colônia agrícola chamada Boa Esperança e tinha verdadeira paixão pelo rádio, que ouvia na casa do vizinho até ganhar um aparelho do pai, que acabou quebrando ao tentar encontrar o locutor que, para ela, certamente estava escondido lá dentro.

Aos 17 anos, começou a atuar profissionalmente na área ao ser contratada como repórter da TV Tapajós - afiliada da rede Globo em Santarém. Até então sua meta era ingressar na emissora de rádio cujo o dono era o mesmo da TV, mas o gosto pelo telejornalismo a fez enveredar por este veiculo de comunicação no qual acumula passagens, como repórter, pela TV Cultura, TV RBA (afiliada da Rede Bandeirantes em Belém) e TV Liberal (afiliada da rede Globo também na capital paraense).

Apesar de gostar do desafio diário da reportagem de rua, a situação de assalariada e a ameaça de perder o emprego a fez buscar fontes alternativas para garantir seu sustento, razão pela qual fundou, há dez anos, a Temple Comunicação, agência que atua nos Estados do Pará e Amazonas e integra a Rede Brasileira de Comunicação Empresarial (RBCE), dirigida por Cleide.

Com uma trajetória profissional marcada pelo esforço e dedicação, a profissional viu seu trabalho ser reconhecido ao longo de sua carreira e este ano recebeu o Prêmio Personalidade do Ano em Comunicação Empresarial da região Norte Nordeste da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial), que receberá na próxima quarta-feira (8), em São Paulo capital.

Portal IMPRENSA - Como você entrou para o mundo da comunicação?
Cleide Pinheiro - O desejo nasceu ainda na infância. Naquele tempo o único veículo de comunicação que alcançava nossa comunidade era o rádio. Quando chegava da escola, passava o resto do dia com o ouvido grudado no aparelho, primeiro na casa do vizinho, depois ganhei um do meu pai -daqueles antigos, de madeira - até o dia que o destruí em busca do locutor que achava estar escondido lá dentro (risos). Achava tudo curioso e muito mágico, pois foi assim que descobri a música, as histórias infantis e me apaixonei pelo mundo das comunicações. Aos 17 anos e nenhuma experiência comecei no jornalismo. Fui aceita num teste para repórter da TV Tapajós, afiliada Rede Globo, em Santarém. Acreditava que logo depois conseguiria um emprego na emissora de rádio do mesmo dono da TV. Mas gostei tanto do telejornalismo que desisti de tentar rádio.

Portal IMPRENSA - Você atuou como repórter de TV nas principais emissoras da capital paraense. Como aconteceu essa transição de repórter de rua para comunicadora da área empresarial?
Cleide -
Confesso que foi por pura necessidade. Como vivia do salário que ganhava, um dia me vi ameaçada de perder o emprego. Esse foi o ponto de partida para a aventura de criar a empresa sem um tostão no bolso. Em 1997, apostei tudo numa oportunidade: um dia me perguntaram se eu sabia fazer um vídeo institucional e respondi de pronto que sabia, embora nunca tivesse feito antes. O resultado me deu a coragem de ir em frente e, pouco tempo depois, já trabalhando na TV Liberal, resolvi abrir uma agência de comunicação empresarial. Nascia a Temple, um nome difícil de pronunciar, mas que me veio num sonho, quando eu me vi desenhando as seis letras num talão de cheques. E em sonhos assim a gente sempre tem que acreditar, não é (risos)? A Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) foi nosso primeiro cliente e permanece conosco até hoje. Lá conheci minhas sócias. Cada real que ganhávamos no trabalho era investido em compra de equipamentos e no escritório.

Portal IMPRENSA - Do que você sente mais falta dos tempos em que atuava como repórter?
Cleide -
As duas atividades são realmente muito distintas. Gosto muito de ambas. Na reportagem, a correria para cumprir o dead line me fez gostar (acredite!) de trabalhar sempre na pressão (risos). Do feedback das ruas e das reportagens bem produzidas, que dava gosto de ver e rever. Das transmissões ao vivo como Círio de Nazaré [festa religiosa paraense que acontece sempre no segundo domingo de outubro] e das coberturas jornalísticas do período eleitoral. Claro, quando vejo um assunto curioso ou impactante gostaria de estar na redação e poder contar essa história.

Portal IMPRENSA - Você se lembra de algum fato inusitado que tenha marcado sua carreira?
Cleide -
Na televisão, principalmente nas transmissões ao vivo, você está exposto a situações das mais diversas. Uma das mais engraçadas aconteceu numa transmissão do Círio de Nazaré. Enquanto narrava a passagem dos romeiros na corda, levei um baita choque elétrico. Por sorte, eu não estava enquadrada na câmera que mostrava a cena; só a equipe técnica, meu produtor e algumas pessoas que estavam atentas assistiram à minha cara de pânico enquanto tentava me livrar do microfone.

Portal IMPRENSA - Como fundadora de uma empresa de comunicação da Amazônia, como você avalia as notícias da região que ganham destaque nacional? Essa imagem divulgada na mídia condiz com a realidade local?
Cleide -
Já virou jargão jornalístico que "notícia boa é notícia ruim". É quase uma regra geral e, como fui repórter durante muito tempo, entendo que nem sempre as boas notícias têm o apelo necessário para ganhar destaque na cobertura nacional. E como, infelizmente, a região tem grandes desafios a combater, como desmatamento, questões agrárias, trabalho escravo e muitos outros assuntos desagradáveis, não tem como tirá-los da pauta da imprensa. Nesse cenário, entra também o olhar caricato que a mídia nacional ainda tem a respeito da região. O desconhecimento da realidade local, as peculiaridades e as grandes diferenças regionais dentro de diferentes locais da Amazônia me preocupam muito mais na cobertura jornalística.

Portal IMPRENSA - As notícias que são produzidas na própria região dão conta de demonstrar toda a diversidade sócio-cultural existente na Amazônia?
Cleide -
Ainda não. São nove estados que formam a Amazônia Legal e isso também é um desafio gigantesco. Os investimentos na área são mais reduzidos e, claro, impactam na produção jornalística. Mas os programas nos canais a cabo, a concorrência na TV aberta e o aumento do número de emissoras de rádio, creio que podem dar uma força para que o dever de casa seja melhorado.

Portal IMPRENSA - Você foi eleita Personalidade do Ano em Comunicação Empresarial da região Norte Nordeste da Aberje. A que você atribui esse reconhecimento?
Cleide -
Segundo a própria Aberje, mais uma vez, o critério principal de julgamento foi o recurso às boas práticas e o incentivo à Comunicação Corporativa. Mas eu recebi, sinceramente, como um reconhecimento do trabalho de uma equipe afinada, que gosta muito do que faz e tem de fato se destacado na região. E este ano é especial para a Temple, pois completamos dez anos e temos feito todos os esforços para nos tornarmos mais estratégicos, com investimentos importantes em planejamento. Queremos pensar, cada vez mais, a comunicação integrada e suas aplicações totalmente adaptadas ao cenário regional.

Portal IMPRENSA - Como se desenha o cenário da comunicação empresarial na Amazônia?
Cleide - Acho que as competências da comunicação não estão mais tão distantes entre o Norte e o Sul. O nosso mercado cresceu bastante nesses últimos cinco anos. Houve uma mudança real. Primeiro, instituições e empresas vêm adquirindo maturidade sobre a importância da comunicação na estratégia do negócio e essa postura valorizou a atividade. Além disso, houve uma busca pela profissionalização da área. Mas é claro que as distâncias geográficas da Amazônia demandam soluções e uma logística pouco comum para os centros urbanos. Na Amazônia, o rádio é aliado estratégico. A comunicação face a face tem muito valor, e tudo isso deve ser considerado. A logística no atendimento é muito mais complexa; muitas vezes centenas de quilômetros separam empregados da mesma companhia. Além disso, fazer comunicação em cidades diferentes é enfrentar culturas diferentes, ainda mais aqui no Norte, onde cada região tem um forte vínculo com sua terra de origem. Por isso, a comunicação na Amazônia tem que considerar vetores culturais e valores sociais importantes para ser, de fato, percebida pelo amazônida.