Menos igreja, mais striptease

Menos igreja, mais striptease

Atualizado em 16/03/2009 às 12:03, por Rodrigo Manzano.

Enquanto os jornais acreditarem que podem emitir juízo sobre a igreja, a igreja nunca nos deixará viver livremente nossas vidas. Durante dias, temos assistido a um estéril debate sobre a excomunhão dos médicos e da mãe da menina de nove anos que, estuprada pelo padrasto, esperava dois filhos e submeteu-se a uma cirurgia abortiva, respaldada pela lei. Ainda horrorizados, ouvimos o religioso argumentar que a excomunhão é legítima e que o aborto é mais grave que o estupro, por isso a punição aos médicos e não ao padrasto, autor da barbárie. Então, de repente todos nós nos sentimos um pouco versados nos assuntos de Deus. E, debaixo do nojo, nada nos resta a fazer quando o real se sobrepõe assim, dessa maneira.

O que nós não entendemos é que os jornais não deveriam tratar dos assuntos de Deus e da igreja. A igreja tem o direito de tomar as decisões respaldadas pelas suas crenças, pelos seus códigos, pelos seus ideais. Esse é um assunto dos religiosos e a relação que estabelece com os seus fiéis não nos compete. A religião deve ser objeto de debate público apenas quando ela mesma infringe a lei, o que não é o caso. A igreja não deseja mais comungar com os médicos. Está bem.

O problema é que quanto mais falamos da igreja, mas ela se sente apta a tratar sobre nós, nosso comportamento e, sobretudo, palpitar nos assuntos em que não foi chamada. A igreja não deve ser convidada para sentar à mesa com o Estado. Nem a Católica Romana, nem nenhuma outra. Não deveria haver cadeira para religiosos nos assuntos de governo, nos debates públicos. Nem os cristãos, nem os budistas, nem os muçulmanos, nem os judeus, nem os macumbeiros. Nenhum deles tem nada a contribuir na arena pública. Quem convidou os católicos a definir, em nome do Estado, o que é a vida, quando começa e quando termina? Os evangélicos também não podem se sentar na sala de estar e definir o conceito de família para nós. Eu não quero saber a opinião deles sobre os desígnios de deus para a humanidade. Nenhum budista tente me convencer que o consumo de carne não é auspicioso e, sobretudo, impedir a produção de hambúrgueres. No Brasil, o Estado Laico é uma piada. Não é possível mandar calar os religiosos quando as prefeituras, as repartições públicas, os tribunais e as câmaras de deputados e vereadores ostentam uma cruz sobre as cabeças dos nossos servidores e políticos. E não adianta tirar a cruz da parede. É preciso tirar a cruz da mente do Estado.

Assim como os muçulmanos não nos podem obrigar a abandonar o álcool, os judeus não têm o direito de nos impor kosher, os budistas não poderiam restringir a carne e os evangélicos, o sexo antes do casamento, os católicos não têm porque dizer ao Estado sob que princípios as leis devem ser feitas. E para que eles não se assentem mais em nossas mesas públicas, um bom começo é que nós, jornalistas, não os repercutamos mais. Em casos como o do bispo pernambucano, o que o bispo merece é o absoluto silêncio da mídia, o que ele quer mesmo é aparecer tanto quanto um destaque de escola de samba, rebolando sobre nossos princípios laicos e democráticos. Também não precisamos mais de religiosos, de nenhuma confissão, como fontes e matérias sobre células tronco, homossexualidade, eutanásia, aborto, divórcio etc. Apaguem das agendas os telefones de padres, bispos, pastores, reverendos, monges, xeiques, rabinos. Deixem que eles cuidem dos negócios dos deuses. Enquanto nós cuidamos das coisas dos homens. Está bem assim?

PS . A capa de março da Revista IMPRENSA trata da Igreja Católica. Mas apenas porque, ao invadir os espaços de comunicação, faz uso de concessões públicas. Está aí um tema sobre o qual ninguém quer falar. Por que tanta religião na TV e no rádio? Melhor seriam aulas de striptease.