"Memória e a verdade unem a história ao jornalismo", diz autor de livro sobre o DOI-Codi

"A Casa da Vovó", do jornalista Marcelo Godoy, revela os segredos das práticas de tortura dos militares durante a ditadura.

Atualizado em 29/12/2014 às 17:12, por Lucas Carvalho* e Alana Rodrigues*.

Muitos membros da luta armada que desafiou a ditadura militar no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970 tiveram medo do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna do governo – o DOI-Codi. Criado como um órgão de inteligência e repressão do regime, foi em instalações como a da Rua Tutóia, na zona sul de São Paulo, que as mais inimagináveis práticas de tortura foram utilizadas contra os dissidentes.
Crédito:Reprodução Marcelo Godoy pesquisou sobre o centro de torturas durante dez anos
Desativadas oficialmente em 1985, as unidades do DOI-Codi ainda hoje lembram dos tempos da repressão à liberdade civil e de expressão no Brasil. Quase 30 anos depois, o jornalista Marcelo Godoy, repórter do O Estado de S.Paulo , decidiu recontar a história do local que viu a morte de Vladimir Herzog e foi palco para a tortura da Presidente da República, Dilma Rousseff, e da jornalista e comentarista da Globo, Miriam Leitão.
“A Casa da Vovó” conta, em 612 páginas de entrevistas e transcrições de documentos oficiais, os segredos de militares que atuaram nos centros de repressão do governo. “’A Casa da Vovó’ nasceu de um dos apelidos que os agentes usavam para designar o DOI. Chamavam o lugar de ‘A Casa da Vovó’. Diziam que 'lá é que era bom’. Desde então tive a certeza de que essa antinomia devia ser o título”, conta o autor.
“A pesquisa nasceu de duas premissas: a primeira era a pesquisa histórica que estava ao alcance de nós, jornalistas. A segunda era que eu pensava que o papel do Exército e da Polícia Civil (Dops) já haviam sido estudados durante o regime militar. Faltava a Polícia Militar. Comecei a estudá-la e, por meio dela, cheguei aos policiais militares que trabalharam no DOI. E aí foram se sucedendo as entrevistas, de tal modo que percebi que tinha uma nova pesquisa: sobre o DOI”, continua Godoy.
Todo o trabalho de desenvolvimento do livro durou dez anos, segundo o jornalista. “No começo, a maioria das entrevistas. Depois, a pesquisa documental e o cruzamento de informações e novas entrevistas”, revela. Entre tudo isso, porém, ele admite que sua principal dificuldade foi conseguir falar com pessoas diretamente envolvidas nas rotinas de torturas de presos políticos.
“O maior desafio foi fazer falar quem não deseja”, afirma Godoy. “Nem sempre os métodos foram os da história oral. Foram os do jornalista que busca fazer falar até quem não quer. E vencer as resistências de um grupo, principalmente quando o chefe deles, o coronel Brilhante Ustra, pedia aos subordinados para não dar entrevista, não falar comigo.”
Crédito:Divulgação Livro retrata a violência da ditadura contra a oposição
Ao todo, o jornalista conseguiu o relato de mais de 25 agentes da antiga “Casa da Vovó”. O livro descreve a morte de 66 pessoas presas pelo DOI, dentre as quais 39 foram sob tortura. Foi também através desse sistema de repressão que a ditadura conseguiu desmantelar grupos guerrilheiros “terroristas”, como o Movimento de Libertação Popular (Molipo) e a Ação Libertadora Nacional (ALN).
Entre tantos relatos, um dos que mais chamou a atenção do autor foi o da morte de Antonio Benetazzo, integrante do Molipo. Aos 31 anos, o líder estudantil e artista plástico nascido na Itália foi apedrejado por militares, de modo que sua morte pudesse ser disfarçada como um atropelamento. “Mas acho um exercício inútil discutir qual relato é mais cruel ou terrível”, pondera Godoy.
Para o jornalista, uma nação precisa reconhecer seu passado para que possa avançar rumo ao futuro. Por isso, livros como “A Casa do Vovó” e tantos outros sobre a ditadura militar são muito importantes para manter fresca a memória do brasileiro. “A memória coletiva deve servir como instrumento de libertação, não de servidão. Quem diz isso é Jacques Le Goff, e eu concordo. Penso que a memória e a verdade são dois grandes ideais que unem a história ao jornalismo. Ser justo com o que há de pior e melhor nos homens, pensar que compreender não significa aceitar e o ânimo de quem busca narrar uma história foi o que me moveu durante a pesquisa e cada linha desse livro.”
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves