Meios de comunicação redobram cuidado com conteúdos colaborativos na web
A soma da obsessão por notícias 24 horas e a atualização incessante de mídias sociais nos últimos anos têm explicitado o que há de pior na prática jornalística.
Atualizado em 04/07/2014 às 13:07, por
Rodrigo Álvares.
Entretanto, além dos protestos e crises mundo afora, resta a reflexão: até que ponto é prudente as redações se deixarem ser pautadas por alguém que pode, simplesmente, estar mentindo?
No final de maio, a ombudsman do jornal The New York Times, Margareth Sullivan, escreveu sobre o assunto em sua coluna. “Com a importância cada vez maior do vídeo (tanto para o valor da notícia quanto como fonte de receita publicitária), dos inúmeros lugares de onde se originam e da velocidade das notícias, as probabilidades de um registro perfeito são baixas”, explicou. O gancho para o texto de Sullivan foi o episódio envolvendo Adam Nossiter, chefe da sucursal do jornal para a África Central e Ocidental, com o primeiro vídeo das 200 meninas sequestradas pela guerrilha Boko Haram, na Nigéria.
Crédito:Divulgação Altair Nobre é jornalista e professor do Programa Avançado em Jornalismo Digital do IICS A situação angustiante que mostrava o sequestro de mais de 200 meninas por extremistas islâmicos chamou a atenção de pessoas pelo mundo todo. Parecia ser a primeira prova de que, pelo menos algumas das garotas, ainda estavam vivas. A matéria inicial de Nossiter incluía uma linguagem de questionamentos. O segundo parágrafo começava com as palavras: “Se verdadeiro”.
Um parente das meninas localizado em Chibok, vilarejo onde elas foram sequestradas no mês passado, disse que ninguém assistira ao vídeo, e Nossiter escreveu: “Porque não há energia elétrica, muito menos acesso à internet”. No dia seguinte, ele divulgou que o vídeo fora mostrado a alguns parentes por autoridades do governo nigeriano e eles haviam identificado suas filhas, diminuindo as dúvidas sobre a autenticidade do material.
O The New York Times é cliente de uma organização jornalística chamada Storyful, que tem como uma de suas especialidades verificar a autenticidade de vídeos de várias maneiras – entre elas, tentar obter a versão original e entrar em contato com a pessoa que o gravou.
Mídia social Fundada em 2008 em Dublin, na Irlanda, a Storyful é especializada em encontrar estas informações. A empresa verifica a veracidade dos fatos e vende o conteúdo a veículos de comunicação, entre os clientes, estão: Reuters, BBC e Guardian, além do The New York Times . Para a editora-chefe digital do jornal Zero Hora, Bárbara Nickel, o serviço garante um excelente apoio ao trabalho das redações.
“O que acho mais interessante é que eles divulgam os conteúdos com o status de apuração bem identificada: ainda não checamos/já checamos/já checamos e temos o telefone do autor para entrevistas. Muitas vezes, os veículos divulgam conteúdos vistos nas redes sem um tratamento jornalístico”, explica.
O Storyful também presta consultoria a redações e Organizações Não-Governamentais (ONGs). Os profissionais vão às empresas e mostram as ferramentas que usam, além de discutir as melhores práticas para a verificação de conteúdo advindo das mídias sociais.
Mesmo assim, há um compartilhamento natural entre as organizações – mesmo as que já possuem seu próprio time de verificadores. É o que garante Malachi Browne, editor de notícias do serviço. “O que você encontra são os usuários das mídias sociais colaborando entre si, seja no Twitter, Facebook etc. Grupos como ONGs, freelancers e repórteres em zonas de guerra estão sempre trocando informações, dicas, equipamentos, o melhor lugar para se esconder. Mas, nas redações tradicionais, isso não acontece”, afirma.
Prontos para explodir No Brasil, o ritmo incessante de trabalho e a falta de recursos tornam os jornais verdadeiras bombas-relógio à espera de uma retratação. Para Altair Nobre, jornalista e professor do Programa Avançado em Jornalismo Digital, do Instituto Internacional de Ciências Sociais, em São Paulo (SP), esta é uma realidade próxima.
Para ele, a ânsia por uma publicação cada vez mais acelerada conduz a uma simplificação do trabalho jornalístico, o que acaba por limitar a capacidade de captar e verificar o fluxo de notícias. “Esse contexto produz um movimento que não é uma espiral, porque espiral é plana. Produz, sim, um movimento helicoidal, para baixo. É um círculo vicioso, que vai devorando o jornalismo”, explica.
Recentemente, a Shutterstock – agência de bancos de imagens – fez uma pesquisa sobre os números por trás do crescimento do consumo de vídeos on-line. Algumas estatísticas surpreenderam. Por exemplo: 86% dos usuários brasileiros assistiram a mais de 11 bilhões de vídeos apenas no início de 2014, totalizando mais de 11 horas por pessoa no mês de janeiro. Os dados foram obtidos por meio da ferramenta Video Metrix, da comScore.
Conteúdo que importa Em um país onde a venda de smartphones atingiu recorde de 35,6 milhões de unidades no Brasil em 2013, os números não surpreendem. Depois dos protestos de junho daquele ano, as empresas ainda procuram aprender a acelerar os fluxos de seu conteúdo pelos canais de distribuição para aumentar e manter seus públicos.
“Facilitar o fluxo do conteúdo é importante, mas mais valioso é produzir conteúdo importante. Que valha a pena. Não adianta nada eu ser rápido em disseminar uma matéria se é praticamente a mesma que estará em todos os milhares de concorrentes”, explica Altair Nobre.
Barbara Nickel conta que os mecanismos de verificação de fotos e vídeos são feitos com cuidado pela sua equipe. Ela explica que, quando eles recebem uma imagem ou vídeo que não parece confiável, utilizam o arquivo do Google Images e, em último caso, contatam um especialista. “Tivemos o caso de um leitor enviar a foto de um eclipse. Ela foi publicada, saiu no Facebook e logo começaram a nos avisar que ela era falsa. Isso nos deixou mais atentos com o que recebemos”, diz.
Nobre destaca que é preciso também conhecer as ferramentas e técnicas disponíveis para avaliar imagens que transitam pela internet e por redes sociais, como a TinEye (para conferir fotos). “Vale a pena entrar no blog da Storyful. Eles descrevem o caminho das pedras e as técnicas que desenvolveram”. Questionado se as empresas brasileiras deveriam começar a explorar esse terreno, Nobre finaliza: “Sim. Há uma oportunidade de mercado à espera de quem se habilite”. Cruze a referência • Use o Google Maps e imagens de satélite para verificar a localização de um vídeo e encontrar pontos de referência idênticos. • Confira a previsão do tempo e outros vídeos enviados no mesmo dia na região. • Certifique-se da originalidade. • Para evitar compartilhar um vídeo antigo que foi enviado de novo, verifique o identificador único do vídeo. • Use TinEye e a pesquisa de imagem invertida no Google para garantir que as imagens não foram utilizadas em outros lugares. • Fale com a fonte. • O Storyful usa um roteiro padrão para pedir autorização a usuários de redes sociais pelo uso de seu conteúdo por parte de veículos de notícias. • Não deixe a plataforma seduzi-lo.
No final de maio, a ombudsman do jornal The New York Times, Margareth Sullivan, escreveu sobre o assunto em sua coluna. “Com a importância cada vez maior do vídeo (tanto para o valor da notícia quanto como fonte de receita publicitária), dos inúmeros lugares de onde se originam e da velocidade das notícias, as probabilidades de um registro perfeito são baixas”, explicou. O gancho para o texto de Sullivan foi o episódio envolvendo Adam Nossiter, chefe da sucursal do jornal para a África Central e Ocidental, com o primeiro vídeo das 200 meninas sequestradas pela guerrilha Boko Haram, na Nigéria.
Crédito:Divulgação Altair Nobre é jornalista e professor do Programa Avançado em Jornalismo Digital do IICS A situação angustiante que mostrava o sequestro de mais de 200 meninas por extremistas islâmicos chamou a atenção de pessoas pelo mundo todo. Parecia ser a primeira prova de que, pelo menos algumas das garotas, ainda estavam vivas. A matéria inicial de Nossiter incluía uma linguagem de questionamentos. O segundo parágrafo começava com as palavras: “Se verdadeiro”.
Um parente das meninas localizado em Chibok, vilarejo onde elas foram sequestradas no mês passado, disse que ninguém assistira ao vídeo, e Nossiter escreveu: “Porque não há energia elétrica, muito menos acesso à internet”. No dia seguinte, ele divulgou que o vídeo fora mostrado a alguns parentes por autoridades do governo nigeriano e eles haviam identificado suas filhas, diminuindo as dúvidas sobre a autenticidade do material.
O The New York Times é cliente de uma organização jornalística chamada Storyful, que tem como uma de suas especialidades verificar a autenticidade de vídeos de várias maneiras – entre elas, tentar obter a versão original e entrar em contato com a pessoa que o gravou.
Mídia social Fundada em 2008 em Dublin, na Irlanda, a Storyful é especializada em encontrar estas informações. A empresa verifica a veracidade dos fatos e vende o conteúdo a veículos de comunicação, entre os clientes, estão: Reuters, BBC e Guardian, além do The New York Times . Para a editora-chefe digital do jornal Zero Hora, Bárbara Nickel, o serviço garante um excelente apoio ao trabalho das redações.
“O que acho mais interessante é que eles divulgam os conteúdos com o status de apuração bem identificada: ainda não checamos/já checamos/já checamos e temos o telefone do autor para entrevistas. Muitas vezes, os veículos divulgam conteúdos vistos nas redes sem um tratamento jornalístico”, explica.
O Storyful também presta consultoria a redações e Organizações Não-Governamentais (ONGs). Os profissionais vão às empresas e mostram as ferramentas que usam, além de discutir as melhores práticas para a verificação de conteúdo advindo das mídias sociais.
Mesmo assim, há um compartilhamento natural entre as organizações – mesmo as que já possuem seu próprio time de verificadores. É o que garante Malachi Browne, editor de notícias do serviço. “O que você encontra são os usuários das mídias sociais colaborando entre si, seja no Twitter, Facebook etc. Grupos como ONGs, freelancers e repórteres em zonas de guerra estão sempre trocando informações, dicas, equipamentos, o melhor lugar para se esconder. Mas, nas redações tradicionais, isso não acontece”, afirma.
Prontos para explodir No Brasil, o ritmo incessante de trabalho e a falta de recursos tornam os jornais verdadeiras bombas-relógio à espera de uma retratação. Para Altair Nobre, jornalista e professor do Programa Avançado em Jornalismo Digital, do Instituto Internacional de Ciências Sociais, em São Paulo (SP), esta é uma realidade próxima.
Para ele, a ânsia por uma publicação cada vez mais acelerada conduz a uma simplificação do trabalho jornalístico, o que acaba por limitar a capacidade de captar e verificar o fluxo de notícias. “Esse contexto produz um movimento que não é uma espiral, porque espiral é plana. Produz, sim, um movimento helicoidal, para baixo. É um círculo vicioso, que vai devorando o jornalismo”, explica.
Recentemente, a Shutterstock – agência de bancos de imagens – fez uma pesquisa sobre os números por trás do crescimento do consumo de vídeos on-line. Algumas estatísticas surpreenderam. Por exemplo: 86% dos usuários brasileiros assistiram a mais de 11 bilhões de vídeos apenas no início de 2014, totalizando mais de 11 horas por pessoa no mês de janeiro. Os dados foram obtidos por meio da ferramenta Video Metrix, da comScore.
Conteúdo que importa Em um país onde a venda de smartphones atingiu recorde de 35,6 milhões de unidades no Brasil em 2013, os números não surpreendem. Depois dos protestos de junho daquele ano, as empresas ainda procuram aprender a acelerar os fluxos de seu conteúdo pelos canais de distribuição para aumentar e manter seus públicos.
“Facilitar o fluxo do conteúdo é importante, mas mais valioso é produzir conteúdo importante. Que valha a pena. Não adianta nada eu ser rápido em disseminar uma matéria se é praticamente a mesma que estará em todos os milhares de concorrentes”, explica Altair Nobre.
Barbara Nickel conta que os mecanismos de verificação de fotos e vídeos são feitos com cuidado pela sua equipe. Ela explica que, quando eles recebem uma imagem ou vídeo que não parece confiável, utilizam o arquivo do Google Images e, em último caso, contatam um especialista. “Tivemos o caso de um leitor enviar a foto de um eclipse. Ela foi publicada, saiu no Facebook e logo começaram a nos avisar que ela era falsa. Isso nos deixou mais atentos com o que recebemos”, diz.
Nobre destaca que é preciso também conhecer as ferramentas e técnicas disponíveis para avaliar imagens que transitam pela internet e por redes sociais, como a TinEye (para conferir fotos). “Vale a pena entrar no blog da Storyful. Eles descrevem o caminho das pedras e as técnicas que desenvolveram”. Questionado se as empresas brasileiras deveriam começar a explorar esse terreno, Nobre finaliza: “Sim. Há uma oportunidade de mercado à espera de quem se habilite”. Cruze a referência • Use o Google Maps e imagens de satélite para verificar a localização de um vídeo e encontrar pontos de referência idênticos. • Confira a previsão do tempo e outros vídeos enviados no mesmo dia na região. • Certifique-se da originalidade. • Para evitar compartilhar um vídeo antigo que foi enviado de novo, verifique o identificador único do vídeo. • Use TinEye e a pesquisa de imagem invertida no Google para garantir que as imagens não foram utilizadas em outros lugares. • Fale com a fonte. • O Storyful usa um roteiro padrão para pedir autorização a usuários de redes sociais pelo uso de seu conteúdo por parte de veículos de notícias. • Não deixe a plataforma seduzi-lo.





