“Me manter longe do Brasil era um grande negócio para a Globo", diz Mirian Dutra

Em entrevista ao jornalista Joaquim Carvalho, do Diário do Centro Mundo (DCM), a jornalista Mirian Dutra, que manteve um relacionamento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, deu detalhes de um acordo entre o político e a Globo para que ela não atrapalhasse o projeto de reeleição dele.

Atualizado em 22/02/2016 às 09:02, por Redação Portal IMPRENSA.

do Diário do Centro Mundo (DCM), a jornalista , que manteve um relacionamento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, deu detalhes de um acordo entre o político e a Globo para que ela não atrapalhasse o projeto de reeleição dele.
Crédito:Reprodução do Twitter/Agência Brasil Jornalista alega que ex-presidente e Globo impediram sua volta ao Brasil
“Me manter longe do Brasil era um grande negócio para a Globo. Minha imagem na TV era propaganda subliminar contra Fernando Henrique e isso prejudicaria o projeto da reeleição", declarou. Segundo a jornalista, a emissora manteve seu contrato para ser beneficiada em negócios com o BNDES. "Financiamentos a juro baixo, e não foram poucos", ressaltou.
Mirian revelou também que teria sido forçada por FHC a dizer, em entrevista à Veja , que estava grávida de um biólogo. Na edição de 24 de julho de 1991, a publicação escreveu: "O pai da criança, um biólogo brasileiro, viajou para a Inglaterra para fazer um curso e voltará para o Brasil na época do nascimento do bebê."
De acordo com ela, Paulo Moreira Leite, na época um dos editores executivos de Veja , disse que a ordem para apurar e publicar a nota havia sido de Mario Sergio Conti, que assumiu pouco tempo antes a direção de redação da revista. "Foi uma armação do Fernando Henrique com o Mario Sergio."
Após o nascimento de Tomás Dutra Schmidt, suposto filho de FHC, Mirian perdeu espaço na Globo. Ela decidiu ir para Portugal. Lá, conseguiu emprego numa emissora da qual Roberto Marinho era sócio. A jornalista afirma que sua saída do Brasil foi um autoexílio e que o diretor de jornalismo da Globo à época, Alberico de Souza Cruz, padrinho do seu filho, a ajudou a deixar o país.
"Eu gosto muito do Alberico, e ele dizia que me ajudou porque me respeitava profissionalmente. Éramos amigos, conhecíamos segredos um do outro, mas eu fiquei surpresa quando, mais tarde, no governo de Fernando Henrique, ele ganhou a concessão de uma TV em Minas. Será que foi retribuição pelo bem que fez ao Fernando Henrique por me ajudar a sair do Brasil?", questionou.
Mirian falou ainda de sua irmã, a quem chama de "cunhadinha do Brasil" e sugere que ela também se beneficiou da relação com FHC. "Por que a imprensa não vai atrás dessas informações? A minha irmã, funcionária pública sem nenhuma expressão, tem um patrimônio muito grande. Só o terreno dela em Troncoso vale mais de 1 milhão de reais."
Quando retornou ao Brasil, a jornalista teria tido uma conversa com Carlos de Andrade, sucessor de Alberico na direção de jornalismo, e disse que ou voltaria para o Brasil, ou pediria demissão. "O Evandro disse, na frente do Schroeder e do Erlanger [Luís Erlanger, que dividia com Schroeder as funções de número 2 no jornalismo]: "Ninguém mexe com essa mulher. Ela mostrou que tem caráter."
Após saber de suas intenções, Luís Eduardo Magalhães, que foi presidente da Câmara dos Deputados e líder de Fernando Henrique no Congresso, a convidou para um almoço. No dia do encontro, ele levou o pai, o senador Antônio Carlos Magalhães. Ambos disseram que não era hora de voltar, que Fernando Henrique disputaria a reeleição e ela deveria ter paciência.
"Foi quando entendi que eu deveria viver numa espécie clandestinidade. Se eu voltasse, não seria bem recebida e as portas se fechariam para mim", contou. Mirian, então, decidiu comprar um apartamento em Barcelona e ir para lá, como contratada da Globo.
A emissora teria ainda entrado em contato com Mirian para perguntar quem era o representante da Globo no almoço que mencionou. “Sabe o que respondi para ele? Você acha que eu vou contar para você? Acho que o microfone estava aberto e, se eu conheço a Globo, o Ali Kamel [diretor de jornalismo] estava ouvindo a conversa. O Boni disse: mas a Globo sempre foi muito correta com você. Disse que ele era cínico e falei outras coisas pesadas. Fui bem malcriada, e desliguei o telefone. A secretária do Boni me ligou várias vezes, e eu não atendi”, contou.
Horas depois, o "Jornal Hoje" repercutiu a entrevista que Mirian deu à Folha de S.Paulo na semana passada e, no final, o apresentador leu a nota:“Durante os anos em que colaborou com a TV Globo, Miriam Dutra sempre cumpriu suas tarefas com competência e profissionalismo.”