“Maturidade versus etarismo”, por Roberta Lippi
Em um piscar de olhos, profissionais experientes ganham o chapéu de descartáveis, facilmente substituíveis por alguém mais jovem.
Opinião
Nunca me esqueço do dia, muitos anos atrás, em que uma ex-chefe relações públicas me disse o quanto a idade estava impactando em sua carreira e empregabilidade depois que ela completou 50 anos. “De repente, me tornei um peso no mercado de trabalho. Fiz muitas entrevistas, mas as portas de uma hora para outra se fecharam e não consigo de forma alguma me recolocar”, me relatou ela à época.
Mais recentemente, ouvi a mesma reclamação de outras duas amigas, uma jornalista e outra que atua na área de marketing. Em um piscar de olhos, profissionais experientes ganham o chapéu de descartáveis, facilmente substituíveis por alguém mais jovem e “mais barato”. Empregadores descartam desses currículos características como agilidade, capacidade de inovação e ousadia.
Ageísmo, etarismo e idadismo são termos que representam esse preconceito com as pessoas mais velhas, em especial depois dos 50 anos – tema este que, felizmente, vem ganhando maior espaço de debate nos últimos anos. Tal discriminação, segundo especialistas no assunto, resulta dos valores típicos de uma sociedade de consumo que enaltece o jovem, o novo, o descartável.
Mas a reversão desse cenário é inevitável. Nossa população está envelhecendo e o perfil do mercado de trabalho terá de se adaptar a uma nova realidade. Estudos já mostram que, daqui a 20 anos, quase 60% da força de trabalho no Brasil terá acima de 45 anos.
Dentro das organizações, o debate sobre diversidade está em alta e a cobrança do mercado é grande para que elas se adaptem. Mas o foco da discussão e das ações ainda tem sido gênero, raça e orientação sexual – todos, obviamente, mais do que urgentes e necessários. Ainda são raras aquelas empresas que incluem idade na sua pauta de diversidade e tem ações efetivas de inclusão nesse sentido.
Algumas boas iniciativas têm ajudado a unir as vagas para pessoas mais maduras com profissionais interessados. Também tenho visto algumas mulheres formadoras de opinião se posicionando nesse debate e provocando a sociedade a refletir em torno do tema. Espero que essas iniciativas ganhem corpo e se multipliquem, porque ainda há muito a ser feito.
Temos ainda barreiras culturais arraigadas em nosso modelo social que precisam ser ultrapassadas, é fato, mas já passou da hora de quebrarmos esses tabus. E vamos combinar que não é necessário explicar o valor de um profissional que carrega na mala maturidade de vida e décadas de experiência profissional.
* é sócia da Brunswick Group, consultoria internacional de comunicação estratégica. Jornalista com pós-graduação em gestão empresarial pelo Insper e especialização em comunicação internacional pela Universidade de Syracuse/Aberje, tem 25 anos de experiência na área de comunicação, com foco em posicionamento corporativo, mídia, crises, comunicação interna e treinamento de executivos. É membro desde 2015 do Programa Diversidade em Conselho, iniciativa de B3, IBGC, IFC, Spencer Stuart e WCD para ampliar a diversidade em conselhos de administração.





