“Mantras sociais – O que as palavras revelam”, por Flavio Ferrari
Observar sinais fracos é um vício profissional para quem trabalha com cenários futuros.
Opinião
Pequenas dissonâncias cognitivas, repetições de padrões ou mudanças de vocabulário são alguns desses sinais.
O recente crescimento do uso da palavra “potente” pelos descolados, qualificando tudo que confere força às suas causas (incluindo pessoas eleitas), é um desses sinais. Minha hipótese é a de que represente uma evolução para a ideia de “empoderamento”, expressão que se popularizou nos últimos anos como representação de movimentos de emancipação individual das pessoas oprimidas, marginalizadas ou excluídas.
Subliminarmente, empoderamento remete a receber poder de alguma autoridade maior que possa conferi-lo. O amadurecimento da posição de desejo de empoderamento é a busca da autonomia, a transição da posição de vítima para a de protagonista, de “impotente” (dependente) para “potente” (autônomo). Psicologia positiva.
Menos difundida, mas já ganhando algum espaço na mídia, surge a expressão “net positivo”, significando que a totalidade de um conjunto de ações de um agente deixa um saldo positivo que merece ser considerado.
Parece pouco, mas o uso dessa expressão indica um afrouxamento da polarização radical, do maniqueísmo, da dualística disputa entre o bem e o mal com a qual flertamos nos últimos dois milênios, e que se acentuou no início deste século. Pode ser uma boa notícia para uma sociedade que precisa curar-se e voltar a conviver com a diversidade de pensamentos.
É uma expressão mais fácil de acolher e digerir do que ESG, e não requer qualquer esforço do impactado, além de uma mudança de perspectiva, em direção à tolerância. Nesses exemplos, temos dois bons sinais fracos, apontando para melhores possibilidades futuras.
Não devemos ignorar o poder da repetição das expressões, principalmente pelo jornalismo formal, para a sedimentação de ideologias. Quando a mídia é pautada para repetir expressões como “esforço comum” (PAC) e “reconstrução do Brasil” (Marcha das Margaridas) com nesta semana, os objetivos são óbvios, mas não é incomum que isso aconteça de forma subliminar e orgânica, o que deveria aguçar a curiosidade jornalística: por que o uso dessa palavra está se multiplicando; qual é o significado disso e quais serão as consequências?
A repetição de palavras é transformadora. Não foi por acaso que os orientais criaram os mantras.
* é Professor na ESPM e Sócio da SocialData





