Manipulação das redes sociais por líderes populistas é tema de livro de Patrícia Campos Mello
Repórter especial da Folha de S.Paulo, Patrícia Campos Mello concedeu a entrevista a seguir ao Portal IMPRENSA poucos dias após receber o prêmio Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia (EUA), por seu trabalho como repórter.
Atualizado em 29/07/2020 às 17:07, por
Leandro Haberli.
Ao longo de mais de 20 anos de carreira, ela realizou grandes coberturas, como a guerra do Afeganistão e a epidemia do Ebola em Serra Leoa.
O tema principal da entrevista, porém, foi o lançamento, neste mês de julho, pela Companhia das Letras, de seu livro “A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital". Crédito:Reprodução
Baseada na cobertura que a jornalista realizou de eleições presidenciais em três países (Brasil, Estados Unidos e Índia), a obra busca dissecar o funcionamento das campanhas virtuais de desinformação, abordando as estratégias de manipulação das redes sociais por líderes populistas.
A obra também fala sobre o papel dos ataques a jornalistas e à imprensa nas metodologias digitais desses líderes populistas. Após publicar uma série de reportagens sobre disparo ilegal de mensagens em massa pelo WhatsApp nas eleições de 2018, a própria Patrícia se tornou vítima de ataques virtuais promovidos por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, como ela conta a seguir.
Portal IMPRENSA - Como foi o processo de produção do livro, incluindo entrevistas, depoimentos e edição? Quanto tempo durou cada etapa? Patrícia Campos Mello - Eu comecei a escrever o livro no início de 2019. A ideia era analisar campanhas de desinformação em três países, Brasil, índia e Estados unidos, onde eu cobri as eleições (nos EUA as de 2008, 2012 e 2016 e, na índia, de 2014 e 2019). Em fevereiro deste ano, houve o episódio em que o presidente Bolsonaro fez ofensas de cunho sexual, então resolvemos incluir no livro aspectos de campanhas de difamação contra jornalistas. O livro também mostra ataques contra a imprensa nesses três países e na Hungria, Turquia, Venezuela e Nicarágua.
Portal IMPRENSA - As mulheres jornalistas têm sido alvo de campanhas de ódio e difamação nas redes sociais. Você acha que isso se deve ao protagonismo das mulheres? Patrícia Campos Mello - Eu acho que se deve à misoginia, há uma nítida tentativa de desqualificar jornalistas mulheres. O tipo de vocabulário usado para atacar jornalistas mulheres, o grau de agressividade, é bem pior do que o usado com nossos colegas homens – ainda que o nível de ataques contra eles também tenha subido no governo atual.
Portal IMPRENSA- Qual é a sua opinião sobre o PL das FaKe News, aprovado pelo Senado e que está sendo discutido na Câmara? Patrícia Campos Mello - O PL vem ao encontro de uma constatação de que o atual ambiente informacional, onde circula uma quantidade colossal de desinformação, está corroendo a democracia. Mas é um projeto que precisa ser discutido com muito cuidado, para que algumas medidas não acabem resultando em violações de privacidade e redução da liberdade de expressão.
Portal IMPRENSA - De que forma você acha que a desinformação pode ser controlada? Patrícia Campos Mello - A melhor maneira é com informação de qualidade, checagem, e com responsabilização de quem patrocina operações profissionais de fake News.
Portal IMPRENSA - Você acredita que nas eleições de 2020 a disseminação de fake news vai ser mais controlada? Patrícia Campos Mello - Depois que publicamos as matérias sobre disparos em massa, o TSE aprovou regulamentação em novembro de 2019 que passou a proibir a prática. O próprio WhatsApp está processando agências de disparo em massa. Então acho que isso deve ser menos gritante desta vez. O problema é que sempre encontram outras maneiras de espalhar narrativas, outros instrumentos.
Portal IMPRENSA - Por conta da pandemia, como está sendo o lançamento livro? Patrícia Campos Mello - Houve uma live na segunda-feira (27) promovida pela editora Companhia das Letras, com o doutor em sociologia Celso Rocha de Barros.
Portal IMPRENSA - Recentemente você ganhou o prêmio Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia. O que isso representa neste momento? Patrícia Campos Mello - Acho que é um sinal muito importante de apoio para jornalistas brasileiros, em especial mulheres, que vêm sofrendo campanhas de intimidação.
Veja abaixo a live do lançamento do livro de Patrícia, realizada em 27 de julho:





