Manchete do "Correio*" é considerada homofóbica e gera protestos em Salvador

Atualizado em 22/04/2013 às 17:04, por Camilla Demario.

Itamar Ferreira Souza, 27 anos, foi encontrado morto dentro de uma fonte no largo Campo Grande, um dos principais pontos turísticos de Salvador, em 13 de abril deste ano. Estudante do penúltimo semestre de Produção Cultural da Faculdade de Comunicação (Facom), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o jovem foi atingido por um paralelepípedo na cabeça e teve um laptop, uma câmera fotográfica e dois celulares roubados.

Crédito:Reprodução À esquerda, capa do Correio* de 15 de abril; à direita, chamada considerada homofóbico publicada na contracapa no dia 16

No dia seguinte o Correio* , jornal de maior circulação no Nordeste, deu destaque ao caso com manchete na primeira página: “Aluno da UFBA morto em fonte do Campo Grande”. Na segunda-feira (15), uma matéria publicada na contracapa traz a fala da delegada encarregada da apuração do crime em seu título: “Sexo grupal atraiu aluno da UFBA para emboscada”.

O título, considerado homofóbico por integrantes do movimento “Viver ItAmar”, formado por familiares, amigos, alunos e professores da vítima, deu origem a um pedido de retratação ao jornal, que pertence à Rede Bahia, grupo de comunicação filiado à Rede Globo. Até o fechamento da matéria, o site Avaaz, onde a petição está hospedada, apontava 693 das 750 assinaturas buscadas pelo grupo para exigir não apenas a retratação na capa do jornal, mas também a publicação de um artigo escrito por familiares e amigos.

Para Adriana Santana, amiga da vítima e uma das organizadoras do movimento “Viver ItAmar”, o estudante foi vítima da violência urbana, mas também de homofobia pelo jornal. “Na quarta-feira, dois dias após a manchete que sugeria sexo grupal, enviamos uma carta para o Correio* , mas não tivemos respostas. Mandamos então para todo o mailing da redação, e apenas dois repórteres responderam, sendo que um confessou estar envergonhado pela capa”.

Para Luiz Mott, antropólogo e professor doutor da UFBA, a petição online demonstra falta de experiência por parte dos alunos por não ter enviado em documento oficial diretamente à diretoria. “A manchete e a cobertura refletiram e exageraram o preconceito de muitos delegados de polícia que ainda tratam assassinatos de homossexuais como casos de irresponsabilidade da vítima, e não como crime homofóbico”.

Em entrevista à IMPRENSA, Sérgio Costa, editor-chefe do Correio* , nega que a família de Itamar ou membros do grupo tenha procurado diretamente a direção do jornal e ressalta ainda que a publicação tem conversado diariamente com os parentes do estudante. “O jornal lamenta e solidariza pela perda da família, pela forma violenta como Itamar foi assassinado, mas lamenta ainda mais que o episódio seja usado como manobra política dentro do processo eleitoral para diretoria da Facom”.
Em 2011 foi realizada uma parceria entre a UFBA e a Rede Bahia para a criação do projeto “Jornalismo do Futuro”, um programa de extensão universitária com objetivo de aproximar produção acadêmica com vivência prática. Em 17 de abril, Giovandro Ferreira, atual Diretor da Facom, publicou uma nota de esclarecimento público em que justifica o fim da parceira, alegando “discordâncias na condução do projeto”. Atualmente, duas chapas disputam eleição para os cargos de diretoria da Facom, que deve acontecer em setembro, segundo a secretaria da faculdade.