Malucos no ar, por Débora Nogueira - PUC/Campinas

Malucos no ar, por Débora Nogueira - PUC/Campinas

Atualizado em 17/03/2005 às 12:03, por Débora Nogueira.

Por Usuários do Cândido Ferreira produzem programa de rádio e mostram para a sociedade a "beleza de ser maluco"

"A minha vida mudou, fiquei mais alegre e mais passiva, não tive mais crises". É assim que a "loucutora" Silvana Borges classifica a importância do programa Maluco Beleza em sua vida. Isso mesmo "loucutora". É assim que são denominados os apresentadores do programa que vai ao ar uma vez por mês (Todo dia 10, às dez horas da manhã, com reapresentação às dez horas da noite) na Rádio Educativa de Campinas FM 101,9.
Silvana Borges tem 39 anos e é portadora de transtornos mentais. Há cinco anos ela chegou ao Cândido Ferreira para um tratamento. Logo começou a trabalhar como recepcionista. Em 2003 ela participou da criação do Maluco Beleza. Até então, Silvana só conhecia terapias como o eletro-choque e a camisa de força. "O Maluco beleza é muito mais do que um programa de rádio para eles, é uma verdadeira terapia", afirma a assessora de imprensa do Cândido Ferreira, Rita Hennies.
O programa é totalmente criado e produzido pelos usuários do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, desde a pauta até as reportagens, entrevistas e apresentação. Eles se reúnem uma vez por semana para discutir os assuntos que vão ser tratados no programa do mês. Rita Hennies trabalha apenas como uma espécie de monitora do grupo de 20 usuários. Normalmente o programa Maluco Beleza trata de questões relacionadas à saúde mental e aos direitos humanos.
Para o usuário Ricardo dos Santos, de 21 anos, o programa na Rádio Educativa foi uma oportunidade de aprender e sonhar. "Aprendi a conviver comigo mesmo e com outras pessoas. Aprendi a ser uma pessoa melhor. O Maluco Beleza me despertou o sonho de fazer curso de jornalismo", recorda Santos.
O sonho de Ricardo dos Santos só não foi realizado por outro usuário, Luciano Lira, por dificuldades financeiras. Ele tem 30 anos e é um dos apresentadores do Maluco Beleza. Em 2004, Luciano Lira passou no vestibular para jornalismo da PUC-Campinas e da UNIP. Ele só não cursou a faculdade porque não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. "Mas foi uma vitória para minha vida porque eu estava há 10 anos sem estudar. Para mim o programa foi bom porque mudou a minha vida e melhorou muito o meu estado de saúde", gaba-se Lira. Mas ele não desiste. "Ainda tenho planos de trabalhar em rádio", afirma o usuário.
Para Silvana Borges, a ajuda do programa foi além da terapia psiquiátrica. "No meu caso o Maluco Beleza ajudou porque também melhorou a dicção e a forma de falar. Agora consigo falar de improviso e por isso fico mais contente e mais alegre", explica.
Produzir um programa de rádio mensal com uma hora de duração pode não parecer muito difícil nem tão empolgante. Mas o trabalho é mesmo uma oportunidade para que cada um desses usuários possa expressar idéias e é uma forma deles mostrarem para a sociedade que podem viver como os "normais".
O programa nasceu quando os coordenadores da assessoria de imprensa do Cândido Ferreira perceberam que alguns usuários tinham sensibilidade para a comunicação.

Candura - Antes do programa de rádio nasceu o jornal Candura, que também é totalmente produzido pelos usuários do Cândido Ferreira. O jornal tem uma tiragem mensal de três mil exemplares e um custo de R$ 1.000,00 e é enviado para vários países do mundo, inclusive para a Organização das Nações Unidas (ONU). Quando nasceu em 1995, o Candura era um informativo institucional, depois passou a ter o formato atual: um jornal feito pelos usuários para os usuários. A partir deste jornal, as pessoas que trabalhavam com a comunicação no Cândido Ferreira perceberam que poderiam ousar com um projeto maior. O Maluco Beleza começou a criar forma.

Fórum- Até 2003 o programa de rádio era produzido pelos assessores de imprensa do hospital. Depois da participação dos usuários no Fórum Social Mundial, os usuários tiveram mais segurança e coragem para tocarem o projeto sozinhos, sem auxílio de jornalistas profissionais. Eles foram convidados para participar do encontro, tanto em 2003 quanto em 2004, como mídia alternativa. "O Maluco Beleza me proporcionou momentos marcantes, bonitos e que me ensinaram muito, como a participação no Fórum Social Mundial e no Fórum Social Brasileiro", afirma Ricardo dos Santos". No último Fórum Social Mundial (2004) os usuários ministraram uma oficina de rádio que teve cerca de 60 participantes. "Foi muito bom. Aprendi a valorizar as pequenas causas, que na verdade são as grandes causas. É a minoria se juntando para exigir alguma coisa. O programa me deu essa oportunidade", explica Silvana Borges. Durante a oficina os usuários amordaçaram alguns voluntários e pediram para eles se comunicassem sem usar as palavras. "Eles tinham que se apresentar pela imaginação", completa Silvana. "Essa foi a primeira vez que fizemos parte da programação oficial do Fórum levando uma oficina para eles", lembra Rita Hennies.

Alo Atenção! - Além de ser o bordão do "Velho Guerreiro" essa expressão é a vinheta inicial do programa Maluco Beleza. E a vinheta foi criada por um dos usuários, Marcos Pio. "Um dia o Marquinhos entrou aqui imitando o Chacrinha e então pensamos: 'temos que aproveitá-lo no programa'", recorda Rita Hennies.
Marcos Pio é um dos usuários que tem mais dificuldade de dicção. O programa o ajudou a superar crises nervosas e o trouxe para o Cândido Ferreira. Ele é medicado, na verdade pela APAE e só vai ao Cândido para participar das reuniões do programa e para encontrar os amigos. Desde que começou a produzir o programa ele melhorou sua forma de relacionamento com as pessoas. "Ele conseguiu passar a informação de que haveria a oficina do Cândido, no Fórum, para as pessoas que estavam na Usina do Gasômetro. Do jeito dele, mesmo sem conseguir se expressar muito bem ele conseguiu. E várias pessoas apareceram lá, por causa do convite dele", explica Rita Hennies.

Maluco Beleza - Quando o piloto do programa foi aceito pela direção da Rádio Educativa, era preciso encontrar um nome. "Em todas as reuniões, os integrantes do grupo insistiam que o nome deveria ser Maluco Beleza. Todas as vezes eles cantavam aquela parte: Eu vou ficar... ficar com certeza Maluco Beleza...", explica Rita Hennies. "Eles consideram que o Raul escreveu uma letra que tem tudo a ver com eles. Apesar de tudo o que eles sofreram, eles são bem-humorados, são felizes. E aí ficou", completa Hennies. O nome pegou, e tem tudo a ver com o programa. "Enquanto você se esforça para ser um jeito normal..." o pessoal que produz o Maluco Beleza está de bem com a vida. E passa essa energia durante os programas.

Serviço é referência Mundial no tratamento psiquiátrico

Cândido - O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira nasceu em 1924, motivado por uma matéria do Jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 1916. Nela, alguns jornalistas denunciavam o modo como os portadores de transtorno mental eram tratados em Campinas. Os pacientes ficavam presos no porão da Cadeia Pública. A partir da matéria, a filha do médico Cândido Ferreira, doou uma quantia em dinheiro para a "pedra fundamental" de um hospital psiquiátrico, localizado no distrito de Sousas, onde é situado até hoje o serviço de saúde. Hoje, o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira atende mil usuários, entre pacientes de três dos seis CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de Campinas e do próprio Cândido. O antigo hospital psiquiátrico passou a funcionar como serviço de saúde a partir de 1990, em sistema de co-gestão com a Prefeitura Municipal de Campinas. Neste ano houve a "deshospitalização" do Cândido. O serviço prestado foi aprimorado de tal modo que em 1993 a OMS ( Organização Mundial de Saúde) considerou o Cândido Ferreira referência no tratamento de pacientes psiquiátricos. "O Cândido me ajudou muito. Graças a Deus eu não tomo remédio, ninguém toma remédio aqui. Todos nós somos tratados iguais", confirma Leandro de Oliveira, de 23 anos.
Para abril deste ano, está previsto que o Serviço de Saúde comece a oferecer Residência Médica em psiquiatria. As instalações devem passar por uma reforma, mas o curso já foi aprovado.
Além dos projetos de comunicação como o programa de rádio e o jornal impresso, o Cândido oferece outras oficinas, que auxiliam no tratamento médico. Os usuários podem trabalhar com artesanato como mosaico, marcenaria e reciclagem de papel. Os trabalhos feitos pelos usuários é vendido em uma loja do próprio hospital. Uma parte do lucro é divido entre os usuários. E a outra parte é usada para manter as oficinas.
"Existe outra maneira junto com a terapia médica, de tratar pessoas com transtornos mentais. Não precisa prender as pessoas. Muitos familiares vêm dizer que os usuários estão mais felizes, mais calmos. E isso também é tratamento", afirma Rita Hennies quando perguntada sobre o trabalho terapêutico das oficinas.