Maior colecionador brasileiro da revista "Playboy", Guerrinha faz do acervo seu ofício

Tira mais foto, não deixa brilho não, hein?” “Tirou dessa revista? É importante.” “Qual vai ser o título? Acho que pode ser ‘O Rei da Playboy’, não sei se já foi usado.

Atualizado em 15/04/2016 às 15:04, por Gabriela Ferigato.

Bom, seja criativa. Faz uma matéria boa, viu.” Nota-se que o dono dos dizeres acima não é nenhum principiante na arte de conceder entrevistas. Por alto, foram três visitas ao programa do Silvio Santos, outras três no Ratinho, cinco na Bandeirantes, sem contar aparições na Folha , G1, iG, Veja – uma simples “googlada” não deixa mentir. Crédito:gabriela ferigato Com o título reconhecido de maior colecionador brasileiro da revista Playboy, segundo o site RankBrasil, Estênio Guerra, sob a consolidada alcunha de Guerrinha, possui todas as 485 edições da publicação, lançada no país em 1975 ainda com o nome Revista do Homem , somando uma coleção com oito mil exemplares. Daí a inspiração para o título dessa matéria ["Oito mil mulheres, título da matéria na edição 320 da Revista IMPRENSA], que, justiça seja feita, é bastante oportuno e, sim, foi apropriado.
Sua banca personalizada expõe raridades, como as capas da apresentadora Xuxa (1982) e das atrizes Betty Faria (1978), Lucélia Santos (1980), Vera Fischer (1982), Claudia Ohana (1985) e Sônia Braga (1984 e 1986). São vinte anos somente no mesmo ponto, localizado no estacionamento da Nicom, uma loja de material de construção no Brooklin, em São Paulo.
“Tem como colocar no final da matéria: ‘Guerrinha agradece à Nicom e ao seu dono, Hiroshi Shimuta, pela parceria?’”, questiona ao final da conversa. Mas a sua relação com a Playboy tem bem mais do que duas décadas. Começou lá em Quixadá, interior do Ceará. “Nasci no mato. Você conhece alguém que nasceu no mato? Eu. Bem em cima de uma montanha. Depois procura Pedra da Galinha Choca na internet. Lá que eu nasci. Quem nasce no mato é o quê?” Pausa dramática. “Não sabe? É matuto. Igual ao livro da Zibia Gasparetto.”
Aos 11 anos, fazia trabalhos esporádicos, como comprar leite e pães no mercado, para um norte-americano que rumou ao Brasil após a Segunda Guerra Mundial, se acomodando, então, em Quixadá. O garoto matuto, porém, só tinha olhos para a revista do gringo. Ao invés do pagamento em dinheiro, o menino queria ficar com ela. Relutante pelo garoto ser menor de idade, finalmente cedeu. “Quando eu for maior de idade, olho”, disse para ele. “Mentira, né.”
Pouco a pouco, com a ajuda de amigos que compravam a Playboy escondido, Guerrinha foi construindo o seu “império”. Começou a chamar atenção dos meninos na escola. Durante os intervalos, subiam no pé de tamarindo para folhear as páginas, enquanto uma amiguinha ficava de vigília. Empreendedor desde cedo, passou a alugar. R$ 1 por dois minutos. Por mais tempo, o valor dobrava. R$ 10 caso levassem para casa. Bom, eram 36 alunos ao todo. Façam as contas.
Amor verdadeiro Guerrinha deixou sua terra natal, mas nunca seu tesouro. Aonde ia, suas Playboys iam junto. Na década de 1970, partiu para o Rio de Janeiro. Certo dia, exibiu seus raros exemplares pelas areias de Copacabana. Dois homens, um chileno e um brasileiro, se interessaram. Com o dinheiro, comprou uma casa para a sua mãe em Quixadá. Foi em São Paulo, porém, que “oficializou” o seu empreendimento.
Os preços dos exemplares variam de acordo com a procura – R$ 200, R$ 300 até R$ 500. O mais caro já vendido foi a edição da Rainha Xuxa, de dezembro de 1982, para um empresário. “Na hora, bateu aquilo: ‘Não quero vender mais’. Subi para R$ 12 mil. Entreguei, deu uma dorzinha. Mas eu tinha mais nove.” No meio-tempo, se aproxima da banca um rapaz com trajes sociais e com olhar curioso. “Você tem a da Xuxa aí?”, questiona. “Viu, não falei que essa chama atenção?”
Crédito:gabriela ferigato Tal edição já foi alvo, inclusive, de uma aposta entre genro e sogro. Mesmo com a banca fechada, tarde da noite, os dois apareceram aflitos no local, bombardeando Guerrinha com a pergunta: “Saiu ou não saiu?”. “Do que se trata, meu amigo?”, indagou sem entender nada. O sogro afirmou categoricamente que Xuxa já tinha sido capa da Playboy, o genro duvidava. Sem poder consultar online, apostaram R$ 1 mil . Vitória do sogro.
É possível também alugar os exemplares – R$ 300 por seis dias, mas aí “só pros chegados” – já alugou muitas que voltaram detonadas. A notícia de que a Playboy acabaria, no fim de 2015, deixou o comerciante apreensivo, mas, ao mesmo tempo, percebeu que suas vendas aumentariam. “É isso o que está acontecendo. Meu depósito estava cheio e foi ficando vazio”, conta. Mais tarde, soube que o veículo seria relançado por outra editora no Brasil.
É bem verdade que a coleção também causou conflitos familiares. “Hoje você vai ter que decidir: ou eu ou essas suas revistas”, emendou um dia a esposa mineira. “Posso pensar um pouco?”, tentou. Não teve jeito, escolheu as revistas e sua esposa saiu de casa. A saudade bateu e conseguiu convencê-la a voltar.

Engana-se quem pensa que só de Playboy vive Guerrinha. Em seus mais de 50 anos bem vividos, leu mil e cem livros completos, se contar os lidos pela metade sobe para mais de dois mil. “Gosto muito do Carlos Drummond de Andrade, ‘Sentimento do Mundo’. João Guimarães Rosa, ‘Grande Sertão: Veredas’. ‘A Volta ao Mundo em 80 dias’. Tem uns escritores franceses muito bons também, né. Livro de 1800 que hoje está bem atualizado. Conhecimento é um negócio muito bom.”