"Mafalda surgiu de uma tira publicitária, nunca imaginei sua transcendência", diz Quino
Joaquín Salvador Lavado Tejón, ou Quino, nasceu na província argentina de Mendoza e transcendeu as fronteiras de seu país. Aos 80 anos e fruto de um ambiente juvenil altamente politizado, Quino consagrou-se com uma personagem que, até então, fora criada para fazer publicidade de uma empresa de eletrodomésticos.
Atualizado em 26/09/2012 às 17:09, por
Luiz Gustavo Pacete.
Em pouco tempo Mafalda foi consagrada pelo humor ácido e a observação do mundo de forma crítica às injustiças e contradições dos adultos. Após 30 anos de sua acidental criação - nascida em 1964 – o próprio Quino não acreditava que faria tanto sucesso. O cartunista deixou de desenhar a personagem por entender que seria repetitivo ficar martelando nos mesmos problemas e injustiças, uma vez que todo já sabiam das desigualdades do mundo.
Reprodução Quino fala ao TN Notícias Quino, que no início de carreira tinha medo de ficar escravo de um personagem, perpetuou-se como um dos principais pensadores da história latino-americana. Arredio a entrevistas, falou ao programa “Outro Tema”, exibido no canal argentino TN Notícias, na noite da última terça-feira (25/9).
Acompanhe os principais trechos da entrevista do cartunista em que ele fala sobre suas influências de infância, o surgimento de Mafalda e o ambiente em que foi criado.
I nfluências da infância
Eu lia muita história em quadrinhos quando pequeno, em Mendoza. Também tive contato com muitas tiras de humor. Meus ídolos foram Lino Palácio e Divito. Foi uma infância de amor aos jornais. Eu lia também algumas histórias norte-americanas. Eu lia tudo isso e sempre dizia que seguiria o passo dessas pessoas.
Arte de desenhar
Nunca fui muito bom para desenhar. Não me parecia tão divertido. Eu estudei dois anos de desenho na Universidade, mas imaginei que não era necessário aprender perspectiva e geometria. Foi um equivoco, depois tive que aprender sozinho o que me ensinavam muito bem Universidade. Percebi isso quando tive que desenhar um estádio de futebol e tive muita dificuldade.
A decisão pelas tiras
Aos 14 anos, percebi que ia ser desenhista de humor. Em minha família tinham pintores e desenhistas. Meu tio trabalhava em um jornal de Mendoza. Ele publicava uma coluna sobre filmes que estavam em cartaz. Para mim, esse contato com os jornais foi muito natural. Ninguém se espantou quando eu decidi ser desenhista. Era algo quase lógico. Tive muita sorte neste sentido, porque minha família já tinha uma veia artística.
Divulgação Quino e sua criação Surgimento de Mafalda
Para ganhar uns trocos eu fazia publicidade em Mendoza. Cheguei a fazer trabalhos para uma casa que vendia telas. Criei para essa empresa meu primeiro personagem. Mafalda também foi um pedido de uma agência de publicidade. Era uma marca de eletrodomésticos que ofereceu aos jornais as tiras da Mafalda com o objetivo de vender produtos subliminarmente. Mas os diários disseram não e a publicidade jamais aconteceu. Eu cheguei a fazer 12 tiras e guardei. Depois de dois anos, uma revista de atualidade chamada “Primera Plana” me pediu algo e eu disse que tinha as tiras da Mafalda. Elas foram publicadas e depois os jornais começaram a se interessar.
Contexto de Mafalda
A personagem Mafalda foi criada em uma época com muitos acontecimentos. Na década de 1960, Che Guevara, Juan Perón e o Movimento Feminista eram muito fortes em todo o mundo. Além disso, também cresci em um ambiente muito politizado. Em minha casa existiam discussões políticas por todo lado. Meus pais eram de esquerda. Minha avó era comunista. Era época de II Guerra Mundial, bombardeios por todos os lados.
A chegada a Buenos Aires
Quando fui para Buenos Aires e passei a morar com três pessoas em uma pensão eu tinha por volta de 18 anos, viajei 19 horas de trem de Mendoza até a capital. Com a pasta debaixo do braço fui a vários jornais, mas tive que interromper esse período para o serviço militar. Voltei a Mendoza, cumpri o serviço militar e regressei a Buenos Aires decidido a ficar. Nesta época, meu irmão trabalhava em um banco e me ajudou financeiramente no começo de minha carreira.
Emprego fixo
Comecei a ter participações fixas em revistas e jornais por volta de 1954. Sempre me aconselharam a não fazer um personagem fixo para que eu não ficasse escravo dele. Era isso que eu fazia, histórias diferentes e sem palavras. O humor mudo sempre me atraiu, muito por influência do cinema sem palavras. Inclusive, eu publicava Mafalda sem falas, só que as revistas começaram a me pedir textos, pois precisavam de algo mais consistente. A partir de então, comecei a agregar os textos. Isso me custou muito.
Utilização alheia
Uma vez teve um protesto estudantil na cidade de Buenos Aires. Foi um episódio muito dramático em que morreram muitas pessoas e os assassinos deixaram um cartaz da Mafalda ao lado dos corpos. Nesta época, eu já tinha ido [embora] da Argentina por causa do Golpe Militar. Vi essa foto 10 anos depois e isso me deixou muito mal. E outras vezes já fizeram isso com meus personagens quando foram roubar um banco. Me dá muita raiva que as pessoas usem minha criação para algo que não tem nada a ver.
Pirataria
Eu sempre relutei em fazer merchandising com Mafalda, mas a pirataria me forçou a fazer isso, já que desenhavam ela muito mal. Eu nunca imaginei a transcendência de Mafalda. Decidi parar com Mafalda porque já fazia 10 anos que eu estava desenhando e repetindo que a humanidade cometia erros, que existiam pobres e ricos e que a desigualdade não tinha correção.






