Lula acertou, mas o ombudsman errou!
Lula acertou, mas o ombudsman errou!
Luiz Garcia, ombudsman do jornal "O Globo", no artigo "Denuncismo denunciado", de 16-7-2004, criticou o presidente Lula por ter proferido esta frase num discurso: "O denuncismo não contribuiu com a democracia." Segundo Luiz, o verbo contribuir exige a preposição para e nunca a preposição com. Você está errado, Luiz. Abra a página 150 do Dicionário Prático de Regência Verbal, do professor Celso Pedro Luft, um lançamento da editora Ática, e leia o início deste verbete: CONTRIBUIR 1. T1 (transitivo indireto): contribuir (com.) (para.)". Portanto, Luiz Garcia, podemos empregar o verbo contribuir perto da preposição para ou da preposição com. E consulte agora, Luiz, o verbete contribuir da página 398 do Dicionário de Usos do Português do Brasil, do professor Francisco S. Borba, obra também publicada pela Editora Ática. No referido verbete o contribuir é apresentado como sinônimo de cooperar, colaborar. E o dicionário fornece os seguintes exemplos:
- "O Rio Grande do Sul deseja contribuir com a carne para a oferta nacional do mercado externo."
- "Quando o procuravam, contribuía com o cheque."
- "Os cassados vão contribuir com a sua ação para dividir o PMDB."
Agora eu pergunto: se o verbo contribuir significa também cooperar, colaborar, onde foi que Lula errou? Ele usou corretamente o verbo: "O denuncismo não contribui (isto é, não coopera, colabora) com a democracia."
Em outro artigo, intitulado "Brava gente brasileira" (O Globo, 23-7-2004), o meu colega Luiz Garcia continuou a criticar o português do nosso presidente. Luiz acha que é obscura, incompreensível, esta passagem de um discurso do ex-líder metalúrgico: "Se a sociedade, o governo e todas as instituições não oferecem a oportunidade, alguém pode oferecer, possivelmente, aquela que não seja a que estamos querendo."
Diga-me, amigo leitor, se há um enigma nesta frase clara e simples. São palavras obscuras, como as das pitonisas de Delfos, na Grécia antiga? As pitonisas eram mulheres que se sentavam num banco de três pernas (trípode), colocado diante de uma fenda da qual escapava um gás subterrâneo. Esse gás as fazia estremecer, retorcerem-se, cair em delírio. Consultadas por sacerdotes, davam respostas confusas. Por favor, Luiz Garcia, não queira transformar o Lula numa pitonisa de Delfos!
Outra coisa, Luiz, você garantiu no seu segundo artigo que é uma "façanha impossível", para Lula, pregar ao mesmo tempo a "auto-estima" e o "culto aos heróis". Por que é impossível, Luiz? Você está delirando? Virou um pitoniso de Delfos? Desde quando não podemos conciliar a auto-estima com o culto aos heróis? A sua afirmativa se caracteriza por este único fato: é completamente ilógica. Se você dissesse que é uma "façanha impossível", para o Lula, pregar ao mesmo tempo a "auto-estima" e o culto aos tiranos, aos nazistas, aos inimigos da liberdade, aí sim, a sua afirmativa exibiria uma lógica absoluta.
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz Garcia, ao escrever isto no seu artigo "De novo", publicado na edição do dia 16 de março de 2004 de O Globo: ".mas seriam desagradáveis tragédias." Eu pergunto: existem tragédias cômicas, agradáveis, que nos fazem rir? Shakespeare escreveu tragédias desse tipo?
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz Garcia, ao escrever isto no seu artigo "Longe dos olhos", publicado na edição de 4 de novembro de 2003 de O Globo: "Eram fotos cuidadosas." Fotos cuidadosas? As fotos, como os seres humanos, como as babás, tomam cuidados? Existem fotos que são descuidadosas?
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz Garcia, ao escrever isto no seu artigo "O crime de Gugu, o abuso dos juízes," publicado na edição do dia 23 de setembro de 2003 de O Globo: "A falsa entrevista com os falsos bandidos ameaçando matar uma relação de concorrentes de Gugu e variadas autoridades." Matar uma relação de concorrentes? Puxa vida, eu não sabia que uma relação pode ser assassinada! Como se chama este assassinato? Se homicídio é matar um homem, pela lógica matar uma relação deve ser relacídio!
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz Garcia, ao escrever isto no seu artigo "O espontâneo", publicado na edição do dia 8 de julho de 2003 de O Globo: "Guardar distância e guardar as simpatias em oculto escaninho da alma."
Oculto escaninho é um pleonasmo, Luiz Garcia, uma redundância, pois escaninho já é um lugar oculto. Se você não errou, então eu posso agora dizer: entrei para dentro, subi para cima, fulano é um almirante da Marinha.
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz Garcia, ao escrever isto em seu artigo "Macielmente", publicado na edição do dia 6 de junho de 2003 de O Globo: ".o centro do palco é tomado pela figura robusta do vice-presidente José Alencar, cuja voz potente é ouvida a todo instante em feroz diatribe contra a política de juros." Feroz diatribe, Luiz Garcia? Responda-me: qual é a diatribe que é mansa, calma, desprovida de violência? Abra a página 677 do dicionário Novo Aurélio e leia esta definição de diatribe: "crítica acerba, escrito ou discurso violento e injurioso". Examine o verbete diatribe, da página 1033 do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e veja como ele define este substantivo: ".discurso escrito ou oral, em tom violento e geralmente afrontoso, em que se ataca alguém ou alguma coisa."
Imploro, Luiz Garcia, jamais use a expressão "feroz diatribe", jamais! A diatribe já é por si mesma feroz, dispensa o adjetivo. Este meu texto não é uma diatribe e sim, apenas, uma crítica. Não tem caráter pessoal. Se você quiser, Luiz, conteste-me, prove que estou errado, cedo-lhe o meu espaço aqui na revista IMPRENSA.
Lula acertou nos seus discursos, mas você errou, Luiz, ao escrever isto no seu artigo "Petróleo solto, arroz grudento", publicado na edição do dia 17 de maio de 2003 de O Globo: ".os problemas dos EUA com o Iraque e com o petróleo iraquiano estão cozinhando na mesma panela em que fervem nossa política em relação à Venezuela, ao governo Chávez e à falta que o petróleo venezuelano está fazendo aos EUA". Luiz Garcia, não são os problemas que estão cozinhando. Os problemas não cozem, entendeu? Eles estão sendo cozinhados! Além disso você cometeu um erro de concordância: não é fervem, é ferve. Seria fervem, se fossem duas ou três políticas, mas é uma só. Após mostrar estes erros de Luiz Garcia eu pergunto: ele tem o direito de criticar o português do Lula? Outra pergunta: ele tem autoridade, como ombudsman, para corrigir as frases dos seus colegas de redação?






