Luiz Bacci conta os bastidores de reportagem que quase acabou mal na "Cracolândia"
O programa “Balanço Geral”, exibido de segunda à sexta nas manhãs da TV Record, tem um novo apresentador desde o último dia 10 de fevereiro.
Atualizado em 21/02/2014 às 18:02, por
Alana Rodrigues* e Lucas Carvalho*.
Com passagem pelo "Cidade Alerta", elogiada pela emissora e pelo público durante as férias de Marcelo Rezende, Luiz Bacci substituiu o apresentador Geraldo Luís mantendo o ritmo irreverente e também a audiência. Uma reportagem especial, entretanto, o colocou numa situação de alto risco na última quinta-feira (20/2).
Crédito:Divulgação Jornalista quase foi agredido durante reportagem em SP
Durante as gravações para o programa, na região conhecida como “Cracolândia”, em São Paulo (SP), Bacci passou por momentos delicados ao ser reconhecido por um traficante. O apresentador estava caracterizado como um morador de rua, em busca de um usuário de crack que vivia na região para uma matéria ainda sem previsão de ir ao ar. À IMPRENSA, ele fala sobre o sufoco que passou, e também sobre o desafio de apresentar o “Balanço Geral”.
IMPRENSA - Qual era a pauta que o levou à Cracolândia caracterizado? Luiz Bacci - Um fotógrafo profissional encontrou um rapaz em meio aos viciados em crack que chamou sua atenção. Esse viciado sabia falar todos os tipos de equipamento que o fotógrafo usava e ele pensou: “Como pode, um usuário de drogas saber nomes específicos de lente, de câmeras?”. O viciado deu uma aula pra ele, além de falar quatro idiomas! Então a história era sobre esse usuário que, por uma decepção amorosa na Europa, se separou da mulher e foi parar nas drogas.
Esse fotógrafo era da Record? Não, era um fotógrafo que assistia ao programa, sabia que a gente costumava ajudar as pessoas e pediu ajuda para esse rapaz. Então eu precisava encontrar esse viciado lá na Cracolândia, mas se eu fosse de câmera aberta, poderia ser até mais perigoso, porque os traficantes e usuários podem começar a lançar pedras e tal. A produção resolveu me vestir de mendigo para que eu pudesse passar lá como um andarilho e comecei a circular pela região. Eu estava com dez seguranças, alguns à paisana e outros escondidos em uma van. Esse fotógrafo estava lá também e por telefone a gente foi conversando até que pudesse se aproximar.
Quando você percebeu que a situação poderia ser perigosa? No meio do caminho, eles notaram. Traficante não é bobo, eles percebem quando tem alguém novo, que não costuma estar lá, e começaram a prestar atenção em mim. Até que eles estranharam a presença da van e descobriram que era uma televisão gravando. Um deles começou a discutir, falou que era um absurdo… eu não sei se ele estava drogado na hora, se era traficante ou não, pois, afinal de contas, eles não usam crachá.
Depois, outros usuários me confirmaram que ele era um dos chefes da boca de fumo. Ele começou a discutir comigo. Fiquei nervoso, tenso. Não tive reação! Ele estava muito perto e eu não sei se debaixo da camiseta ele tinha uma arma, uma faca. Não sei o que ele podia fazer, se podia me surpreender. Eu já cobri tiroteio no Rio [de Janeiro], e a gente sabe que, por onde você entra, é por onde provavelmente vai vir o tiro.
Como você se sentiu naquele momento? É uma coisa muito sinistra, porque você tem de desconfiar de todo mundo que está passando ao seu redor. Então, para alguém passar ali e sacar uma faca e me atingir era questão de segundos. Quando eu vi que ele começou a ficar exaltado, e eu pedindo para não gravar, falei “eu vou embora”. Foi aí que ele segurou meu braço e não queria me deixar ir. Nesse momento chegaram os produtores e os seguranças. Ele só soltou meu braço quando percebeu que o negócio era maior do que ele imaginava e que eu não estava desprotegido.
Mesmo ele vendo todos aqueles seguranças, continuou exaltado, achando que se tratava de uma matéria de denúncia de tráfico. Para minha sorte, apareceu então a dona de um dos hotéis daquela região. Após contarem pra ela o que estava acontecendo, ela tirou esse rapaz que seria o traficante do lugar, explicando que estávamos lá para ajudar um "amigo".
A reportagem prosseguiu normalmente? Eu ia tirar o rapaz [personagem da matéria] de lá para conversar em outro ponto. Ele me pediu 15 minutos para pegar as coisas dele no hotel. Nesse meio tempo, comecei a ficar preocupado, porque os seguranças saíram de perto para continuarmos a gravação, mas o perigo era iminente. De repente, apareceu um outro, que me falaram na hora que era o “chefão”. Nesse momento eu disse “pra mim, chega”. Nós saímos de lá e depois o usuário foi nos encontrar longe dali para continuar a reportagem. Eu já peguei tiroteio, mas nervoso como eu fiquei naquela hora, nunca tinha ficado.
Foi a primeira vez que você visitou a Cracolândia? Segunda vez. A primeira eu era repórter do programa da Hebe e fui lá há uns seis ou sete anos mostrar o início da revitalização. Mas era outro lugar, estava entupido de polícia, tinha político. Por ter ido naquela vez, eu não esperava que fosse tão barra pesada quanto está hoje. Até havia policiais e guarda civil, mas os traficantes agem ali livremente. É uma terra sem lei.
Como foi a preparação para a matéria? O processo de caracterização? Eu fiquei uma hora na maquiagem. Era um disfarce rápido, porque eu termino o “Balanço” às 14h30 e o programa é ao vivo. Se eu não fosse rápido, ia cair muito a luz. E quanto mais vai escurecendo por lá, pior fica.
Você iria novamente fazer uma reportagem na Cracolândia? Não vou. Meio que peguei trauma. A impressão que dá é que é uma panela de pressão, que pode explodir a qualquer momento. Teria que ser um caso muito forte. Não acho que vale a pena se arriscar com esse tipo de bandido, é perigoso.
Como é apresentar o “Balanço Geral”? Ótimo, acho que é a grande oportunidade desse meu tempo de carreira. É um programa que dá para explorar tanto o entretenimento quanto o jornalismo. Parece que as pessoas estão gostando. A gente vai tentar melhorar cada vez mais para agradar ao público, mas os resultados de audiência têm sido muito satisfatórios.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Divulgação Jornalista quase foi agredido durante reportagem em SP
Durante as gravações para o programa, na região conhecida como “Cracolândia”, em São Paulo (SP), Bacci passou por momentos delicados ao ser reconhecido por um traficante. O apresentador estava caracterizado como um morador de rua, em busca de um usuário de crack que vivia na região para uma matéria ainda sem previsão de ir ao ar. À IMPRENSA, ele fala sobre o sufoco que passou, e também sobre o desafio de apresentar o “Balanço Geral”.
IMPRENSA - Qual era a pauta que o levou à Cracolândia caracterizado? Luiz Bacci - Um fotógrafo profissional encontrou um rapaz em meio aos viciados em crack que chamou sua atenção. Esse viciado sabia falar todos os tipos de equipamento que o fotógrafo usava e ele pensou: “Como pode, um usuário de drogas saber nomes específicos de lente, de câmeras?”. O viciado deu uma aula pra ele, além de falar quatro idiomas! Então a história era sobre esse usuário que, por uma decepção amorosa na Europa, se separou da mulher e foi parar nas drogas.
Esse fotógrafo era da Record? Não, era um fotógrafo que assistia ao programa, sabia que a gente costumava ajudar as pessoas e pediu ajuda para esse rapaz. Então eu precisava encontrar esse viciado lá na Cracolândia, mas se eu fosse de câmera aberta, poderia ser até mais perigoso, porque os traficantes e usuários podem começar a lançar pedras e tal. A produção resolveu me vestir de mendigo para que eu pudesse passar lá como um andarilho e comecei a circular pela região. Eu estava com dez seguranças, alguns à paisana e outros escondidos em uma van. Esse fotógrafo estava lá também e por telefone a gente foi conversando até que pudesse se aproximar.
Quando você percebeu que a situação poderia ser perigosa? No meio do caminho, eles notaram. Traficante não é bobo, eles percebem quando tem alguém novo, que não costuma estar lá, e começaram a prestar atenção em mim. Até que eles estranharam a presença da van e descobriram que era uma televisão gravando. Um deles começou a discutir, falou que era um absurdo… eu não sei se ele estava drogado na hora, se era traficante ou não, pois, afinal de contas, eles não usam crachá.
Depois, outros usuários me confirmaram que ele era um dos chefes da boca de fumo. Ele começou a discutir comigo. Fiquei nervoso, tenso. Não tive reação! Ele estava muito perto e eu não sei se debaixo da camiseta ele tinha uma arma, uma faca. Não sei o que ele podia fazer, se podia me surpreender. Eu já cobri tiroteio no Rio [de Janeiro], e a gente sabe que, por onde você entra, é por onde provavelmente vai vir o tiro.
Como você se sentiu naquele momento? É uma coisa muito sinistra, porque você tem de desconfiar de todo mundo que está passando ao seu redor. Então, para alguém passar ali e sacar uma faca e me atingir era questão de segundos. Quando eu vi que ele começou a ficar exaltado, e eu pedindo para não gravar, falei “eu vou embora”. Foi aí que ele segurou meu braço e não queria me deixar ir. Nesse momento chegaram os produtores e os seguranças. Ele só soltou meu braço quando percebeu que o negócio era maior do que ele imaginava e que eu não estava desprotegido.
Mesmo ele vendo todos aqueles seguranças, continuou exaltado, achando que se tratava de uma matéria de denúncia de tráfico. Para minha sorte, apareceu então a dona de um dos hotéis daquela região. Após contarem pra ela o que estava acontecendo, ela tirou esse rapaz que seria o traficante do lugar, explicando que estávamos lá para ajudar um "amigo".
A reportagem prosseguiu normalmente? Eu ia tirar o rapaz [personagem da matéria] de lá para conversar em outro ponto. Ele me pediu 15 minutos para pegar as coisas dele no hotel. Nesse meio tempo, comecei a ficar preocupado, porque os seguranças saíram de perto para continuarmos a gravação, mas o perigo era iminente. De repente, apareceu um outro, que me falaram na hora que era o “chefão”. Nesse momento eu disse “pra mim, chega”. Nós saímos de lá e depois o usuário foi nos encontrar longe dali para continuar a reportagem. Eu já peguei tiroteio, mas nervoso como eu fiquei naquela hora, nunca tinha ficado.
Foi a primeira vez que você visitou a Cracolândia? Segunda vez. A primeira eu era repórter do programa da Hebe e fui lá há uns seis ou sete anos mostrar o início da revitalização. Mas era outro lugar, estava entupido de polícia, tinha político. Por ter ido naquela vez, eu não esperava que fosse tão barra pesada quanto está hoje. Até havia policiais e guarda civil, mas os traficantes agem ali livremente. É uma terra sem lei.
Como foi a preparação para a matéria? O processo de caracterização? Eu fiquei uma hora na maquiagem. Era um disfarce rápido, porque eu termino o “Balanço” às 14h30 e o programa é ao vivo. Se eu não fosse rápido, ia cair muito a luz. E quanto mais vai escurecendo por lá, pior fica.
Você iria novamente fazer uma reportagem na Cracolândia? Não vou. Meio que peguei trauma. A impressão que dá é que é uma panela de pressão, que pode explodir a qualquer momento. Teria que ser um caso muito forte. Não acho que vale a pena se arriscar com esse tipo de bandido, é perigoso.
Como é apresentar o “Balanço Geral”? Ótimo, acho que é a grande oportunidade desse meu tempo de carreira. É um programa que dá para explorar tanto o entretenimento quanto o jornalismo. Parece que as pessoas estão gostando. A gente vai tentar melhorar cada vez mais para agradar ao público, mas os resultados de audiência têm sido muito satisfatórios.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





