Love Kills

Love Kills

Atualizado em 22/10/2008 às 17:10, por Igor Ribeiro.

O assunto mais comentado país afora tem sido o seqüestro de Santo André e todo mundo deve estar um tanto exaurido dele. Apesar disso, a questão ainda não se esgotou. Justamente pelos motivos colocados pela amiga Thaís Naldoni em sua ótima semanal, que criticou o vergonhoso papel desempenhado por boa parte da mídia ao desenrolar da semana. A prioridade da imprensa tem sido não ficar de fora do espetáculo. Portanto, a repetição e a cópia são exaustivas. Dificilmente teremos abordagens diferenciadas que se mantenham respeitosas quanto ao inquérito e à dor das vítimas.

Durante o mesmo período do caso do ABC paulista, aconteceu outro evento terrível em Sorocaba, também envolvendo namorados e um desfecho trágico. O máximo que a imprensa fez foi realizar uma breve (e igualmente tosca) comparação psicológica entre os assassinos de ambos os casos. Mas não houve vivalma que fizesse uma reflexão histórica e paradoxal sobre o amor que mata.

Pessoalmente, nem esperaria a infeliz coincidência de Sorocaba para relacionar episódios em que a paixão foi o ingrediente venenoso de um coquetel fatal. O mundo, e especialmente estes tristes trópicos, está abarrotado de casos assim. Sua maioria é passível de uma análise crítica do papel da mídia.

Em 1908 aconteceu provavelmente a primeira repercussão na imprensa brasileira de um caso de amor mal resolvido. Em São Paulo, o jovem sírio Miguel Trade assassinou e esquartejou o comerciante Elias Farah, marido de sua amante. Esse padrão se repetiu em 1928, quando ocorreu um episódio parecido e com contornos de espetacularização midiática, com direito a apelido policialesco e ampla cobertura da imprensa escrita. Chamado "O Crime da Mala", envolvia também um imigrante, o italiano Giuseppe Pistone, que morria (ou matava?) de ciúmes de sua esposa Maria Mercedes Féa. A jovem de 21 anos, grávida, também foi esquartejada e colocada dentro de uma grande mala de couro, interceptada no porto de Santos: Pistone teve o requinte cruel de despachar o cadáver da mulher para Bordeaux, França. Em 1960, a enfermeira Florinda Marques e seu amante, Krikor Zentunian, fizeram parecido: mataram o taxista José Alves, marido de Florinda, transportaram os pedaços de seu corpo num baú, dirigiram ao longo do Tietê e o jogaram no rio, espalhando partes do defunto desde a Casa Verde até Santana do Parnaíba.

A partir dos anos 1970 aumentaram os relatos de crimes passionais cometidos no calor da emoção. A atriz Maitê Proença, por exemplo, é marcada por uma história de amor fatal. Seu pai, Augusto da Rocha Monteiro Gallo, matou a facadas sua mãe, Margot Proença Gallo, por suspeitar de traição. Era 1970 e a apresentadora do GNT tinha apenas 12 anos. Outro caso destemperado e de grande alcance midiático envolveu uma crise de ciúmes do socialite Doca Street, em Búzios, 1976. Acusado de matar a tiros a namorada Ângela Diniz, o réu confesso - "matei por amor", disse Street no tribunal - chegou a ser absolvido. Por pressão de grupos feministas muito ativos nos anos 1970, ocorreu um segundo julgamento. Street acabou condenado e permaneceu preso de 1979 a 1987. Em 2006, voltou a ser manchete dos jornais, por conta do livro "Mea Culpa", no qual procurou exorcizar seus demônios pessoais.

Mulheres também têm crises nervosas. O primeiro réu do sexo feminino a mobilizar a mídia foi a atriz Dorinha Durval. Certa noite de 1983, iniciou uma discussão com o marido, o cineasta Paulo Sérgio Alcântara, cujo tema principal era vaidade - ele era 16 ano mais novo que Dorinha, que tinha 51. A briga cresceu e, segundo Dorinha, Alcântara partiu para a agressão, da qual se defendeu com um tiro. A tese de legítima defesa funcionou e a ré cumpriu uma pena em regime semi-aberto.

Outro caso famoso envolvendo atores também terminou com cumprimento de pena em semi-aberto. Guilherme de Pádua assassinou a facadas a atriz Daniella Perez, seu par-romântico na novela da Globo "De Corpo e Alma", de 1993. O ator contou com a ajuda da mulher, Paula Thomaz, com quem tinha um pacto de fidelidade. O caso foi amplamente acompanhado pela mídia e pela população. A mãe da atriz, a autora Glória Perez, fez campanha para incluir o homícidio qualificado no rol de crimes hediondos. Conseguiu, mas não a tempo de penalizar os assassinos de sua filha, que cumpriram só metade da pena na cadeia: sete anos.

Há casos em que a morte não ocorre por ciúme ou acessos de fúria entre amantes e ex-amantes. O alvo é aquele que se opõe a um relacionamento - quase sempre envolvendo pais e um filho adolescente. Assim teria acontecido em 1988, no conhecido "Crime da Rua Cuba", em São Paulo. Jorge Delmanto Bouchabki foi acusado de matar os pais, que seriam contra seu namoro com a estudante Flávia Soares. O caso nunca foi esclarecido, ao contrário do recente crime envolvendo Suzanne Louise von Richthofen, em 2002. Com o auxílio do namorado Daniel Cravinhos, a jovem matou os pais a pauladas. O assassinato e suas conseqüências tiveram provavelmente a maior exposição na mídia até o caso de Eloah. O site do Tribunal de Justiça ficou congestionado com o tráfego de internautas tentando reservar um dos 80 lugares destinados ao público do julgamento. Ficou famosa uma entrevista da ré ao "Fantástico", na qual o microfone captou, em off, o advogado de defesa instruindo a menina a chorar e culpar o ex-namorado.

Outros casos de destaque na mídia envolviam gente de classe média ou média alta, ou pessoas públicas, artistas, atores, etc. O cantor Lindomar Castilho matou a tiros, em 1981, a esposa e também cantora Eliana de Grammont, no meio do bar Belle Époque, em São Paulo. Houve também o caso do promotor Igor Ferreira da Silva, que em 1998 assassinou a mulher - grávida de outro homem - e ainda está foragido. O jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves matou a tiros a também jornalista e namorada Sandra Gomide - à época, 2001, o assassino era diretor de redação de O Estado de S. Paulo.

Mas todo repórter policial sabe que crime passional é dos casos mais comuns na periferia - esses nunca ganham destaque. O próprio crime de Sorocaba não rendeu tanto na imprensa. Enquanto se desenvolvia o seqüestro de Eloah, o jornal O Dia deu, também sem grande estardalhaço, a notícia de um amante furioso em . Eu mesmo lembro de ter cobrido algumas ocorrências similares quando estive no Agora São Paulo, ou de ter acompanhando colegas no rastro de pautas assim. Mas o crime ordinário de periferia não gera tanto fascínio, nem na própria periferia. A não ser quando envolve situações-limite de contornos cinematográficos, como no cárcere privado de Santo André.

De resto, só é destaque quando diz respeito a gente graúda, estilo Zona Sul carioca, também com ares de teledramaturgia. É como se o assassinato de Daniella Perez transitasse no nebuloso território entre a ficção e a realidade. Um crime acontece de fato, pessoas morrem, suspeitos fogem, famílias sofrem. Mas assistir à TV ou ler o jornal torna-se, para a audiência média, um exercício de folhetim. Talvez a maior atenção que esse tipo de ocorrência cause sobre o público vem da contradição de sentimentos: como podem suscitar dor e morte sentimentos tão nobres, que teoricamente giram ao redor de essências românticas e puerias, de paixão e amor? O ser humano é intrinsicamente contraditório, e aí reside sua beleza e seu caos. É um equilibrío de forças que tem, terrivel e casualmente, desfechos trágicos. Para lidar com tudo isso, resta ao povo e à mídia uma subversão um tanto apelativa, uma digestão cultural macerada pela bile do consumo popular. Como diz aquela música do Ramones, " "...