Lobby? Mídia confunde alhos com bugalhos
Lobby? Mídia confunde alhos com bugalhos
Atualizado em 21/09/2010 às 19:09, por
Wilson da Costa Bueno.
A mídia é useira e vezeira no desvirtuamento de conceitos que, quando assumidos em sua integridade, representam realidades importantes e que merecem ser preservadas em sua plenitude. Ela já conseguiu avacalhar os conceitos de responsabilidade social, de sustentabilidade e, de há muito, vem fazendo o mesmo com o de lobby.
No caso da responsabilidade social, apesar de todo o competente trabalho de conscientização do Instituto Ethos, do IDEC, entre outros, ela continua reduzindo o que deveria ser uma filosofia de gestão a atos isolados, quase sempre com suspeitíssimos objetivos mercadológicos. Sem cerimônia, a imprensa trata toda organização ou empresa de socialmente responsável apenas porque faz (muitas vezes diz fazer) ações pontuais (doação de cestas básicas, ajuda a creches, investimento em cultura etc). Esquece-se que até traficante de drogas, banqueiros de jogo do bicho e políticos corruptos podem fazer o mesmo e que, visto de longe, todo mundo é socialmente responsável, se limitarmos o conceito dessa forma. Por isso, chega a proclamar de socialmente responsável a indústria tabagista (responsável pela morte de milhões de pessoas por ano em todo o mundo), não assume uma postura crítica em relação às agroquímicas (que, além de ceifar vidas expostas diretamente aos agrotóxicos, emporcalham com veneno o solo, o ar e a água) e é benevolente com parte significativa da indústria da saúde que coloca os interesses privados acima do interesse público, estimulando a auto-medicação irresponsável com intenção explícita de aumentar os seus lucros.
Para a sustentabilidade, a falta de cuidado ao manejar o conceito é a mesma. Seduzida pelo "marketing verde", considera como sustentáveis empresas que plantam (ou dizem plantar) árvores após poluirem dramaticamente o meio ambiente (você se lembra daquela campanha da Ipiranga que estimulava o consumo de petróleo e acenava com a compensação pelo plantio de árvores? Santa hipocrisia!) ou releva o ato predatório de empresas mineradoras (os recursos naturais de que elas se apropriam permanecem para as próximas gerações?) ou de empresas transgênicas que afrontam a biodiversidade.
O mesmo anda acontecendo, nos últimos dias, com o conceito de lobby, identificado como sinônimo de tráfico de influência, corrupção ativa e passiva e outros atos ilícitos.
Pera lá, vamos devagar com o andor que o santo é de barro. As denúncias que circulam pelos jornais, envolvendo governos de todos os níveis e empresários sem nível algum (os partidos políticos que temos não estão autorizados, pela sua trajetória, a atirarem a primeira pedra porque todos têm culpa no cartório!), nada tem a ver com o lobby na verdadeira acepção do termo ou conceito.
O lobby, entendido como pressão para defesa de interesses, sejam eles de grupos da sociedade, de setores empresariais ou de trabalhadores etc, tem um "DNA" distinto do que a imprensa anda destacando em suas manchetes. Na verdade, o lobby pode ser visto (e corretamente deveria ser assim) como uma prática natural porque grupos mobilizados (de cidadãos ou empresariais) têm o direito, em uma democracia, de defender os seus interesses, ainda que não concordemos com eles. Veria com absoluta reserva a luta da Souza Cruz e da Philip Morris (esta Cruz e esse Morris no nome não são mera coincidência, ou são?) para evitar restrições ao uso do cigarro com a adoção de uma legislação mais severa contra o tabaco, mas acho que elas têm esse direito, desde que não ajam debaixo dos lençóis. Estaria ao lado dos aposentados quando reclamam pela porcentagem abusiva de desconto de seus "proventos" mesmo após tantos anos de contribuição. Não concordaria com a cantilena da mídia que faz lobby agressivo para continuar isenta de regulação, ainda que atente, continuamente, contra a privacidade das pessoas e promova linchamentos morais contra cidadãos e empresas. Mas cada um defende o seu "quadrado", não é mesmo? Numa democracia, o lobby é um processo natural, assim como a Rádio Peão faz parte do processo de comunicação das organizações.
O lobby precisa ser regulamentado, precisa ter regras claras para evitar que continue na clandestinidade e que seja difícil identificar as pessoas que estão jogando sujo e inclusive "queimando" o conceito. Numa sociedade democrática, é natural o embate de interesses e, reconhecemos, no capitalismo selvagem que temos, esta democracia costuma, por negligência de autoridades e a omissão da sociedade civil, ser ameaçada a qualquer momento. Mas ainda que julguemos que seria razoável banir de vez empresas vilãs e políticos corruptos, a democracia exige processos de legitimação e, embora nem sempre justos (os crimes de colarinhos brancos são mais tolerados pela Justiça do que os ladrões de galinhas!), eles terão que ser respeitados, até que a sociedade como um todo decida alterá-los.
O lobby é uma estratégia de comunicação política e existe desde sempre. Sempre existirão pessoas (os lobistas) que, em nome de grupos ou setores, estarão buscando obter vantagens, explorando as vulnerabilidades e fraquezas dos poderes instituídos. Se toleramos advogados ou auditores que buscam falhas na legislação para defender os seus clientes, e até advogados que tiram da cadeia criminosos confessos, porque excomungar os lobistas legítimos?
Lobby não é sinônimo de mentira, de empulhação e muito menos de corrupção, mas a imprensa já decidiu que é tudo a mesma coisa e que, portanto, o avanço do filho ou apadrinhado de alguém em cima dos cofres públicos faz parte deste conceito.
Há décadas, tem-se buscado no Brasil, como em outros países, regulamentar o lobby mas bancadas parlamentares (não ouso condenar o Congresso como um todo porque é uma instituição que deve ser preservada, apesar das mazelas atuais) postergam a decisão porque talvez prefiram mesmo este ambiente desregulamentado, propício a deslizes éticos.
Está certo: regulamentar o lobby não resolve o problema, não acaba com a sujeira, assim como a prisão e até a pena de morte não liquidam com os criminosos, mas é preciso avançar no sentido de colocar ordem na casa. Não se pode acabar com os presídios por que não se consegue colocar dentro deles todos os bandidos que estão pelas ruas. Vamos lá: do jeito que está, não pode ficar.
A imprensa é assim mesmo: corre atrás do barulho, mas não sabe onde canta o galo e, sensacionalisticamente, promove uma barafunda dos diabos nos conceitos no qual ela mesmo se enreda.
Se é assim, como quer a imprensa, o lobby que ela tem feito para impedir que seus atos abusivos sejam coibidos também deveria merecer a mesma avaliação. O que a imprensa faz em seu favor é lobby ou sacanagem?
O problema não está no lobby porque o conceito em si não incorpora a propina, a falta de ética ou transparência. E, é verdade, não adianta regulamentar, se não for para valer, o que é muito comum neste cenário de hipocrisia política que temos por aqui.
Vamos preservar a integridade dos conceitos e mirar o foco para aqueles que protagonizam processos que se situam em outra esfera. O lobby está no campo da política e da comunicação. O que a imprensa anda revelando tem a ver com sacanagem e se situa no campo policial.
Lobista íntegro tem um papel a desempenhar na democracia. O corrupto merece ser apedrejado moralmente em praça pública. Não vamos confundir alhos com bugalhos. Certos equívocos acabam contribuindo para que não avancemos. Quem sabe, esta não é mesmo a intenção da mídia que continua (alguém duvida?) dizendo amém ao "status quo" porque se locupleta com o cenário atual?
O lobby tem que ser praticado de forma transparente, eticamente e com profissionalismo. Sem esses atributos, como diz o ditado, é outra praia e certamente imunda como algumas que nos recebem em período de férias.
Está na hora de um banho ético e é bom pensarmos nisso porque as eleições estão chegando. Mas para isso precisamos acertar os conceitos. A imprensa anda dando tiro pra todo lado. Desse jeito, até ela vai acabar sendo atingida pelo fogo amigo.

No caso da responsabilidade social, apesar de todo o competente trabalho de conscientização do Instituto Ethos, do IDEC, entre outros, ela continua reduzindo o que deveria ser uma filosofia de gestão a atos isolados, quase sempre com suspeitíssimos objetivos mercadológicos. Sem cerimônia, a imprensa trata toda organização ou empresa de socialmente responsável apenas porque faz (muitas vezes diz fazer) ações pontuais (doação de cestas básicas, ajuda a creches, investimento em cultura etc). Esquece-se que até traficante de drogas, banqueiros de jogo do bicho e políticos corruptos podem fazer o mesmo e que, visto de longe, todo mundo é socialmente responsável, se limitarmos o conceito dessa forma. Por isso, chega a proclamar de socialmente responsável a indústria tabagista (responsável pela morte de milhões de pessoas por ano em todo o mundo), não assume uma postura crítica em relação às agroquímicas (que, além de ceifar vidas expostas diretamente aos agrotóxicos, emporcalham com veneno o solo, o ar e a água) e é benevolente com parte significativa da indústria da saúde que coloca os interesses privados acima do interesse público, estimulando a auto-medicação irresponsável com intenção explícita de aumentar os seus lucros.
Para a sustentabilidade, a falta de cuidado ao manejar o conceito é a mesma. Seduzida pelo "marketing verde", considera como sustentáveis empresas que plantam (ou dizem plantar) árvores após poluirem dramaticamente o meio ambiente (você se lembra daquela campanha da Ipiranga que estimulava o consumo de petróleo e acenava com a compensação pelo plantio de árvores? Santa hipocrisia!) ou releva o ato predatório de empresas mineradoras (os recursos naturais de que elas se apropriam permanecem para as próximas gerações?) ou de empresas transgênicas que afrontam a biodiversidade.
O mesmo anda acontecendo, nos últimos dias, com o conceito de lobby, identificado como sinônimo de tráfico de influência, corrupção ativa e passiva e outros atos ilícitos.
Pera lá, vamos devagar com o andor que o santo é de barro. As denúncias que circulam pelos jornais, envolvendo governos de todos os níveis e empresários sem nível algum (os partidos políticos que temos não estão autorizados, pela sua trajetória, a atirarem a primeira pedra porque todos têm culpa no cartório!), nada tem a ver com o lobby na verdadeira acepção do termo ou conceito.
O lobby, entendido como pressão para defesa de interesses, sejam eles de grupos da sociedade, de setores empresariais ou de trabalhadores etc, tem um "DNA" distinto do que a imprensa anda destacando em suas manchetes. Na verdade, o lobby pode ser visto (e corretamente deveria ser assim) como uma prática natural porque grupos mobilizados (de cidadãos ou empresariais) têm o direito, em uma democracia, de defender os seus interesses, ainda que não concordemos com eles. Veria com absoluta reserva a luta da Souza Cruz e da Philip Morris (esta Cruz e esse Morris no nome não são mera coincidência, ou são?) para evitar restrições ao uso do cigarro com a adoção de uma legislação mais severa contra o tabaco, mas acho que elas têm esse direito, desde que não ajam debaixo dos lençóis. Estaria ao lado dos aposentados quando reclamam pela porcentagem abusiva de desconto de seus "proventos" mesmo após tantos anos de contribuição. Não concordaria com a cantilena da mídia que faz lobby agressivo para continuar isenta de regulação, ainda que atente, continuamente, contra a privacidade das pessoas e promova linchamentos morais contra cidadãos e empresas. Mas cada um defende o seu "quadrado", não é mesmo? Numa democracia, o lobby é um processo natural, assim como a Rádio Peão faz parte do processo de comunicação das organizações.
O lobby precisa ser regulamentado, precisa ter regras claras para evitar que continue na clandestinidade e que seja difícil identificar as pessoas que estão jogando sujo e inclusive "queimando" o conceito. Numa sociedade democrática, é natural o embate de interesses e, reconhecemos, no capitalismo selvagem que temos, esta democracia costuma, por negligência de autoridades e a omissão da sociedade civil, ser ameaçada a qualquer momento. Mas ainda que julguemos que seria razoável banir de vez empresas vilãs e políticos corruptos, a democracia exige processos de legitimação e, embora nem sempre justos (os crimes de colarinhos brancos são mais tolerados pela Justiça do que os ladrões de galinhas!), eles terão que ser respeitados, até que a sociedade como um todo decida alterá-los.
O lobby é uma estratégia de comunicação política e existe desde sempre. Sempre existirão pessoas (os lobistas) que, em nome de grupos ou setores, estarão buscando obter vantagens, explorando as vulnerabilidades e fraquezas dos poderes instituídos. Se toleramos advogados ou auditores que buscam falhas na legislação para defender os seus clientes, e até advogados que tiram da cadeia criminosos confessos, porque excomungar os lobistas legítimos?
Lobby não é sinônimo de mentira, de empulhação e muito menos de corrupção, mas a imprensa já decidiu que é tudo a mesma coisa e que, portanto, o avanço do filho ou apadrinhado de alguém em cima dos cofres públicos faz parte deste conceito.
Há décadas, tem-se buscado no Brasil, como em outros países, regulamentar o lobby mas bancadas parlamentares (não ouso condenar o Congresso como um todo porque é uma instituição que deve ser preservada, apesar das mazelas atuais) postergam a decisão porque talvez prefiram mesmo este ambiente desregulamentado, propício a deslizes éticos.
Está certo: regulamentar o lobby não resolve o problema, não acaba com a sujeira, assim como a prisão e até a pena de morte não liquidam com os criminosos, mas é preciso avançar no sentido de colocar ordem na casa. Não se pode acabar com os presídios por que não se consegue colocar dentro deles todos os bandidos que estão pelas ruas. Vamos lá: do jeito que está, não pode ficar.
A imprensa é assim mesmo: corre atrás do barulho, mas não sabe onde canta o galo e, sensacionalisticamente, promove uma barafunda dos diabos nos conceitos no qual ela mesmo se enreda.
Se é assim, como quer a imprensa, o lobby que ela tem feito para impedir que seus atos abusivos sejam coibidos também deveria merecer a mesma avaliação. O que a imprensa faz em seu favor é lobby ou sacanagem?
O problema não está no lobby porque o conceito em si não incorpora a propina, a falta de ética ou transparência. E, é verdade, não adianta regulamentar, se não for para valer, o que é muito comum neste cenário de hipocrisia política que temos por aqui.
Vamos preservar a integridade dos conceitos e mirar o foco para aqueles que protagonizam processos que se situam em outra esfera. O lobby está no campo da política e da comunicação. O que a imprensa anda revelando tem a ver com sacanagem e se situa no campo policial.
Lobista íntegro tem um papel a desempenhar na democracia. O corrupto merece ser apedrejado moralmente em praça pública. Não vamos confundir alhos com bugalhos. Certos equívocos acabam contribuindo para que não avancemos. Quem sabe, esta não é mesmo a intenção da mídia que continua (alguém duvida?) dizendo amém ao "status quo" porque se locupleta com o cenário atual?
O lobby tem que ser praticado de forma transparente, eticamente e com profissionalismo. Sem esses atributos, como diz o ditado, é outra praia e certamente imunda como algumas que nos recebem em período de férias.
Está na hora de um banho ético e é bom pensarmos nisso porque as eleições estão chegando. Mas para isso precisamos acertar os conceitos. A imprensa anda dando tiro pra todo lado. Desse jeito, até ela vai acabar sendo atingida pelo fogo amigo.






