Livros: "PCC, a facção", de Fatima Souza

Livros: "PCC, a facção", de Fatima Souza

Atualizado em 23/11/2007 às 20:11, por Rodrigo Manzano.

Por Quando São Paulo se viu tomada pelas ações do PCC, em maio do ano passado, muitos dos paulistas e dos brasileiros descobriam apenas naquele momento a existência da facção criminosa que se organizou nas cadeias e penitenciárias do Estado de São Paulo e que, nos subterrâneos, passou a ser a mais potente associação entre os encarcerados. Como um ser obscuro, o PCC mostrou-se vivo, organizado e supostamente legítimo. Lamentavelmente, fora de crises como aquela (ou das fugas da cadeia, seqüestros e julgamentos de seus líderes), o PCC desaparece das páginas de jornal. Sem roteiro cinematográfico, a facção criminosa perde seu appeal . E, sem apelo, as redações - com raras exceções - a ignoram.

Fatima Souza é uma dessas exceções. Junto de mais três ou quatro repórteres, acompanha o Primeiro Comando da Capital com ou sem fogos de artifício. E leva vantagens sobre todos os outros setoristas de polícia: foi a primeira repórter a falar da existência do PCC, a primeira a publicar seu estatuto, a falar com seus líderes, a ser procurada pelos chefes da facção. Desde então, o número de seu telefone celular é acionado pelos presidiários à oferta de informações que ela, somente ela, poderá tornar públicas.

Essa vantagem pode tornar-se uma espécie de maldição. Como a de Midas, que transformava em ouro tudo o que tocava. A cautela da autora, por isso mesmo, é redobrada. Quem procura nesse livro alguma opinião, juízo ou parecer sobre o PCC ou sobre os integrantes da facção, decepciona-se. Como boa repórter, ela não emite opiniões. Ela apenas conta histórias.

Na complacente cultura brasileira, o malandro ocupa papel de destaque, oras paternal, ora folclórico, sob alegorias de uma boa intenção escondida por trás dos delitos. O livro revela a inocência perdida dos criminosos. A violência do PCC - que mata, arranca cabeças e as expõe em estacas, incendeia ônibus e seqüestra inocentes - é o avesso do bom malandro. Só que a proximidade com que Fatima Souza opera em relação ao objeto permite que o seu olhar os humanize, na medida certa, sem vilanias ou heroísmos. Debaixo desse jogo de tensão entre o real e o imaginário, sobrevive o relato privilegiado da repórter, uma figura simples, sem afetações nem julgamentos antecipados. Como eram os antigos repórteres, hoje em extinção.

Para escapar da interceptação na correspondência trocada entre os membros da facção, as cartas, logo no início do movimento, substituíram a sigla "PCC" pelo número "1533" (15 em substituição à letra "p" e 3, à letra "c"). Desvendar o PCC é avançar para além das siglas, dos maniqueísmos e das bravatas. É preciso coragem e doçura. Algo que, sem contradições, se encontra em Fatima Souza e que se manifesta nesse livro, de fato uma grande reportagem e não uma "reportagem grande", como estamos acostumados a ler.

"PCC, a facção", de Fatima Souza

Editora Record, 306 páginas, R$ 45