Livros - Estante do Jornalista
Livros - Estante do Jornalista
TRANSAMÉRICA ÀS AVESSAS
Por Alessandro Giannini, especial para IMPRENSA*
Este livro é mais uma narrativa de viagem do que qualquer outra coisa, é um tour por seis cidades de um continente, a visão de uma mulher sobre a vida aproximada de um homem, e não um guia autorizado para todo o vasto e variado terreno da masculinidade na América. Na definição de Norah Vincent acerca de Feito Homem , o livro que a jornalista americana escreveu sobre a experiência de se fazer passar por homem, pode-se vislumbrar algo que se perdeu no jornalismo contemporâneo. Ou seja, a exposição elaborada de uma experiência, sem a pretensão de grandes vôos literários, sócio-antropológicos ou qualquer outra coisa parecida. Em palavras muito mais simples: uma história muito boa.
Parece que a evolução tecnológica, a multiplicação de fontes e a democratização da informação transformaram o jornalismo em algo necessariamente efêmero e descartável. A idéia é captar, digitar e jogar na rede. O que houve com o velho e bom apurar, escrever, reler e publicar? Da mesma forma, o método também parece ter desaparecido. Feito Homem , que tem o longo e sugestivo subtítulo A Jornada de uma Mulher no Mundo dos Homens e Seu Caminho de Volta , também tem mais essa qualidade. Expõe todo o trabalho de preparação, adaptação e mergulho na experiência de Norah no papel de Ned, o alter ego masculino com o qual a jornalista se infiltrou em uma equipe de boliche, foi a clubes de strip-tease, promoveu encontros amorosos com mulheres, trabalhou em um escritório e até se internou em um mosteiro.
Essa simplicidade e a objetividade com a qual Norah descreve e narra sua experiência como Ned estão desaparecidas do noticiário, nos jornais, nas revistas, nos telejornais e nos programas jornalísticos. O instantâneo tomou conta de tudo, inclusive da cabeça das pessoas - sejam leitores ou telespectadores.
Tudo que exija mais de 30 segundos de atenção torna-se um fardo difícil de carregar. Essa jornalista que foi colunista do Los Angeles Times e publica artigos para as revistas The New Republic , New York Post , The Village Voice e The Washington Post transforma o lento e meticuloso processo de transformação pelo qual passava todos os dias em uma narrativa deliciosa, que se materializa em imagens muito nítidas na imaginação dos leitores assim que evolui.
Homossexual assumida, Norah dedica o livro a Lisa, sua parceira de vida. Curiosamente, não mergulha nesse departamento de sua vida para explicar porque resolveu levar a experiência adiante. Apesar disso, volta à infância, ao desprezo pelas brincadeiras de meninas e à relação conflituosa com o irmão mais velho (e os amigos dele) para justificar sua curiosidade acerca dos supostos privilégios de que os homens - ou o que o senso comum costuma achar que são os homens - gozam diariamente. Ela também evita os psicologismos ao constatar que, por mais controle que tivesse, não deixou de pagar um preço emocional pela iniciativa. Tanto na sua relação com as pessoas que enganou quanto para consigo mesma. * Alessandro Giannini é editor da revista SET
FEITO HOMEM
NORAH VINCENT
PLANETA
304 PÁGINAS
R$ 34,90
NOSTALGIA E REVOLUÇÃO
A década de 60 foi marcada por rupturas. Che Guevara, Beatles, Vietnã, a ida do homem à lua, ditaduras militares, guerrilha urbana, movimento estudantil, um inesquecível mês de maio...Todos os movimentos giravam em torno de uma só palavra: revolução. Entre as vertiginosas mudanças daquela década de ouro - e de chumbo - o jornalismo brasileiro também viveu seu turbilhão criativo. O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60 , organizado por Chico Homem de Melo, professor de Programação Visual da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, faz um resgate histórico do nosso design nativo. A importância do livro está na pouca - quase inexistente - documentação sobre o tema no Brasil. Quem se interessa pela história das revoluções gráficas, tem que revirar baús em busca de revistas antigas. O livro tem a preocupação de fazer um levantamento iconográfico inédito sobre a produção da época. No capítulo mais interessante para a tribo, "Design de revistas", duas publicações ganham destaque: Senhor e Realidade . Diz o autor que essas duas revistas "sintetizam as transformações do design gráfico dos anos 60". O projeto gráfico do livro busca manter-se fiel à filosofia da produção dos 60: títulos grandes, em Helvética, e um saudável excesso de imagens que consegue não prejudicar o tamanho dos textos. O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60 é mais que um livro, é um farol para os modernosos defensores da dicotomia entre texto e imagem.
DESIGN GRÁFICO BRASILEIRO: ANOS 60
ORGANIZADOR: CHICO HOMEM DE MELO
COSAC NAIFY
304 PÁGINAS
R$ 74,00
COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL TEORIA E O DIA A DIA DAS ASSESSORIAS DE COMUNICAÇÃO
Rivaldo Chinem
Horizonte
158 páginas
R$ 26,00
AS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS ainda não reconhecem a comunicação empresarial como um ramo do jornalismo. Na visão ideológica da academia, os assessores de imprensa são considerados pseudo - jornalistas. Teorias e convicções à parte, a realidade do mercado de trabalho mostra que a gestão da comunicação vem ganhando status cada vez mais estratégico em empresas de todos os portes. Apesar de quase não existir como disciplina, a assessoria de imprensa absorve mais da metade da mão-de-obra que chega ao mercado. Nesse contexto, o livro Comunicação Empresarial - Teoria e o dia-a-dia das Assessorias de Comunicação tem a pretensão de ser uma ferramenta prática, uma espécie de guia para estudantes e iniciados.
FURTA COR
Thiago Iacocca
Conex
176 páginas
R$ 34,00
PAIS, AMIGOS, EX- NAMORADA e um estranho diploma de jornalismo no fundo de uma gaveta qualquer. Na volta para casa depois de um período na Europa, um certo Vitor D`Andrea tem que decidir o que fazer da vida. Ele, o personagem central de Furta-cor , tem 24 anos. Thiago Iacocca, o autor do livro, estréia como romancista aos 28 anos, quatro depois de pegar seu diploma de jornalista na PUC-SP. Coincidência? Criador e criatura se confundem nessa história paulistana de encontros, desencontros e dúvidas existenciais. Com um texto ágil e saboroso, repleto de referências culturais da "nova guarda" paulistana, Iacocca passeia com desenvoltura pela geração "ano 2000". O livro do estreante conta com um prefácio de peso, assinado por ninguém menos que Ignácio de Loyola Brandão.
O SEGREDO DA NUVEM
Ignácio de Loyola Brandão
Global
96 páginas
R$ 23,00
IVO ESTAVA NO CINEMA quando alguém da fila de trás pediu para que ele tirasse seu chapéu. "Mas que chapéu? Nunca usei chapéu?". Na verdade, o que parecia um chapéu era uma nuvenzinha úmida, que instalou-se sobre a cabeça do personagem e passou a ser sua companhia permanente. Mas, afinal, qual é o segredo da nuvem? A partir dessa pergunta, Ignácio de Loyola Brandão desenvolve, com a mesma habilidade dos romances e crônicas, seu quarto livro infanto-juvenil. Entre as metáforas do O Segredo da Nuvem , o autor mostra "como as pessoas estão influenciadas pela televisão" e que aparecer "é o que todo mundo quer e gosta".
COMUNICAÇÃO MONOTEÍSTA A FONTE DOS DISCURSOS DO PARTIDO DOS TRABALHADORES E DA REDE BRASIL SUL
Álvaro Laranjeira
Sulina
239 páginas
R$ 29,00
NA APARÊNCIA, INCOMPATÍVEIS. Na essência, semelhantes. Na prática, complementares. Em suma, essa é tese apresentada pelo livro Comunicação Monoteísta . De um lado, o Partido dos Trabalhadores, do outro, a Rede Brasil Sul. Inimigos declarados, essas duas forças são tão diferentes quanto iguais. O livro mergulha no universo de cada um deles com o objetivo de encontrar um ponto de convergência. Laranjeira se baseia na apropriação de termos como isenção, imparcialidade, transparência, responsabilidade, independência, tradição e ética para desconstruir e aproximar os dois discursos. No entanto, a Comunicação Monoteísta é excludente, lógica e monolítica. Como se percebe no credo monoteísta propagado pelo Partido dos Trabalhadores e pela Rede Brasil Sul.






